Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça Acórdãos STJ Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça Processo: 5/13.1JBLSB.L1.S1 Nº Convencional: 3.ª SECÇÃO Relator: HELENA FAZENDA Descritores: RECURSO PENAL ORGANIZAÇÃO TERRORISTA IN DUBIO PRO REO NULIDADE ERRO DE JULGAMENTO MATÉRIA DE FACTO CONTRADIÇÃO INSANÁVEL MATÉRIA DE DIREITO PRINCÍPIO DA PRESUNÇÃO DE INOCÊNCIA INCONSTITUCIONALIDADE DUPLA CONFORME REJEIÇÃO DE RECURSO INADMISSIBILIDADE QUALIFICAÇÃO JURÍDICA MEDIDA CONCRETA DA PENA PENA DE PRISÃO PREVENÇÃO GERAL PREVENÇÃO ESPECIAL Data do Acordão: 07/13/2022 Votação: UNANIMIDADE Texto Integral: S Privacidade: 1 Meio Processual: RECURSO PENAL Decisão: PROVIDO EM PARTE Indicações Eventuais: TRANSITADO EM JULGADO Sumário : I - A alteração da matéria de facto não é da competência do STJ. II - Relativamente aos vícios previstos no art. 410.º, n.º 2, do CPP, constitui jurisprudência pacífica do STJ que os vícios a que se refere esta norma são atinentes a matéria de facto e, por isso, o tribunal superior deles não conhece a pedido do recorrente, como é o caso, mas exclusivamente a título oficioso, se o vício resultar do texto da decisão recorrida, por si só, ou conjugada com as regras da experiência comum, pelo que os vícios a que alude a citada norma do CPP não podem ser fundamento de recurso. III - Considerando que da decisão recorrida, por si só ou conjugada com as regras da experiência comum, não resultam quaisquer vícios, contemplados no citado art. 410.º, nºs 2 e 3, mostra-se definitivamente assente a matéria de facto IV - Tendo o Tribunal da Relação no acórdão recorrido, para além do julgamento da matéria de facto, reapreciado especificadamente cada uma das questões apresentadas por ambos os recorrentes na impugnação da decisão condenatória da 1ª instância, e tendo decidido pela improcedência de todas as pretensões recursórias, confirmando, “ipsis literis”, a decisão condenatória, resulta verificada dupla conformidade relativamente integral, tornando inadmissível a sua sindicância, através de recurso em segundo grau para um triplo grau de jurisdição, isto é, para o STJ. V - Estamos, assim, perante um recurso puramente de revista, circunscrito, assim, ao reexame da decisão recorrida, proferida pelo Tribunal da Relação em matéria de direito, resultando excluídos, do âmbito deste recurso, eventuais vícios, processuais ou de facto, da decisão proferida em 1.ª instância. VI - O arguido foi condenado na pena de 9 anos de prisão pela prática do crime de organizações terroristas (apoio a organizações terroristas), previsto e punido pelos arts. 1.º, 2.º, nºs.1, als. a), b), c),
(2014). 24. O Estado Islâmico foi, também, considerado uma organização terrorista pelo Regulamento (EU) 2016/363, de 14.03.2016, do Conselho da União Europeia. 25. O território conquistado pelo grupo terrorista ISIS, ou ISIL, ou Estado Islâmico aumentou, com consequências devastadoras do ponto de vista humanitário, para as populações que ficaram sob o seu domínio. 26. Pelo menos desde 2013, a UNITAD - United Nations Investigative Team to Promote Accountability for Crimes Committed by Daesh/ISIL, através do mandato atribuído pela Resolução n.° 2379 de 2017, das Nações Unidas, atribuiu ao Estado Islâmico, face a 202 valas comuns que foram descobertas, cerca de 12.000 mortes, entre as quais de mulheres e crianças. 27. Nessas valas comuns, foram identificados membros da etnia Yazidi, pelo que a UNITAD estima que, entre 2000 a 5500 membros dessa etnia, foram mortos por combatentes do Estado Islâmico. 28. A etnia Yazidi é uma comunidade étnico-religiosa curda, cujos membros praticam uma antiga religião sincrética e monoteísta, o Yazidismo, ligada ao Zoroastrismo, religião da Pérsia antiga, e a antigas religiões da Mesopotâmia. 29. A maior parte dos seus membros é originária de Ninawa, província no norte do Iraque, cuja capital é Mossul. 30. A etnia Yazidi foi vítima da prática de crimes de guerra ou contra a humanidade praticados por combatentes do Estado Islâmico, nomeadamente tortura, violações, raptos, tráfico de pessoas e escravidão. 31. Clérigos radicais islamitas e organizações terroristas de matriz jihadista, através dos seus canais de propaganda, apelaram intensamente à participação no conflito sírio. 32. O movimento de combatentes terroristas estrangeiros, FTF - Foreign Terrorist Fighters, que se deslocou para as terras do Levante para cumprirem a jihad e participarem no conflito sírio, avolumou-se. 33. A proeza militar obtida com a proclamação do Califado do Estado Islâmico granjeou sentimentos de apoio e regozijo no seio dos movimentos fundamentalistas islâmicos espalhados pelo mundo, que, em simpatia com a causa jihadista, têm desencadeado actos de terror indiscriminados e aleatórios pelo mundo inteiro. 34. Perante a natureza particularmente alarmante e gravosa que esta ameaça representa para o mundo, a comunidade internacional, por intermédio de uma coligação de vários países, liderada pelos EUA, desencadeou uma campanha militar contra o ISIS, ISIL ou Estado Islâmico, na Síria e no Iraque. 35. Esta acção militar conteve, de forma significativa, a expansão desta organização terrorista, provocando, ao mesmo tempo, uma forte vontade de retaliação contra o Ocidente. 36. Após a tomada de Baghouz, pelas SDF - Syrian Democratic Forces, em 03.03.2019, último reduto do território mantido pelo Estado Islâmico na Síria, com a diminuição dos seus recursos, com a formação de convicções de que poderá desaparecer, o desespero sentido potencia o risco que esta organização terrorista recorra, para a prática de actos de barbárie, aos lobos solitários (lone wolfs), devolvendo, para este específico efeito, os combatentes para os seus países de origem, na Europa, a fim de espalharem o terror de forma a tentar coagir os Estados envolvidos a recuar na sua investida contra o Estado Islâmico na Síria e no Iraque. 37. E a eliminação total do Califado do Estado Islâmico potenciou o surgimento de células adormecidas jihadistas. 38. É concreto o risco de disseminação de sementes da radicalização. 39. Em Setembro de 2019, o Califa, líder do Estado Islâmico, Abu Bakr Al Baghdadi dirigiu-se a todos os muçulmanos que se encontravam presos e em campos de refugiados e incitou-os a matar os infiéis e a fazer a jihad contra eles. 40. O território físico do Califado foi destruído, mas o ideal do Califado não desapareceu. 41. Os indivíduos de seguida identificados, imbuídos do mesmo fervor jihadista, são uma ameaça real contra a segurança pública e a paz social de qualquer Estado para onde se desloquem. 42. AA nasceu em .... 43. É oriundo de uma família católica. 44. Quando tinha três anos, veio para Portugal, com a mãe e a irmã mais velha. 45. Aos 9 anos, AA foi viver para uma instituição católica, na região de ..., onde ficou até aos 15 anos. 46. Ali, tinha a alcunha de “DDDD”, numa alusão ao .... 47. Nessa instituição católica foi baptizado e fez a primeira comunhão. 48. Ainda adolescente, emigrou de Portugal para ... com a família. 49. Foi viver para ..., ... onde reside uma das maiores comunidades muçulmanas de .... 50. Em ..., casou-se e teve um filho. 51. Divorciou-se, pouco tempo depois do nascimento do filho, em 2007. 52. Após o divórcio, foi viver para um apartamento na zona de ..., ... de ..., onde viveu durante cerca de quatro anos. 53. Esse apartamento era situado perto do local onde, em 2006, foi descoberta uma fábrica de explosivos destinada a atentados terroristas. 54. Nessa altura, com cerca de 22 anos, converteu-se ao Islão. 55. E, ao mesmo tempo, conheceu os portugueses que tinham chegado, entretanto, a ...: EE e os irmãos PP e YY. 56. Mais tarde, conheceu LLL e EEE. 57. YY, PP e o arguido VVV são irmãos e são oriundos de ..., .... 58. Na juventude, jogavam futebol. 59. Dançavam ... e gostavam de .... 60. Frequentaram a Escola Secundária ..., em .... 61. Foram colegas de escola de LLL com quem, também, jogavam futebol. 62. LLL vivia igualmente em .... 63. Em 2007, LLL foi viver para ..., para o .... 64. PP licenciou-se em ..., no .... 65. Quando terminou a licenciatura, foi para ..., com intenções de prosseguir os estudos na Universidade .... 66. Foi viver para o mesmo ... de .... 67. E nesse ... começou a frequentar a Mesquita de .... 68. YY foi, entretanto, para ..., por influência do irmão PP. 69. E, também, foi viver para o .... 70. Em finais do ano de 1999, o arguido VVV foi também viver para .... 71. VVV, nos seus tempos livres, era ..., com o nome artístico de ZZZ. 72. EEE, também oriundo de EEEE, mudou-se para ... aos 19 anos, com o objectivo de estudar ... e tornar-se .... 73. Era amigo de PP e de YY. 74. Tendo vindo a encontrá-los no ..., para onde foi viver. 75. E onde, também, se converteu ao Islão. 76. EE e o arguido SSS são irmãos e são oriundos da ...- . 77. Vieram para Portugal em 1986, para a ..., mudando-se depois, com a família, para .... 78. A família ... professa o Islão. 79. YY, PP, EE, LLL e EEE já se conheciam e privavam em .... 80. No ano 2003, EE foi viver para .... 81. Em 2005/2006, o arguido SSS também emigrou para o ..., tendo vivido inicialmente com o seu irmão, em .... 82. Residiu com o mesmo até que EE casou com uma ... convertida ao Islão. 83. Nessa altura, já se encontravam, em ..., YY, PP e o arguido VVV. 84. EE e os irmãos PP e YY passaram, então, a conviver em .... 85. AA, LLL e EEE viviam, também, em .... 86. No entanto, apesar de serem da ..., o arguido SSS só conheceu AA e EEE em .... 87. AA, PP, YY, EEE, LLL e o arguido VVV são muçulmanos convertidos, com convicções político-religiosas extremistas. 88. Por sua vez, como referido, EE e SSS têm origem numa família muçulmana, sendo que o primeiro também tem convicções político-religiosas extremistas. 89. O arguido VVV e os indivíduos acima identificados (AA, EE, PP, YY, EEE e LLL) conheciam as convicções político-religiosas extremistas uns dos outros. 90. O arguido SSS também conhecia as convicções político-religiosas extremistas do irmão, e, bem assim, daqueles outros indivíduos. 91. CCCC e FFFF são ... de origem .... 92. CCCC, FFFF, YY e EE foram suspeitos, no ..., da autoria do rapto dos jornalistas ... e ..., que teve lugar na ..., na .... 93. EE e YY, por um lado, e CCCC e FFFF, por outro, têm relações familiares entre si. 94. A mulher de FFFF, GGGG, é irmã de CCCC, de HHHH e de IIII, ..., de origem .... 95. Por sua vez, HHHH e IIII são mulheres, respectivamente, de YY e de EE. 96. JJJJ, ..., é mulher de PP. 97. KKKK, ..., é mulher de EEE. 98. LLLL é mulher de LLL, e MMMM é filha de ambos. 99. Os irmãos ... eram todos residentes em .... 100. Em Portugal, YY, PP, SSS e CCCC não exerciam qualquer actividade remunerada conhecida. 101. As suas rotinas, sobretudo a de YY e de PP, cingiam- se a idas ao supermercado, a jogos de futebol e à manutenção da condição física, em ginásios de musculação. 102. Não tinham qualquer ligação visível à comunidade muçulmana, em Portugal. 103. Não tinham por hábito frequentar locais de culto, ainda que se tenham deslocado, poucas vezes, à Mesquita ..., para orações à sexta-feira, por exemplo, no dia 01.02.2013. 104. Em 2009, o arguido VVV deslocou-se a Portugal para renovar o seu bilhete de identidade e o seu passaporte, uma vez que o seu anterior passaporte, com o n.° ..., emitido a 28.11.2003, havia caducado em 28.11.2008. 105. Em 29.01.2009, VVV procedeu ao levantamento do seu passaporte n.° ..., emitido em 26.01.2009, no local onde solicitou a renovação, ou seja, no então Governo Civil .... 106. Após a renovação dos documentos, regressou a ..., sendo que em 11.06.2019, viajou novamente para ... com o objectivo, para além do mais, de proceder à renovação do seu passaporte, porque tal procedimento seria mais célere em ... do que nos Serviços Consulares de Portugal, em .... 107. Após a ida definitiva para a ..., referida de seguida, os mencionados indivíduos tinham as seguintes mulheres e filhos:
- a)AA: -1. a Mulher: NNNN, nascida a .../.../1989, de nacionalidade ..., .... Filhos: dois; -2. a Mulher: OOOO, nascida a .../.../1985, passaporte n.° ..., natural da ..., de nacionalidade ..., casou na ...; -3. a Mulher: PPPP, nascida a .../.../1995, natural da ..., de nacionalidade ..., viajou para a ... em .../.../2014, casou na .... São-lhe reconhecidos mais dois casamentos e um total de dez filhos.
- b)YY: -1.a Mulher: HHHH, também com o nome de QQQQ e RRRR, natural do ..., nascida a .../.../1988, passaporte n.° ..., válido até 05.10.2021, de nacionalidade ... (as autoridades ... retiraram-lhe a nacionalidade). Viajou para a ... em .../.../2013. Filhos: SSSS, nascido a .../.../2013, no ... e TTTT, nascido a .../.../2014,na ...; -2. a Mulher: UUUU, também com o nome de VVVV e WWWW, de nacionalidade .... Filhos: XXXX, nascido a .../.../2016, na ...; -3. a Mulher: YYYY, natural da ..., de nacionalidade .... Filhos: ZZZZ, nascido a .../.../2017, na ....
- c)PP: - Mulher: JJJJ, nascida a .../.../1993, natural da ..., de nacionalidade ..., passaporte n.° ..., válido até 08.03.2022, casamento registado em ..., viajou para a ... em .../.../2013. Filhos: AAAAA, nascido a .../.../2013 em Portugal, BI português n.° ... (caducado), BBBBB, nascida a .../.../2015, na ..., CCCCC, nascido a .../.../2016, na ....
- d)EE: - Mulher: IIII, também com o nome de DDDDD e RRRR, nascida a .../.../1989, natural do ..., de nacionalidade ..., passaporte n.° ..., válido até 22.04.2023 (as autoridades ... retiraram-lhe a nacionalidade). Filhos: EEEEE, nascido a .../.../2012 na ..., BI português n.° ... (caducado), FFFFF, nascido em .../.../2013, na ..., GGGGG, nascido em .../.../2015, na ....
- e)EEE: -1. a Mulher: KKKK, nascida a .../.../1992, de nacionalidade ..., passaporte n.° ..., viajou para a ..., em .../.../2015. Filhos: HHHHH, nascido em .../.../2014, no ...; - 2. a Mulher: PPPP, nascida a .../.../1995, natural da ..., de nacionalidade ..., viajou para a ... em .../.../2014 e casou na .... Um filho.
- f)LLL: -Mulher: MMMM, nascida a .../.../1990, natural do ..., de nacionalidade ..., passaporte n.° ..., viajou para a ... em .../.../2014. Filhos: MMMM, nascido em .../.../2012, no ..., BI português n.° ... (caducado). O desígnio. 108. No ano de 2011, e no início do ano de 2012, AA, EE, PP, YY, EEE e LLL, por profunda convicção político-religiosa, marcadamente salafista, tinham aderido, através de um grupo que criaram, em ..., a movimentos fundamentalistas islâmicos, defendendo-os, glorificando-os, proclamando-os e assumindo-se como representantes activos desses mesmos movimentos. 109. Agiam por profunda convicção política e religiosa, imbuídos das mesmas aspirações e desígnios, designadamente fazer parte de um movimento internacional fundamentalista islâmico, de matriz jihadista, a denominada jihad global. 110. Por seu turno, os arguidos SSS e VVV, conhecedores dessa realidade, decidiram prestar auxílio moral e material aos referidos indivíduos, contribuindo para a execução dos objectivos do grupo formado por estes últimos, e, bem assim, para os fins gerais da organização terrorista Estado Islâmico. 111. Os arguidos são politicamente esclarecidos, acompanharam o desenrolar do conflito na ... e outros eventos relacionados com o terrorismo internacional, conotados com o fundamentalismo islâmico, e sobre os quais o arguido VVV tecia comentários de regozijo e de aprovação, identificando-se com essa ideologia extremista. 112. No ano de 2011 e início do ano de 2012, AA, EE, PP e YY viajaram para a ..., onde frequentaram campos de treino de combate de grupos fundamentalistas islâmicos com ligações à organização terrorista Al-Shabab. 113. PP assumiu nesses campos de treino o papel de instrutor. 114. Foi na ... que PP conheceu a primeira mulher, a ... JJJJ. 115. Da ..., AA seguiu para o ..., depois para a ... e daí para a ..., onde chegou no dia 14.04.2012, à localidade de ..., no norte da ..., na província de ..., junto à fronteira .... 116. AA viajou com PP. 117. Conseguiram entrar na ... com ajuda da Ahrar al-Sham, uma coligação de vários grupos salafistas que se uniram para combater o regime de ..., e de facilitadores a quem pagaram para entrar no país. 118. AA foi recrutado por IIIII, nome de guerra de JJJJJ, que iniciou uma onda de sequestros de ocidentais, na ..., para o grupo Majlis Shura Dawlat al Islam. 119. AA adoptou o nome de DD. 120. AA ficou nas zonas de ... e de ..., nas províncias de ... e ..., respectivamente, com membros da coligação Ahrar al-Sham. 121. Foram internacionalmente atribuídos a esta coligação os sequestros dos fotojornalistas ... e KKKKK, nas imediações da fronteira de .... 122. Após, AA juntou-se, em ..., perto de ..., ao Kata’ib al- Muhajireen ou Brigada dos Emigrantes. 123. Na Brigada dos Emigrantes, AA começou por ser sniper do Batalhão. 124. Depois, assumiu as funções de Emir (termo árabe que significa Comandante). 125. Durante o conflito, entre o então Estado Islâmico do Iraque e da Síria (ISIL) e o Exército Livre da Síria, AA viajou, com as suas mulheres, para ..., cidade do ... da ... e juntou-se ao Estado Islâmico, em 2014, após a declaração do Califado. 126. Posteriormente, foi incluído num grupo de estrangeiros chamado katibat (Batalhão) Musab al Zarqawi. 127. Ficou encarregue de registar os recrutados que chegavam da Europa. 128. Mais tarde, mudou de tarefas, passando a assumir as funções de reconhecimento. 129. AA é conhecido, internacionalmente, como membro próximo do grupo de ... conhecido por Os Beatles, cujo líder era Mohammed Emwazi ou Jihadi John, responsável pela tortura e execução de reféns ocidentais. 130. Em 2012, EE e YY deslocaram-se, também, no âmbito da integração nesses movimentos terroristas, à ..., acompanhados pelas respectivas mulheres. 131. EE entrou na ..., em 03.03.2012, exibindo o seu passaporte português ..., com visto da mesma data e com validade até 03.06.2012. 132. EEEEE, filho de EE e de IIII, nasceu, na ..., nessa altura 133. EE entrou na ... em 20.04.2012, exibindo o seu passaporte português e saiu em 09.08.2012. 134. O nascimento de EEEEE foi registado, nesse ano, na Secção Consular da Embaixada de Portugal, em ..., na .... 135. Em Agosto de 2012, com excepção de AA, todos regressaram, com as respectivas mulheres e filhos, à Europa. 136. O regresso destes indivíduos à Europa teve como objectivo obterem meios financeiros e aliciarem mais combatentes, sobretudo em ..., para integrar a organização terrorista e cumprirem a jihad na .... 137. Como AA, em 2013, os demais indivíduos referidos (EE, PP, YY, EEE e LLL) passaram a integrar a organização terrorista ISIL ou ISIS. 138. E em 2014, passaram a integrar a organização terrorista Estado Islâmico. 139. EEE, primeiro, assumiu as funções de soldado e, mais tarde, já no domínio do Califado do Estado Islâmico, de instrutor militar. 140. Em cerca de três meses, deu instrução a mais de mil recrutas. 141. Imbuídos de uma visão radical do Islão e desintegrados da comunidade portuguesa, quando regressaram a Portugal e ao ..., delinearam uma estratégia conjunta que lhes permitisse regressar, com as respectivas famílias, à ..., a fim de se juntarem à organização terrorista a que pertenciam. 142. Os arguidos SSS e VVV nunca se deslocaram à .... 143. Não obstante, o arguido SSS teve um papel relevante no suporte de actividades do referido grupo, correspondendo às solicitações que lhe eram dirigidas pelos seus membros, nomeadamente pelo seu irmão EE. 144. Com efeito, prestou apoio no financiamento do grupo, nomeadamente no recebimento de quantias monetárias, sua distribuição por membros do mesmo, e guarda de documentos (livro) relacionados com o esquema ilegal para obtenção de subsídios, praticado em ... por EE. 145. Assumiu, ainda, funções de apoio, em Portugal, a, pelo menos, um indivíduo aliciado e recrutado em ..., para posteriormente se deslocar para a ..., a fim de aí combater nas fileiras do Estado Islâmico. 146. AA, EE, PP, YY, EEE e LLL conheciam as rotas, o terreno e os facilitadores na ... e na .... 147. Nesse contexto, aliciaram, recrutaram, financiaram e apoiaram logisticamente a deslocação de cidadãos britânicos e portugueses para a .... 148. AA, EE, PP, YY, EEE e LLL decidiram, também, recrutar combatentes, aliciando, convencendo, levando e encaminhando jovens britânicos para a jihad, sem qualquer preparação militar, aumentando, assim, as fileiras das organizações terroristas de matriz jihadista, na .... 149. Os referidos indivíduos também utilizaram o território nacional como base de apoio aos recrutados e a todos os que se iam juntando ao grupo. 150. EE aliciava e convencia os jovens britânicos em ..., e enviava-os para .... 151. Os restantes, nomeadamente PP e LLL, acolhiam-nos em Portugal, providenciavam todo o apoio logístico até se encontrarem reunidas as condições financeiras para viajarem até à ... e depois até à .... 152. Na execução de tal desígnio, AA assegurava toda a logística necessária para recolher, na ..., os que ali chegavam e, recorrendo a facilitadores locais ou militantes do grupo jihadista terrorista a que pertencia, assegurava a sua passagem, pela fronteira ..., para a .... 153. Agiram com o propósito de que, para além dos próprios, os indivíduos recrutados passassem a integrar as referidas organizações. 154. Os referidos indivíduos sabiam que todos eles faziam parte e se encontravam devidamente integrados na organização terrorista Brigada dos Emigrantes, depois na organização terrorista Estado Islâmico e que, no seio destas, dedicavam-se à prática de crimes de rapto e de homicídio. 155. Internacionalmente, Mujahideen Shura Council ou o ISIL Islamic State of Iraque and the Levant, definem-se como Umbrella Organization. 156. Uma Umbrella Organization ou organização guarda-chuva é uma associação de instituições ou de pequenas organizações que trabalham unidas, formalmente, para coordenar actividades ou reunir recursos, com uma identidade comum. 157. AA, EE, PP, YY, EEE e LLL formavam um grupo a que chamavam, precisamente, de Umbrella Organization. 158. Os referidos indivíduos, bem como o arguido VVV, exaltavam, glorificavam, regozijavam e aprovavam as actuações daquelas organizações terroristas que põem em risco as sociedades democráticas. Cronologia da radicalização, adesão e recrutamento, e apoio _prestado _pelos arguidos ao grupo. Assim, na concretização do seu desígnio: 159. No início do ano de 2012, como referido, EE, YY, PP, CCCC e AA estavam na .... 160. No dia 09.10.2012 e 12.11.2012, vários outros indivíduos foram detidos pelas autoridades judiciárias ..., no âmbito do processo-crime onde se investigava o rapto de jornalistas, na .... 161. Entre 04.04.2012 e 08.08.2012, EE esteve na ..., para onde foi através da fronteira terrestre .... 162. Em Agosto de 2012, EE, YY, PP e CCCC regressaram à Europa. 163. AA permaneceu na .... 164. YY regressou a Portugal, por via aérea, vindo de ..., em 02.08.2012, no voo ...50, da .... 165. YY viajou, de seguida, para o ..., em data não apurada. 166. PP regressou a Portugal, no mesmo dia 02.08.2012 e no mesmo voo. 167. Quando se encontrava em Portugal, YY residia na casa dos seus pais, na morada acima identificada, em .... 168. Também quando se encontrava em Portugal, PP residia na casa dos seus pais, em ..., juntamente com a sua mulher JJJJ. 169. Em Agosto de 2012, no referido dia 2, o ... CCCC, cunhado de YY, viajou para ..., por via aérea, vindo de ..., onde esteve na companhia de YY e de PP. 170. Nessa data, perfazia uma semana da libertação dos dois jornalistas ... e .... 171. Após, em data não apurada, CCCC deslocou-se para o .... 172. Em 2012, como referido, EEE residia em .... 173. No dia 26.11.2012, YY viajou de ... para .... 174. Em 2012, o arguido SSS e LLL encontravam-se em Portugal. 175. Nessa altura, SSS residia com os seus pais, com a sua mulher LLLLL e com o filho de ambos, MMMMM, em .... 176. No dia 08.01.2013, HHHH, mulher de YY, que se encontrava grávida em fim de tempo, viajou sozinha, de avião, de ... para .... 177. YY não acompanhou HHHH a ..., com receio das autoridades ..., país onde já não voltou desde que saiu em 26.11.2012. 178. Assim, em 09.01.2013:
- a)EE encontrava-se em ...;
- b)YY e PP encontravam-se em Portugal;
- c)AA permanecia na ...;
- d)LLL encontrava-se em Portugal;
- e)EEE no ...;
- f)O arguido SSS encontrava-se em Portugal;
- g)O arguido VVV encontrava-se no ..., onde sempre permaneceu. 179. Em 2013, o arguido SSS e LLL viajaram, algumas vezes, de e para o .... 180. Viajava a pedido do seu irmão EE, colaborando e prestando o apoio que lhe era pedido pelo mesmo. 181. No dia 09.01.2013, o arguido SSS viajou de ... para ..., por via aérea. 182. EE pretendia seguir no mesmo voo, mas foi detido, em ..., nesse dia, pelas autoridades ..., por suspeitas no envolvimento no referido rapto de dois jornalistas. 183. No dia 10.01.2013, e sabendo que a sua cunhada HHHH se encontrava em ..., PP telefonou ao seu irmão, YY, marido daquela, para saber notícias. 184. No decurso do telefonema, PP perguntou a YY “O que é que diz a dread?”, referindo-se a HHHH. 185. YY respondeu que a sua mulher lhe tinha dito que tinham ido buscar o irmão do .... 186. Referia-se PP a NNNNN irmão de FFFF, o ..., outro dos detidos no âmbito do mesmo processo ..., o que foi, também, entendido pelo seu irmão. 187. FFFF é marido de GGGG, outra das irmãs de HHHH, IIII e CCCC . 188. PP concluiu, ao telefone, que EE tinha sido detido, também, por causa “daquela cena”, o rapto dos jornalistas. 189. PP e YY conheciam as suspeitas das autoridades ... que levaram à detenção de EE, nomeadamente a suspeita da sua participação no rapto dos dois jornalistas. 190. Nos dias seguintes, YY e PP trocaram mensagens escritas (SMS), comentando as notícias relacionadas com a detenção de quatro indivíduos, um deles português, suspeitos do envolvimento no referido rapto. 191. No dia 26.01.2013, PP e EE falaram ao telefone sobre uma reunião que iria decorrer entre os dias 10 e 13 de Fevereiro, tratando-se do dia internacional da empresa, “reunião onde iria estar presente muita gente, mas não seria nada sobre raptos”. 192. Referiam-se PP e EE a uma reunião da organização terrorista a que pertenciam. 193. Em 27.01.2013, CCCC voltou a Portugal, proveniente de ..., .... 194. Na verdade, CCCC foi impedido de entrar em território .... 195. PP deslocou-se ao Aeroporto ..., onde esperou por CCCC. 196. No entanto, os dois desencontraram-se. 197. PP telefonou, então, a CCCC, e disse-lhe que se encontrava no Terminal n.° ... do Aeroporto. 198. CCCC informou-o de que tinha apanhado um táxi e já se encontrava em casa dos pais de PP. 199. CCCC instalou-se em ..., na casa dos pais de YY, PP e do arguido VVV. 200. Em 23.02.2013, PP acedeu ao site Kavakazcenter (portal checheno defensor do Emirato do Cáucaso), para ler uma reportagem sobre a acção militar da Kata’iba al-Muhajireen, Brigada dos Emigrantes, em ..., na .... 201. A notícia reporta que o grupo terrorista conquistou uma posição estratégica, nos arredores de ..., derrotando as forças armadas da República ..., naquele local, com publicações de imagens de prisioneiros de guerra, amarrados e vendados, muitos com roupas civis. 202. Em 2013, EEE deslocou-se a Portugal, por duas vezes. 203.A segunda deslocação correspondeu a uma escala para a .... 204. Em 15.03.2013, referindo-se a OOOOO, líder da Brigada dos Emigrantes, a que pertencia AA, este último disse a PP para dizer a EE que se trata de uma ordem, que