Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça Acórdãos STJ Acórdão do Supremo Tribunal de Justiça Processo: 3185/22.1YRLSB.S1 Nº Convencional: 1.ª SECÇÃO Relator: JORGE LEAL Descritores: REVISÃO DE SENTENÇA ESTRANGEIRA REVISÃO E CONFIRMAÇÃO DE SENTENÇA DIVÓRCIO POR MÚTUO CONSENTIMENTO ESCRITURA PÚBLICA CAUSA DE PEDIR DECISÃO LEI ESTRANGEIRA Data do Acordão: 09/20/2023 Votação: UNANIMIDADE Texto Integral: S Privacidade: 1 Meio Processual: REVISTA Decisão: CONCEDIDA A REVISTA, DETERMINANDO-SE O PROSSEGUIMENTO DOS AUTOS Sumário : A escritura pública de divórcio consensual outorgada no Brasil em cartório notarial é suscetível de revisão, constituindo a sua invocação válida causa de pedir, nos termos e para os efeitos da ação especial regulada pelos artigos 978.º e seguintes do CPC. Decisão Texto Integral: Acordam os juízes no Supremo Tribunal de Justiça I. RELATÓRIO 1. AA, luso-brasileiro, portador do documento brasileiro de identidade n.º ...65, residente na Rua ..., na cidade de ..., Brasil, Código Postal ..., propôs contra BB, brasileira, portadora do documento de identificação brasileiro n.º ...3-4, residente na Rua ..., na cidade de ..., Brasil, Código Postal ..., ação especial de revisão de sentença estrangeira. O requerente alegou, em síntese, que por escritura lavrada em cartório notarial brasileiro, que identificou, foi decretado o seu divórcio com a requerida. Requereu que a referida escritura fosse revista e confirmada, para produzir os seus efeitos na ordem jurídica portuguesa. 2. Citada, a requerida nada disse. 3. Em alegações, o Ministério Público e o requerente pugnaram pelo deferimento do requerido. 4. O Exm.º relator proferiu decisão sumária, em que, após julgar a petição inicial inepta, por falta de causa de pedir, indeferiu a petição inicial, declarou nulo todo o processo e declarou extinta a instância. 5. O requerente reclamou para a conferência e, por acórdão proferido em 11.5.2023 (com um voto de vencido), a Relação confirmou a decisão sumária, indeferindo a petição inicial por falta de causa de pedir, julgando nulo o processo e extinta a instância. 6. O requerente interpôs recurso de revista desse acórdão, tendo apresentado alegação em que formulou as seguintes conclusões: 1.ª. O Recorrente apresentou Acção de Revisão para confirmação de Escritura Pública de Divórcio lavrada por Notário no Brasil; 2.ª O Exmo. Juiz Desembargador Relator, de forma sumária, julgou inepta a petição inicial por falta de causa de pedir, ao argumento que a Escritura Pública de Divórcio Consensual lavrada por Notário no Brasil não representa uma “decisão” para os fins previstos no art. 978º do CPC, e, por conseguinte, indeferiu a petição inicial, declarando nulo todo o processo e extinguindo a instância; 3.ª O Recorrente, irresignado, reclamou para a conferência, sem, contudo, obter êxito, eis que o Tribunal a quo manteve a decisão sumária do Relator reeditando os mesmos fundamentos; 4.ª Neste contexto, restou ao Recorrente manejar o presente recurso de revista a este Augusto Tribunal, sustentando que a Escritura Pública de Divórcio apresentada tem força semelhante a de decisões judiciais que decretam o divórcio, uma vez que foi proferida por entidade brasileira legalmente competente para o efeito, estando abarcada no sentido do termo “decisão” contido no art. 978º do CPC, carecendo de revisão para produzir efeitos em Portugal, notadamente para fins de comunicação aos serviços registais. 5.ª Sendo assim, o presente recurso tem por objetivo a reforma do acórdão em crise para que seja julgado procedente o pedido de revisão e confirmação da Escritura Pública de Divórcio do Recorrente e, dessa forma, tenha eficácia perante o ordenamento jurídico interno, o que permitirá ao Recorrente ter seu estado civil regularizado perante o estado português. 7. Não houve contra-alegações. 8. Foram colhidos os vistos legais. II. FUNDAMENTAÇÃO 1. O presente recurso tem por objeto a seguinte questão: a escritura notarial de dissolução de matrimónio trazida a juízo pelo requerente, é suscetível de revisão, constituindo a sua invocação válida causa de pedir, nos termos e para os efeitos da ação especial regulada pelos artigos 978.º e seguintes do CPC? 2.1. A Relação deu como provada a seguinte Matéria de facto 1. Os ora Requerentes contraíram entre si casamento civil, em ...de 1992, em ..., Estado do Rio de Janeiro, na República Federativa do Brasil. 2. Por Escritura de Divórcio Consensual outorgada por ambos os Requerentes, em ... de 2018, no Cartório do ....º Tabelião de Notas da cidade de ..., no Estado de São Paulo, na República Federativa do Brasil, nos termos do artigo 733º do Código de Processo Civil Brasileiro e da Lei n.º 11.411, de 4 de janeiro da República Federativa do Brasil, os Requerentes declararam, perante o Notário, que ficava dissolvido o vínculo conjugal entre eles e passavam a ter o estado civil de divorciados. 2.2. O Direito O tribunal a quo, após ter declarado, na parte introdutória do acórdão recorrido, que “[n]ão ocorrem nulidades, excepções ou questões prévias obstativas do conhecimento do mérito da causa de que cumpra conhecer oficiosamente”, e ter passado, expressamente, a apreciar o “mérito da causa”, concluiu que a petição inicial carecia de causa de pedir, pelo que era inepta, com a consequente nulidade de todo o processo e a extinção da instância. O tribunal a quo fundamentou tal deliberação pelo seguinte modo: “(…) no caso dos autos, o divórcio por mútuo consentimento que se pretende seja reconhecido por esta Relação, através de processo de revisão e confirmação regulado nos artigos 978° e segs. do actual CPC, não foi decretado por nenhum tribunal estrangeiro, nem sequer por qualquer autoridade administrativa ou religiosa a quem, porventura, a ordem jurídica brasileira tivesse conferido poderes de autoridade para decretar a dissolução, por divórcio, dos casamentos. Efectivamente, neste caso, a dissolução do casamento celebrado entre os Requerentes promana das declarações negociais de vontade emitidas pelos próprios cônjuges no contexto duma escritura pública celebrada num cartório notarial, segundo o ritualismo estabelecido pela Lei n° 11.441, de 4/1/2007, em que o notário se limita a certificar que os outorgantes declararam que, pela presente escritura, nos termos do artigo 733º do Código de Processo Civil e da Lei 11.441, de 4 de Janeiro de 2007, ficava dissolvido o vínculo conjugal entre eles [outorgantes], que passam a ter o estado civil de divorciados" (cfr. o documento junto à petição inicial como documento n° 3, a fls. 6-8). Neste quadro, irreleva que, segundo o direito Brasileiro, os Notários ou tabeliães sejam, a par dos registradores, considerados agentes públicos, ou seja, particulares que recebem, por delegação do Estado, a incumbência da execução de determinada atividade, obra ou serviço público e o realizam em nome próprio, por sua conta e risco, mas segundo as normas do Estado e sob a permanente fiscalização do delegante. De todo o modo, não é o Notário ou tabelião brasileiro (que lavra a escritura pública de divórcio consensual) quem declara a dissolução do casamento; são os cônjuges outorgantes que se auto-divorciam, dissolvendo, eles próprios, o vínculo conjugal entre eles existente. O Notário-tabelião brasileiro mais não faz do que certificar as declarações negociais de vontade emitidas pelos outorgantes, através das quais eles próprios dissolvem o seu casamento e decidem que passam a ter o estado civil de divorciados. Trata-se dum divórcio privado, operado pelos próprios cônjuges outorgantes da escritura pública de divórcio, na qual o papel do Notário/Tabelião é, tão só, o de dar fé pública àquelas declarações negociais de vontade. Assim sendo, inexiste, no caso em apreço, uma decisão, judicial, administrativa ou religiosa, passível de ser submetida ao processo especial de revisão e confirmação regulado nos artigos 978° e segs. do CPC de 2013. A ausência de gualquer decisão, seja de natureza judicial, seja doutra qualquer natureza (administrativa ou religiosa), passível de formar caso julgado e, portanto, susceptível de ser revista e confirmada por esta Relação, no quadro do processo especial cuja tramitação está prevista nos citt. arts. 978° e segs. do CPC de 2013, implica a inexistência de causa de pedir. Na verdade, «a acção de revisão de sentença estrangeira é uma acção de simples apreciação destinada a verificar se a sentença estrangeira está em condições de produzir efeitos como acto jurisdicional na ordem jurídica portuguesa». Por isso, se não existe qualquer decisão estrangeira, seja ela judicial, administrativa ou religiosa, em condições de produzir efeitos como acto jurisdicional na ordem jurídica portuguesa, falta, pura e simplesmente, a causa de pedir. Ora - como se sabe -, a falta de causa de pedir constitui causa de ineptidão da petição inicial, nos termos do art. 186°, n° 2, al. a), do CPC de 2013, acarretando a nulidade de todo o processo (n° 1 do mesmo art. 186°), a qual conduz à absolvição do réu da instância, nos termos das disposições conjugadas dos arts. 278°, n° 1, al. b). 576°, n° 2, e 577°, al. b), todos do citado CPC de 2013. Vejamos. O art.º 978.º do CPC estipula o seguinte: “Necessidade da revisão 1 - Sem prejuízo do que se ache estabelecido em tratados, convenções, regulamentos da União Europeia e leis especiais, nenhuma decisão sobre direitos privados, proferida por tribunal estrangeiro, tem eficácia em Portugal, seja qual for a nacionalidade das partes, sem estar revista e confirmada. 2 - Não é necessária a revisão quando a decisão seja invocada em processo pendente nos tribunais portugueses, como simples meio de prova sujeito à apreciação de quem haja de julgar a causa”. A confirmação de sentença estrangeira reconhece-lhe, na ordem interna do Estado do foro, os efeitos que lhe cabem no Estado de origem, como ato jurisdicional, segundo a lei desse mesmo Estado. Esses efeitos são o caso julgado e o título executivo. O reconhecimento é essencial para a continuidade e estabilidade das situações jurídicas, em especial na área do estatuto pessoal. Nos termos do disposto no art.º 980.º do Código de Processo Civil, para que a sentença estrangeira seja confirmada é necessário que:
Explicação por IA a partir do texto oficial da lei. Orientativa, não substitui aconselhamento jurídico.