Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra Acórdãos TRC Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra Processo: 6344/16.2T8VIS-B.C1 Nº Convencional: JTRC Relator: JOÃO MOREIRA DO CARMO Descritores: MEDIDAS DE PROMOÇÃO E PROTECÇÃO DAS CRIANÇAS E DOS JOVENS EM PERIGO CONFIANÇA COM VISTA A FUTURA ADOPÇÃO Data do Acordão: 02/15/2022 Votação: UNANIMIDADE Tribunal Recurso: JUÍZO DE FAMÍLIA E MENORES DE VISEU DO TRIBUNAL JUDICIAL DA COMARCA DE VISEU Texto Integral: S Meio Processual: APELAÇÃO Decisão: REVOGADA Legislação Nacional: ARTIGO 1978.º, N.º 1, DO CÓDIGO CIVIL Sumário: I - A confiança com vista a futura adopção exige, além da verificação de uma das situações previstas no n.º 1 do artigo 1978.º, do Código Civil, que não existam ou se encontrem seriamente comprometidos os vínculos próprios da filiação. II – Existindo sinais claros de que os pais e os filhos querem manter os laços afectivos e que aqueles estão disponíveis para proporcionar os cuidados de que estes necessitam não é de decretar a confiança com vista a futura adopção,, ainda que os pais não constituam a “família perfeita”. Decisão Texto Integral: I - Relatório 1. Os presentes autos de promoção e protecção de menor iniciaram-se na sequência de requerimento apresentado pelo Mº Pº. Dizem respeito às menores AA e BB, filhas de CC e de DD. Ali alegou-se que os progenitores vivem essencialmente de apoios sociais e da solidariedade da comunidade local, a embriaguez frequente dos mesmos, a violência gratuita sobre animais a que assistiam, falta de alimentação, mudanças de residência, estando a saúde e segurança das crianças em perigo. Declarada aberta a instrução, tiveram lugar as pertinentes diligências, após o que se arquivaram os autos. O processo foi reaberto, e veio a ser aplicada às crianças (em 18.5.2017) a medida cautelar de acolhimento residencial no CAT de .... Realizada instrução, o Mº Pº apresentou alegações, nas quais pugnou pela aplicação da medida de protecção de confiança das crianças AA e BB a instituição com vista à sua futura adoção. E os progenitores também alegaram, nelas discordando da medida proposta pelo Mº Pº, defendendo que as menores lhes sejam confiadas, ainda que tal exija apoio de natureza psicopedagógica, social ou económica. Realizou-se o debate judicial. * Foi proferida sentença, pela qual se aplicou em favor das crianças AA e BB, a medida de promoção e protecção de confiança a instituição com vista à sua futura adopção, nos termos e para os efeitos constantes dos arts. 35º, nº 1, g), 38º-A,
(15), tendo o mesmo pai. 4 Esta mantém com a mãe uma relação não hierárquica, de igual para igual, sendo que é frequenta a sua mãe conversar com a filha sobre os conflitos em que a família se envolve, sejam estes com vizinhos ou outros familiares, ocasiões nas quais a EE assume uma postura de protecção para com a sua progenitora, tentando a jovem, com apenas 13 anos, tranquilizar e aconselhar a sua progenitora perante situações de vida diária e perante as situações respeitantes à conjugalidade. 5 A 18 de Abril de 2018 a criança BB continuava a apresentar dificuldades não só a nível da linguagem como a nível cognitivo e especiais dificuldades a nível da motricidade fina. 6 Esta criança, no primeiro semestre do ano lectivo recentemente finalizado, revelou um decréscimo no seu aproveitamento e o seu comportamento modificou-se, passando a ter alguns comportamentos de furto e mentira. 7 Em contexto escolar, nas reuniões de grupo, BB idealiza vivencias em família e oculta o facto de residir em contexto de acolhimento residencial. 8 Ela comporta-se como se residisse com a sua família, fala dos fins de semana em contexto familiar, designadamente que passeia com os seus pais. 9 E inclusive partilhou com os colegas e professora que o natal foi passado em família, atribuindo características de perfeição ao momento. 10 Também a criança BB transmitiu que ia para uma escola nova, tendo sido o seu pai que lhe passou essa informação. 11 No presente a criança AA- que frequenta o Jardim de Infância da instituição -apresenta alguma dificuldade na comunicação oral- já foi feita avaliação para fazer terapia de fala -é algo agitada, distraída e necessita de trabalho individual para cumprir a actividade do princípio ao fim. 12 Ainda a AA, na coordenação manual- por exemplo a desenhar -não controla os movimentos e ultrapassa normalmente os limites do desenho. 13 As crianças BB e AA encontram bem-adaptadas na instituição, estabelecendo uma relação positiva com os pares e cuidadoras da instituição e mantêm muito bom relacionamento entre si, com a mais velha a apresentar algum instinto protector em relação à irmã mais nova. 14 No seu dia a dia não costumam perguntar pelos progenitores, apenas o fazem em situações muito especificas, como por exemplo se outra criança estiver a falar da família ou se quiserem partilhar alguma conversa que tiveram com a mesma. 15 A relação parental tem vindo a ser assegurada através de contactos telefónicos dos progenitores e visitas com periodicidade mensal à instituição, sendo que as visitas decorrem com normalidade. 16 As despedidas são vivenciadas pelas crianças com tranquilidade, ambas regressam à rotina com normalidade, não questionando no seu dia a dia, a ausência dos pais. 17 O pai das crianças AA e BB é analfabeto, não sabendo ler nem escrever, revelando grandes dificuldades na compreensão de vocábulos e frases mais complexos e conteúdo mais elaborado. 18 Ele apresenta um nível cognitivo muito inferior ao da média, enquadrável na deficiência mental ligeira, é mínimamente autónomo, carece de apoio, assistência e orientação no seu dia a dia para tarefas minimamente mais complexas. 19 Também o progenitor não sabe o ano em que nasceu o em que se casou com a mãe das crianças. 20 Ele revela-se permissivo e pouco assertivo na educação das crianças, incapaz de lhes impor regras, não conseguindo discernir as capacidades das crianças. 21 Ainda e sempre o progenitor revela pouca capacidade de identificar, avaliar e antecipar as necessidades das crianças, bem como de assegurar a sua disciplina, saúde e educação, revela-se pouco exigente com os estudos das crianças, com o seu controlo e supervisão, com o encorajamento das crianças. 22 E também se revela permissivo no contacto das crianças com adultos de passagem pela sua casa, apresentando pouca consistência na implementação de regras de segurança para as crianças. 23 O pai das crianças era comerciante de gado mas desde o mês de Setembro de 2019 que trabalha numa empresa de jardinagem, auferindo o salário mínimo nacional. 24 Da perícia médico-legal, na área da psicologia, efectuada ao pai das crianças, resulta entre o mais o seguinte: - Ter o pai das crianças um funcionamento cognitivo global muito abaixo da média, enquadrável na deficiência mental ligeira, com autonomia mínima, não possuindo as capacidades para assegurar de forma autónoma os cuidados parentais às crianças. - Neste sentido, sem a presença de apoio extra e de orientação, nomeadamente acompanhamento e orientação institucional, uma rede social de apoio no meio onde está inserido, a sua capacidade para o desempenho das responsabilidades parentais encontra-se comprometida; - apresenta factores de risco para uma parentalidade positiva, uma vez que revela pouca capacidade de percepcionar, antecipar e satisfazer as necessidades básicas das crianças, particularmente nas áreas da saúde, educação, segurança, representação e administração dos bens das crianças. 25 A avó materna das crianças NN- que vive com a família em permanência -embriaga-se com frequência. 26 A mãe das crianças- DD -não consegue manter uma actividade certa. 27 De quatro filhos de um anterior relacionamento três foram encaminhados para adopção, um outro- a jovem II, já maior de idade -desde tenra idade, ficou a viver com a madrinha, OO. 28 A mãe das crianças, desde que a jovem II foi confiada à sua madrinha, nunca a visitou, apesar de saber do seu paradeiro, e apenas a contactou via Facebook, em Dezembro de 2019, depois de interpelada para lhe pagar alimentos. 29 A identificada mãe das crianças revela-se pouco exigente com os estudos das crianças, com o seu controlo e supervisão, com o encorajamento das crianças, além de se revelar permissiva no contacto das crianças com adultos de passagem pela sua casa. 30 Ela apresenta pouca consistência na implementação de regras de segurança para as crianças (a 12 de Novembro de 2018 fizeram-se transportar com as crianças num veículo de 5 lugares com mais duas pessoas- indo a criança BB ao colo da mãe –e por vezes não levavam cadeira de segurança para transportar as crianças, desvalorizando tal facto). 31 Também a progenitora apresenta um nível cognitivo muito inferior ao da média, enquadrável na deficiência mental ligeira, sendo vulnerável ao stress, com tendência para baixa tolerância à frustração e baixo controlo dos impulsos. 32 Ela revela-se pouco exigente com os estudos das crianças, com o seu controlo e supervisão, com o encorajamento das crianças. 33 No percurso profissional ou laboral da progenitora DD anota-se o seguinte: - de Julho e Agosto de 2019 ela, como desempregada de longa duração, trabalhou na empresa “A...”, durante dois meses, tendo-se despedido por motivos de desavença com a sua cunhada PP, colega de trabalho e responsável pelo seu transporte ao local de trabalho; - a partir do dia 2 de Dezembro de 2019 trabalhou em ..., na fábrica de louça ..., no sector da embalagem (arranjou este emprego, por intermédio da sua cunhada PP, colega de trabalho e responsável pelo seu transporte ao local de trabalho), até data não apurada; - a 29 de Janeiro de 2020 começou a frequentar um curso de acção educativa- acividades do quotidiano e técnicas de animação para crianças e jovens, ministrado pelo ..., nas instalações da Escola Secundária ..., formação tem a duração de 300 horas, com início em 2020/01/29, com calendarização alterada por via da crise pandémica mundial, e que terminaria previsivelmente em 2020/04/30, decorrendo à segunda e terça-feira no período da manhã, quarta e quinta-feira durante todo o dia e sexta-feira manhã. Tal formação tinha subsídio atribuído em numerário no valor de 4.77€ por dia (tendo de frequentar pelo menos 3 horas de formação por dia) acrescendo a este valor 1.76€, por dia, correspondente ao subsídio de transporte. 34 Ainda e sempre a progenitora frequentou curso de capacitação para gestão doméstica e familiar, com a duração de 300 horas, de 22.11.2018 a 08.02.2019 e frequentou também curso de capacitação para o processo de autonomização pessoal e profissional de 11.03.2019 a 29.05.2019, com a duração de 300 horas, ambos na ... em .... 35 Da perícia médico-legal, na área da psicologia, efectuada à mãe das crianças, resulta entre o mais: - ter a mãe das crianças um funcionamento cognitivo global abaixo da média, enquadrável na deficiência mental ligeira, com autonomia mínima, não possuindo as capacidades para assegurar de forma autónoma os cuidados parentais às crianças. - neste sentido, sem a presença de apoio extra e de orientação, nomeadamente acompanhamento e orientação institucional, uma rede social de apoio no meio onde está inserido, a sua capacidade para o desempenho das responsabilidades parentais encontra-se comprometida. 36 Os mencionados pais das crianças revelam uma grande instabilidade habitacional, sendo que no período compreendido entre ... de 2017 e finais de Setembro de 2019 foram-lhes conhecidas 6 alterações de morada: - 18.05.2017: Rua do ...– ...– ...; - 20.07.2017: Rua..., ... – ... - para aceder à sua habitação, o arrendatário do ... tinha de passar pelo interior da habitação do agregado que se situava no ..., o que limitava fortemente a privacidade destes e motivou a sua mudança de residência (o agregado teve conhecimento que iria ser alvo de despejo por dividas do falecido marido e procura nova habitação para morar); - 26.10.2017: Rua..., ... – ... – ...; - 27.04.2018: Rua do ... - ... – ... (a 19/10/2018 a progenitora refere que a sua casa vai ser penhorada por uma entidade financeira); - 15.01.2019: Casa da Paróquia – ... – ...; - 30.09.2019: Rua do ... – ... – ... (a 27/11/2019, a progenitora informa de ação judicial por divida às finanças, com ordem de despejo); - a partir do dia 14 de dezembro de 2019 - Rua..., ... – ..., ...; - desde data não apurada do iniico deste ano: Rua do ...– ...– .... 37 O agregado familiar das crianças foi acompanhado pela equipa do RSI, do ano de 2006 ao ano de 2018, com interrupções pelas suas idas constantes para o ..., não se tendo verificado progressos na sua integração social, pautando-se por pequenos avanços e recuos, constando do relatório da EMAT de 27/04/2018 que a equipa do RSI transmitiu que esta família foi acompanhada, desde 2006 até abril de 2018, não se verificando progressos na sua interação social, manifestando dificuldades de inserção e autonomização social. 38 Também este agregado familiar foi acompanhado pela Paróquia de ..., de 15 de Janeiro de 2019 a 30 de Setembro de 2019 e é acompanhado pelo CAFAP, desde o mês de Outubro de 2018, tendo em conta a necessidade de uma intervenção especializada direccionada à família em situação de risco psicossocial, no sentido de fomentar a função parental mediante a aquisição de competências parentais familiares e sociais. 39 Na sequência deste acompanhamento e do respectivo relatório os progenitores têm revelado resistência à sua intervenção, não apresentando melhorias. 40 Aquando das visitas domiciliárias às sucessivas casas onde os pais da crianças têm residido estas apresentam-se frequente ou regularmente desarrumadas e com pouca higiene. 41 E aquando da visita domiciliária realizada no dia 7 de Setembro de 2017, na Rua..., ... – ..., a cozinha apresentava um odor desagradável, resultante da guarda de comida para dar aos cães de guarda do rebanho de ovelhas do progenitor, a casa de banho estava suja, os brinquedos das crianças sujos, a roupa amontoada e suja. 42 Nessa ocasião a avó materna das crianças exalava um forte cheiro a urina, encontrava-se descalça e a descascar batatas de pé. 43 A falta de arrumação e de higiene foram igualmente constatadas aquando de outras visitas domiciliárias, como sejam nos dias 2 de Outubro de 2018 ou 26 de Dezembro de 2018. 44 Nesta última- 26 de Dezembro de 2018 –constatou-se que as crianças, de férias com o pais, tinham o cabelo e o nariz sujo, sendo que a sua mãe também evidenciava mau cheiro. 45 Enquanto habitaram, no ano de 2019, em ..., na Rua..., ... visitas domiciliárias- a 6, 21 e 29 de Novembro -apresentando a habitação falta de higiene e falta de organização, com louça suja amontoada, mesa da sala suja com restos de comida e gordura e o pavimento sujo. 46 Em todas elas a mãe e a avó materna das crianças apresentaram sempre pouco cuidado ao nível da higiene pessoal. 47 No dia 29 de Novembro de 2019 a EMAT deslocou-se a casa do agregado familiar das crianças no sentido de efectuar visita domiciliária, e constatou que a avó materna das crianças exalava cheiro a álcool e a urina. 48 Em tal ocasião a EMAT sugeriu à mãe das crianças que a sua progenitora integrasse um centro de dia, mas a avó materna das crianças começou a chorar, ameaçando suicidar-se, caso essa situação se concretizasse. 49 Quando o pai das crianças soube que estas não iriam a casa no feriado de 1 de Novembro de 2019 também ameaçou suicidar-se aproximando-se de um poço. 50 As crianças revelam–se muito distraídas e alheadas das tarefas que lhe são atribuídas, necessitando de uma grande supervisão . 51 No dia 2 de Julho de 2019 assistiram a uma altercação entre a sua mãe e QQ, que acusava a irmã das crianças, EE, de no dia anterior lhe ter furtado um saco com bolos. 52 Os progenitores mantêm (entre
- si)um relacionamento algo conflituoso (como também é conflituoso o seu relacionamento) com a comunidade local, com rede de apoio informal muito reduzida. 53 Têm surgido conflitos familiares entre a mãe das crianças e a sua cunhada PP- alegadamente esta chama aquela de puta e imputa-lhe falsos testemunhos designadamente o facto de ter assassinado o seu falecido marido -situação que por norma acontece ao fim de semana quando a sua cunhada ingere bebidas alcoólicas em excesso (discutem na rua, a sua cunhada no exterior, no meio da rua e a Sra. NN e a Sra. DD ficam na janela de casa). 54 A mãe das crianças informou que no dia 02/02/2020 a sua cunhada PP enviou mensagens à sua filha EE, via Messenger e, neste contacto transmitiu à jovem que a Sra. DD sua mãe terá matado o seu pai com “viagra”. 55 Após este contacto a jovem EE ficou muito perturbada e ligou à sua progenitora, a chorar e durante alguns dias a jovem não manteve contacto telefónico. 56 Não são conhecidos parentes da família alargada com condições e disponibilidade para assumir as responsabilidades parentais das crianças e zelar cabalmente pela sua segurança, saúde, educação, desenvolvimento emocional, afectivo e educativo, alimentação, vestuário e higiene, de forma permanente e duradoura. 57 Após ser decretada a medida de acolhimento, os progenitores sempre mantiveram contacto com as menores, visitando-as com regularidade no lar de acolhimento onde as mesmas se encontram, procurando que elas passassem alguns períodos na sua companhia, com as orientação e recomendações transmitidas a serem genericamente cumpridas, inexistindo notícia da entrega das menores, na instituição, ter sido realizada não atempadamente. * FACTOS SUBSEQUENTES * 58 A partir de 10 de Setembro de 2020 os progenitores deslocaram-se de novo para o ..., para a zona de ..., para que o progenitor trabalhasse numa exploração pecuária, constando doas autos como sua morada ..., ..., .... 59 Em 30 de Dezembro os progenitores informaram o processo de que a sua nova morada era na Rua..., ... .... 60 Desde a deslocação para ... e posteriormente para ... e até 20 de Maio os progenitores contactaram pessoalmente as filhas, com deslocação à instituição, em 8 de Janeiro e 21 de Março de 2021, e estabeleceram contactos telefónicos, todos no ano de 2021, em 3, 1, 15, 17 e 22 de Fevereiro, 2, 4, 9, 12 e 16 de Março, 6, 12, 16, 23 de Abril e 14 de Maio, visitas e contactos telefónicos esses autorizados ou admitidos pelo despacho de 17 de Dezembro de 2020 e a partir dessa data. 61 Em Maio passado as crianças continuavam bem integradas no CAT, mantendo uma relação positiva com os seus pares, prestadoras de cuidados e equipa técnica, pese embora por vezes apresentarem alguns comportamentos de oposição e dificuldades em cumprir regras, bem como recurso à mentira. 62 Nenhuma delas manifesta qualquer sentimento em relação à sua estadia no CAT, a menos que lhe seja questionado directamente. 63 Aquando das visitas em contexto institucional as crianças mostraram-se sempre bem dispostas e entusiasmadas, embora focando maioritáriamente a sua atenção nos presentes e bens alimentares que os progenitores lhes trazem, ainda que actualmente, devido ao plano de contingência em vigor na Instituição, o contexto de visita não permita a interação física entre os visitantes e as menores tão pouco é possível deixar as crianças, em algum período, sózinhas com os progenitores. 64 Durante este período os progenitores conversam com as filhas, questionando os seus comportamentos, bem-estar e rotinas sendo que na última visita efectuada- na data de aniversário da menor AA -a visita se haja pautado por fraca interação entre as menores e os progenitores, com a BB a manter-se a jogar no telemóvel da irmã mais velha e a AA entretida com os presentes que lhes trouxeram, havendo pouco diálogo entre eles. 65 Nos contactos telefónicos, com os pais e a avó materna, com periodicidade diária em dias úteis, estes colocam questões rotineiras (o que comeram, como correu a escola, o que estavam a fazer, etc.), as crianças vão respondendo às suas perguntas e fazem alguns pedidos de bens alimentares/guloseimas e materiais para a próxima visita. 66 Dado que os telefonemas eram diários eles são encarados como uma rotina, não se mostrando como momentos enriquecedores para as menores. 67 Nas videochamadas, efectuadas por parte dos progenitores e da avó materna, estas decorrem com tranquilidade, as menores mostram-se agradadas por verem os familiares, conversam acerca de assuntos rotineiros (aulas, comportamentos, atividades do dia-a-dia). 68 No dia-a-dia as crianças não solicitam que se efectue algum tipo de contacto com os progenitores. 69 No ano lectivo 2020/2021 a menor BB frequenta o 3° ano do ..., onde se encontra bem integrada, tem vindo a atingir com dificuldade alguns dos objectivos programados, devido à sua falta de empenho, concentração e pouca responsabilidade e passou a usufruir de medidas universais a partir do segundo período deste ano lectivo. 70 A menor AA frequenta a sala dos 4 anos do pré-escolar da ..., onde se encontra bem integrada. 71 Por reporte ao 2º período escolar esta criança evoluiu significativamente ao nível do seu comportamento, pois que já convive com os colegas de forma mais harmoniosa e tem feito um esforço no sentido de cumprir com as regras estipuladas em contexto de sala. 72 Presentemente ambas as crianças são acompanhadas em consulta de saúde infantil no Centro de Saúde ... com a Drª RR. 73 A BB conta com o apoio de uma terapeuta da fala na escola, pertencente à ... e costuma ter sessões de psicologia com uma psicóloga pertencente à mesma equipa. 74 A criança AA, foi recentemente encaminhada para consulta de pedopsiquiatria no Hospital ... devido a apresentar alguns comportamentos desajustados, tal como usufrui de sessões semanais de terapia da fala, uma vez que apresenta um atraso no desenvolvimento da linguagem com perturbação articulatória fonológica. Nenhuma das crianças toma medicação diária. 75 Da perícia médico-legal, na área da psicologia, efectuada à criança BB, em 5 e 29 de Março passado, resulta entre o mais o seguinte, no que respeita à adopção: "Ser adoptado é: «um menino que vai para os pais novos». Directamente questionada sobre essa possibilidade mostra-se ambivalente, pois gostaria, por um lado, de ser adoptada ("sim, gostava, referindo que se tal lhe fosse comunicado «ficava contente», mas por outro, manter a mesma família, reconhecendo que a sua família biológica ficaria triste com a decisão da adopção. Percebe que se for adoptada não irá voltar a falar com a família biológica: «estou sempre ao pé dos pais novos». Quando lhe é pedido que descreva a mãe e o pai, diz não ser capaz, justificando «eu já não estou com eles há muito tempo ...»”. 76 Relativamente ao percurso escolar é descrita como tendo algumas dificuldades ("atingiu com dificuldade alguns dos objectivos programados. (. . .) Pouco concentrada e muito preguiçosa") sendo ainda mencionado o seu bom comportamento. 77 No tocante ao Questionário Comportamentos da Criança (CBCl)- cujo permite a avaliação de problemas de internalização e externalização –os dados recolhidos não sinalizam problemas em nenhuma das seguintes áreas/factores: "Oposição/Imaturidade"; "Agressividade"; "Hiperatividade/atenção"; "'Depressão"; "Problemas Sociais"; "Queixas Somáticas"; "Isolamento"; Ansiedade"; "Obsessivo/Esquizóide". 78 Em relação ao Questionário de Capacidades e de Dificuldades (SDQ-Por)- que pretende avaliar os comportamentos sociais adequados (capacidades) e não adequados (dificuldades) –assinala-se que “não há o registo de dificuldades significativas, sendo identificada como uma criança com características positivas de forma geral, simpática e sociável, que se relaciona adequadamente com as outras crianças. Gosta de ajudar os outros e manifesta comportamento pró-social (por exemplo «é sensível aos sentimentos dos outros», »É simpática e amável com crianças mais pequenas» e «Gosta de ajudar se alguém está magoado»)”. 79 No domínio dos resultados da avaliação “apresenta uma capacidade intelectual inferior à esperada para o seu grupo etário. Embora este resultado, a assinalar o desinteresse da BB pela tarefa o que prejudicou o seu desempenho. Inicialmente manifestou curiosidade, mas depois perdeu o interesse e manifestou o desejo de desistência”. 80 Por sua vez na parte relativa ao Questionário de Personalidade de Eysenck- Forma para Jovens (EPQ-FJ) consigna-se que se trata de “uma personalidade que, apesar de ainda estar em processo de desenvolvimento e estruturação (o que atendendo ao seu nível etário, não pode considerar-se como definitivo), começa a deixar transparecer traços de estabilidade emocionai, relaxamento e despreocupação, tendencialmente introvertida, reservada e controlada, com níveis normais de psicotisismo”. 81 Já na escala de Auto-conceito de Piers-Harrls (PHCSCS-2), ponderando 6 factores que determinam o autoconceito- aspecto Comportamental, Estatuto Intelectual, Aparência Física, Ansiedade, Popularidade e Satisfação-Felicidade –a criança em causa “obteve um resultado acima da média em todos os factores com excepção da Popularidade, que ainda assim se encontra dentro da média. Pode afirmar-se que apresenta um bom autoconceito, sendo de admitir que se sente feliz consigo própria”. 82 E em relação aos Estilos Educativos Parentais - Crianças 6-12 (EMBU-C), que “tem por objectivo avaliar a percepção da criança sobre a frequência com que sucedem determinadas práticas parentais, em relação ao pai e à mãe, separadamente. Este instrumento avalia as dimensões Suporte Emocional, Rejeição e Tentativa de Controlo. A dimensão Suporte Emocional é constituída por itens que traduzem a expressão verbal e física de suporte afectivo por parte dos pais, a aceitação parental e a sua disponibilidade física e psicológica para com a criança. A dimensão Rejeição é constituída por Itens que manifestam hostilidade/agressão verbal e física e não aceitação da criança; a dimensão Tentativa de Controlo é constituída por itens que descrevem tentativas dos pais em controlar O comportamento da criança e à manifestação de grande preocupação face ao seu bem estar (comportamentos que têm como objectivo o controlo da criança, comportamentos que visam a adesão do comportamento da criança às expectativas dos Cuidadores, à estratégia de indução de culpa e a comportamentos de sobreproteção)” resulta que “as três dimensões aparecem com resultados dentro dos valores normativos, quer os relativos à perceção da BB tem sobre o estilo parental do pai quer em relação ao estilo parental da mãe. Estes resultados, traduzem que a criança sente aceitação, suporte afectivo e disponibilidade por parte dos progenitores. Ainda assim a destacar uma análise qualitativa que mostra que ao item «Os teus pais fazem alguma coisa para que te divirtas e aprendas coisas» a criança responde de forma extremada: «não, nunca»". 83 Relativamente ao “Desenho da Família (Teste de Corman)” afirma-se que a “BB à instrução «Desenha uma famíllia» questionou se pretendia o desenho da sua família, ao que respondi: «desenha a família que tu quiseres» (conforme as Instruções do teste). O desenho realizado pela examinada evidencia um traço firme e personagens com algum detalhe. Representou em primeiro lugar, «a SS», de seguida o «TT, a mãe da SS e do pai do TT»". A propósito das questões colocadas refere que é uma família real, que se encontra em casa a jogar à bola. Descreve o TT como o mais simpático e a SS como sendo a menos simpática porque «bate nas crianças». O TT é seu amigo, sendo este o mais feliz. Questionada diz que escolheria o TT como o «mais feliz» e o «bom» como sendo o pai da SS e o «menos bom» a mãe da SS, sem reflectir motivos. Ao pedido para se posicionar na família refere que seria «a filha». 84 E concluiu-se que “no caso da BB, pode referir-se que desenhou uma família por si desejada e não a sua família real/biológica”. 85 Em relação à perícia médico-legal, na área da psicologia, efectuada à criança AA, ocorrida em 5 e 29 de Março passado, resulta entre o mais o seguinte, no que respeita à sua postura que “foi capaz de permanecer na sala sózinha, mas por multo pouco tempo, dizendo logo ter que Ir à casa de banho. A AA mostrou uma grande irrequietude (mexe em tudo ainda que lhe digam que não o pode fazer), é incapaz de permanecer sentada muito tempo, de atenção difícil de captar”. 86 Na parte relativa desenho da família e “à instrução «desenha uma família» a AA diz não saber o que é uma família, inviabilizando a execução deste teste, uma vez que o mesmo implica que o psicólogo não defina o conceito de «família». Tendo em conta a impossibilidade da aplicação deste desenho, é-lhe pedido que desenhe pessoas de quem gosta ao que desenha a BB e a UU. O seu desenho é grosseiro, sem detalhe, apenas traços radiais (pernas) e cabeça”. 87 Na aplicação da WPP51-R-Escala de inteligência de Wechsler para a Idade Pré-escolar e Primária - Edição Revista ”os resultados obtidos pela AA apontam para um QI de escala completa de 64 (nível Muito Inferior), QI verbal 68 (nível Multo Inferior) e QI de realização de 65 (nível Muito Inferior). Estes resultados encontram-se abalxo da média esperada para crianças da sua faixa etária. O seu comportamento também influiu negativamente no seu desempenho. A AA pontuou abaixo da média em todos os subtestes, possui fracas competências verbais que podem colocar em risco a capacidade de compreensão da leitura e escrita, traduzindo-se numa dificuldade de acompanhar os seus pares no processo de aprendizagem escolar. Os resultados obtidos na subescala de realização indicam dificuldades ao nível do planeamento e execução de tarefas não-verbais, consequentes também de uma baixa regulação emocional e uma baixa autoconfiança”. 88 Já no tocante ao Questionário de Comportamentos da Criança (CBCL) “os dados recolhidos sinalizam problemas significativos nas áreas de «Agressividade», «Oposição/Imaturidade» e «'Hiperactividade/atenção». Não há registo de dificuldades acima da média nas áreas/factores «Depressão»; »'Problemas sociais»; «Queixas Somáticas»; «isolamento»; «Ansiedade»; «Obsessivo/Esquizóide». 89 E como síntese conclusiva escreve-se que “- AA, acabou de completar 5 anos de idade e vive em meio acolhimento residencial desde o seu primeiro ano de vida. Esta vivência em melo institucional, desde um momento tão precoce, toma difícil a construção de relações de vinculação com a família; - ao longo da avaliação observou-se uma menina com linguagem pobre e por vezes imperceptlvel e com elevada agitação psicomotora; - revelou possuir um funcionamento cognitivo global muito abaixo da média esperada para a sua faixa etária; - ela apresenta dificuldades de comportamento, pontuando acima da média nas escalas que avaliam a agressividade, a hiperactividade e problemas de comportamento; - é retratada como sendo uma criança simpática e amável com as crianças mais pequenas, com um bom relacionamento com o grupo de pares”. 90 Ainda e sempre como resultado da avaliação psicológica da AA consta que que se constata “a ausência de cuidador de referência, sociabilidade indiscriminada e incapacidade para manifestar vínculos selectivos adequados (a referir o facto de ficar com a perita após a primeira entrevista, demonstrando falta de selectividade com excessiva familiaridade com estranhos); - … a AA necessita de viver um ambiente seguro, ajudando-a a uma construção positiva assente em modelos de identificação autênticos, base e encontro com afectos apaziguadores e contentores de sofrimento psicológico; - … do ponto de vista cognitivo… necessita de um contexto estimulante em termos cognitivos, e que contribua para a superação destas dificuldades; - … a AA não desenvolveu ainda capacidade de compreensão em relação ao objecto do presente processo, não antecipando, para si qualquer projecto de vida alternativo ao acolhimento, que aliás representa a realidade que conhece; desta forma, são ainda, por si, desconhecidas as consequências do encaminhamento com vista a futura adopção”. * Factos não provados: 1 Aquando do regresso das crianças ao CAT, após períodos de convívio com os progenitores, as crianças iam vestidas de acordo com a época e sem quaisquer problemas de higiene. 2 (…) 2 Nas deslocações ao CAT os menores levavam-lhes roupa, brinquedos, géneros alimentícios e, no tempo de convívio, prestavam-lhes toda a sua atenção, afecto e carinho, fortalecendo dessa forma a autoestima e segurança das menores. * III – Do Direito 1. Uma vez que o âmbito objectivo dos recursos é delimitado pelas conclusões apresentadas pelos recorrentes (arts. 635º, nº 4, e 639º, do NCPC), apreciaremos, apenas, as questões que ali foram enunciadas. Nesta conformidade, as questões a resolver são as seguintes. - Nulidade processual da audição das menores. - Alteração da matéria de facto. - Aplicação de medida de protecção de apoio junto dos pais. 2. Os recorrentes vêm arguir a nulidade processual, do art. 195º nº 1 e 2 do NCPC, da audição das 2 menores por violação dos arts. 4º,
- i)e
- j)e 84º da Lei 174/99 de 1.9 (LPCJP), bem como dos arts. 4º e 5º da Lei 141/2015 de 8.9 (RGPTC), por a audição realizada se ter revelado ineficaz em termos de dinâmica relacional entre o Tribunal e as menores, o que pôs em causa o direito de estas expressarem a sua opinião e vontade, em virtude de as menores terem sido ouvidas numa sala de audiências comum, encontrando-se o Juiz, as Juízas Sociais, bem como o Procurador sentados nas respectivas bancadas, enquanto as menores se sentaram no local habitualmente ocupado pelas partes/testemunhas, o que revelou uma escolha do local inadequada, dado que a “carga” que uma sala de audiência comum impõe é imprópria para a idade das menores, antes se exigindo-se que a audição das menores se tivesse realizado num espaço, adequado, neutro, informal, apetrechado com alguns elementos, garantindo-se nestas condições a descontração, espontaneidade e sinceridade das respostas. Que antes da audição das crianças, nenhuma informação sobre o significado e alcance da mesma lhes foi prestada, tendo o Tribunal passado, quase de imediato, à formulação de questões, o que face à lei devia ter acontecido, tendo-se as menores mostrado desconfortáveis, desconfiadas e deslocadas, não tendo havido um autêntico esforço para as confortar e ambientar. Também faltou na audição das menores a assistência por um técnico com conhecimento e habilitações para o efeito, pois a pessoa que acompanhou as menores na sua audição é mera Técnica Superior da Segurança Social, e não uma Técnica com formação especial na área da Psicologia, pelo que a sua intervenção não foi além da repetição das questões que iam sendo colocadas às menores (cfr. conclusões de recurso 2. a 13.). As irregularidades procedimentais que os recorrentes destacam levam-nos a concluir que se verifica uma nulidade processual, a do art. 195º, nº 1, do NCPC. A ser verdade que tais irregularidades ocorreram, então estaremos perante uma nulidade processual, como os recorrentes apontam e bem. Todavia, cabe relembrar o conhecido aforismo “das nulidades reclama-se, dos despachos recorre-se”, pelo que o recorrente devia ter arguido a respectiva nulidade perante o juiz da causa, como resulta dos arts. 197º, nº 1, e 199º, nº 1, do indicado código, o que não fez. E não interpor recurso. Não procede, pois, esta parte da apelação. 3. Os recorrentes impugnam a decisão da matéria de facto relativamente aos factos provados 3., 5., 10., 16., 20., 21., 28., 29., 32., 36., 39., 52., aos factos não provados 1. e 2º nº 2., e ainda pretendem o aditamento de factualidade desconsiderada pelo tribunal, designadamente os factos que indicam sob I. a VI., tudo com base em depoimentos dos próprios apelantes e das menores, das testemunhas FF, GG, EE, HH, JJ, KK, LL, MM, em prova documental e prova por presunção, indicando as respostas que deviam ser dadas a tal matéria (cfr. conclusões de recurso 14. a 56.). Na motivação da referida decisão de facto exarou-se que: “Em sede de fundamentação deve dizer-se que os factos dados como provados se basearam no conjunto da prova documental junto aos autos e bem assim nos depoimentos testemunhais que adiante se referirão, tudo articulado entre si, buscando-se ponto de concludência entre eles, sem desprezar naturalmente as regras da experiência comum. Comecemos pelos documentos, sendo que em relação a alguns deles, por ser indissociável, havemos de aludir a depoimentos testemunhais. Em termos da prova documental e primeiramente em relação às fixadas datas de intervenção jurisdicional, em sede de medidas aplicadas, elas colhem-se obviamente dos autos e sua sequência. No seu conjunto e como é bom de ver, a saliência especial vai para todo o processo pendente nas diversas Comissões de Promoção e Protecção, que retrata evidentemente um acompanhamento das crianças e dos progenitores há largos anos, desde ..., sempre acentuando a questão da falta de higiene, própria e de cuidados para com os filhos, sendo certo que eles acentuam, igualmente, a existência de alguma ligeira deficiência psíquica, por parte de ambos os progenitores, fortemente limitadora das suas capacidades parentais. E para um diagnóstico acerca desta matéria, caucionado técnico-científicamente, dado que ambos os progenitores consentiram em se submeterem a uma avaliação psicológica e psiquiátrica, os respectivos relatórios constam dos autos, a fls 1073,- progenitora –e 1169- progenitor. Nesta sede e ainda que, cremos, eles se mostrem concretos, objectivos e rigorosos- note-se que seja o Exmº Magistrado do Ministério Público como algum dos progenitores não viu necessidade de pedir qualquer esclarecimento, escrito ou a produzirem sede de debate judicial –a verdade é que não tempos por desapropriado transcrever as respectivas conclusões e respostas aos quesitos. Assim, e no que respeita à mãe das crianças DD nele pode ler-se o seguinte: “Os pais das crianças sofrem de alguma anomalia psíquica? Qual? A examinada, mãe das crianças, padece de uma Debilidade Mental Ligeira a Moderada enquadrável nosologicamente na rubrica F71 10ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde (CID-lO) da Organização Mundial de Saúde (OMS). Essa anomalia psíquica é de caracter temporário ou permanente? A condição deficitária de que padece a examinada encontra-se presente desde o nascimento e tem carácter permanente. Grave ou Ligeira? A debilidade Mental de que a examinada é portadora é nosologicamente classificada em Grau Moderado. Tem tratamento ou não? A condição de que padece a examinada não possui, à luz dos conhecimentos médicos actuais, tratamento etiológico, isto é curativo, sendo permanente e irreversível. Existem tratamentos psicofarmacológicos que podem ser utilizados, de forma pontual, para controle sintomático (limitado). Condiciona ou não o exercício das capacidades parentais? Apesar de, por si só, o diagnóstico de Debilidade Mental Moderada não se constituir como um impedimento para o exercício de estilos e capacidades parentais adequados, no caso concreto em apreço identificam-se factores com forte impacto negativo na parentalidade como sejam: fracas competências parentais no que diz respeito à dificuldade em compreender as necessidades emocionais e físicas dos filhos, em função da sua idade e do seu estádio de desenvolvimento. Não demonstrou capacidade de manter consistência em relação à definição de limites. Por outro lado, a examinada foi capaz de evidenciar características de parentalidade calorosa e receptiva a qual se manifestou pela capacidade de estabelecer esse tipo de relação, particularmente com as menores mais novas. Em que grau e de que forma? A examinada apresenta factores de risco e factores de protecção para uma parentalidade positiva. Factores de risco: ausência de uma situação de estabilidade económica, social e de habitação própria; rede de suporte familiar extensa, mas ineficaz na capacidade de suporte, com escassas vivências de práticas parentais adequadas; limitação das capacidades cognitivas e alguma restrição emocional decorrentes dos dois anteriores factores; dificuldades em elencar e implementar regras- e estratégias para lidar com os menores, consumo de álcool. Factores de proteção: ausência de maus tratos físicos aos menores”. Por sua vez no referente ao progenitor CC o correspondente trecho do relatório compreende o seguinte texto: “Em conclusão: 1. O examinado possui um Atraso Mental Ligeiro e encontra-se inserido num meio sociofamiliar disfuncional, sem suporte para funcionar de forma apropriada no domínio prático, como por exemplo no suporte para cuidar de uma família. 2. Apesar de apresentar competências parentais positivas, o não possui capacidades para assegurar os cuidados parentais às menores. Em resposta aos quesitos formulados: - Sim. O examinado padece de um Atraso Mental Ligeiro. - De carácter permanente, crónico, presente desde o nascimento. - Trata-se de um Atraso Mental Ligeiro, mas o examina encontra-se inserido num meio sociofamiliar disfuncional. - Não. No estado do conhecimento médico actual, a sua condição não tem tratamento etiológico [i.e.: causal), sendo permanente e irreversível. - Sim, condiciona em grande medida o exercício das capacidades parentais. - O examinado não possui capacidades para assegurar de forma autónoma os cuidados parentais às menores”. Sem embargo existem alguns outros aspectos que constam de tais relatórios e que entendemos merecerem transcrição, exclusivamente centrados na matéria relativa à “avaliação clinica e parecer psiquiátrico-forense”. * Nesta parte e no respeitante à progenitora, note-se que ”de acordo com a Avaliação clínico-psiquiátrica efectuada (numa perspectiva psiquiátrico-forense) e reunidos os elementos indispensáveis à apreciação do presente caso, quer em termos de História Pregressa e Exame Documental, quer os apurados pelo Exame Mental propriamente dito, quer os obtidos pela entrevista complementar, podemos afirmar que a examinada possui um funcionamento intelectual global de nível muito inferior ao esperado para a sua faixa etária. Consideramos que a examinada apresenta um funcionamento mental caracterizado por uma pobreza generalizada, que dificulta o planeamento e execução de um projecto de vida organizado, coerente e harmónico. Resulta ainda, relativamente às competências parentais, que a examinada possui recursos internos muito limitados, particularmente no que diz respeito à capacidade para captar e atender às necessidades de uma criança, e assim assegurar de forma plena a função parental, tanto mais que as menores aparentemente não são investidos de forma significativa, quer ao nível afectivo, quer ao nível educacional, com a aprendizagem de valores, regras e normas essenciais ao seu bom desenvolvimento psicoafectivo. Mostra-se ainda relevante que, em virtude do seu estado deficitário cognitivo, a examinada manifesta importantes dificuldades na compreensão e/ou interpretação correcta de pistas sociais, sendo que a sua capacidade de julgamento/análise social e subsequente tomada de decisão estão limitadas. Em virtude disto, a examinada não se mostra capaz de antecipar o risco potencial existente em situações de exposição de si própria ou das suas filhas, a contextos sociais e de interação com terceiros que possam ser considerados de risco”. Por sua vez ressalta do relatório do progenitor que: “Sem antecedentes patológicos significativos, negou estar medico medicação habitual Referiu, de forma congruente com o registado nos autos, consumir bebidas alcoólicas de forma não abusiva. Negou consumo de tabaco e de drogas de abuso, de que não existe suspeição. … Da anamnese percebe-se que que se trata de um Senhor que terá frequentado a escolaridade por um período de tempo curto, com dificuldades de aprendizagem, sendo analfabeto (disse não saber ler, nem escrever nem assinar o nome). … De forma congruente com psicológica, disse ter tido relacionamentos afectivos anteriores ao actual, dos quais não teve filhos, não tendo cedido outros detalhes. Relativamente ao relacionamento com a progenitora das crianças, de quem se referiu de forma próxima e afectuosa, relatou que se conheceram no funeral do pai do examinado, pois esta seria a anterior companheira do pai… Relativamente às filhas refere-se e à EE refere-se às crianças de forma afectuosa, mas pobre (não soube por exemplo referir a data de nascimento e a idade correcta da filha AA). … Ao Exame Mental, o examinado apresentou-se com mau estado de higiene, pouco cuidado, mesmo se ajustando para o estrato sociocultural. … Afetação de capacidades cognitivas como dificuldade no cálculo (mesmo simples), linguagem (p.e. analfabeto), pensamento abstracto (p.e, dificuldade nas semelhanças e na interpretação de provérbios de alguma complexidade), memória (p.e. dificuldades em situar situações cronologicamente). Aparente desvalorização dos défices, com insight significativo”. * * Retornando aos documentos strictu sensu, para além do processo para-judicial, como se disse, que está junto aos autos de fls 7 a 107, e nas quais constam os acentos de nascimento das crianças e dos progenitores- ver fls 7, 9. 12 e 13 -importa atentar num outro conjunto de elementos documentais, especial e principalmente os relatórios sociais emanados da EMAT, dando conta da evolução das crianças, aos vários níveis, tal como retratam as relações e os vínculos existentes entre pais e filhos, seja de um ponto de vista qualitativo como quantitativo, todos denotando, inquestionavelmente que entre poais e filhas existe carinho e afecto. Por outro lado outro tanto é transmitido nos relatórios ou informações intercalares remetidas ao processo pela casa de acolhimento, que também não apresenta nota de dissonante relativamente à relação existente entre pais e filhos. Estes relatórios, todos devidamente datados e assinados, cujos serviram de suporte aos diversos momentos processuais, nos quais teve lugar a revisão das medidas, e como tal semrpe foram devidamente ponderados e valorados, estão juntos ao processo a fls 222 a 225, 298 a 307, 423 a 431, 442 a 449, 465 a 469, 525 a 528, 680 a 690, 698 a 710, 778 a 785, 789 a 799, 839 a 847, 864 a 865, 905 a 907, 972 a 975, 996 a 1003, 1073 a 1078, 1150 a 1154, 1169 a 1177, 1208 a 1225, 1241, 1247 a 1250, 1262 a 1270 e ainda 1296 a 1301. Sem embargo existe um outro conjunto de documentos que foram ponderados, que ora e sintetizadamente passamos a analisar. Neste contexto de fls 343 a 389 consta um vasto manancial de registos clínicos, respeitantes à avó materna das crianças- NN –e relativas a assistência hospitalar à mesma, no Hospital ..., ..., ou no Hospital ..., em ..., aludindo ou identificando quedas com lesões e menções regulares a hábitos etílicos ou até mesmo cirrose- cfr, quanto a esta, fls 363 vº ou ainda 365 vº, sendo que relativamente ao estado etílico, ver, por todos, 368 vº. Por sua vez a fls 405 consta informação do Centro de Saúde ..., referindo dois episódios de assistência, ambos em 2009, e num deles referindo expressamente “alcoolizada”. Também documentalmente refira-se 720 a 721, no caso um relatório escolar da BB, datado de Abril de 2918, no qual se menciona a sua admissão no pré-escolar no final do ano lectivo 2017-2018, com dificuldades na linguagem, na “orientação viso.motora” e na “motricidade fina”, anotando-se que se diz ser uma criança muito sociável e bem integrada no ambiente escolar. De fls 910 a 919 consta certidão de um inquérito pendente nos Serviços do Ministério Público de ...- ... secção do DIAP –com despacho de arquivamento incidindo sobre uma denuncia segundo a qual a progenitora DD obrigaria uma outra sua filha mais velha- EE- a prostituir-se. A fls 932 consta uma informação da instituição segundo a qual numa visita e data que identifica, as crianças foram transportadas numa viagam, na cidade de ... em excesso de lotação do veículo e sem que se fizessem transportar nas cadeiras de segurança que são impostas por lei. No tocante ao documento de fls 1150 a 1154 ele respeita a uma participação policial, na sequência de pedido da progenitora, relativa a uma suposta ameaça que lhe havia sido dirigida por terceiros, estando presentes as crianças, agitadas e irrequietas. Finalmente em sede de documentos menção para a informação social de fls 1334- também 1348 e 1357 -, que relata um incidente ocorrido no CAT, no qual intervieram a AA e uma colaborada da instituição de nome VV, traduzida em actos agressivos praticados por esta sobre a criança, objecto de processo disciplinar, sendo que a AA foi assistida médico-clinicamente, não apresentado lesões- cfr fls 1370.. A informação de fls 1345 dá notícia das visitas e contactos dos progenitores com as filhas. No relatório de fls 1362, elaborado pela Drª WW- a qual, como se verá infra confirmou o seu teor -,e que descreve a circunstância da progenitora, nos seus contactos telefónicos, em nada proteger as filhas, serviu para ser abordada a questão da agressão, ou ainda para que esta comunicasse que tem uma oferta de trabalho para ... sendo certo que enfatiza que decorridos três anos desde a intervenção junto dos pais este em nada progrediram para ser possível admitir-se o regresso das crianças ao seio da família natural. * Na sequência ou após a avaliação da prova pericial e documental, vejamos da prova testemunhal, sendo certo que, tendo os progenitores estado presentes no debate judicial, e uma vez que prestaram declarações, também as abordaremos. À excepção do último testemunho, que surgiu desgarrado, na chamada “contra corrente” em função de toda a outra prova produzida- inclusivamente acerca dos hábitos alcoólicos da avó materna das crianças, também reconhecido pelos progenitores mas essencialmente exuberantemente documentado pelos registo clínicos –os restantes foram objecticos e concretos, sem que o tribunal haja tido indícios mininos que se trava de depoimento afastado da realidade dos factos. Já não assim no tocante ao referido depoimento- XX –o qual é absolutamente desprezado e melhor fora que não houvesse sido prestado. Em todo o caso, afigurando-se desfazado da realidade, ainda assim não temos como presentes elementos objectivos e subjectivos de uma qualquer conduta com dimensão criminal, pelo que nenhuma iniciativa tomamos a tal respeito. Sem embargo do escrito, no que toca às declarações da testemunha HH elas são de desvalorizar porquanto, seja do seu depoimento, como de restantes, inclusivamente da progenitora, é patente que entre ambas existe uma relação tensa, se não é, mesmo, a circunstância de, há algum tempo, elas estarem de relações cortadas. Nessa medida é avisado pouca ou nenhuma relevância lhes atribuir, mesmo se vale igualmente o considerando acima exposto acerca da entorse à verdade dos factos. Regressando aos restantes depoimentos diremos, em abono da verdade, que eles se assumiram essencialmente como a ratificação do que escrito estava, pouco acrescentando além do documentado, sendo certo que não é menos verdade que também não era suposto que assim acontecesse. Nessa medida e adoptando procedimento uniforme passamos a analisá-los um a um, com a referência aos elementos factuais concretos, objectivos e escorreitos que deles resulta, no sentido de consignar, de cada um deles, os factos que retivemos para fixarmos a materialidade do modo como supra se constata. * EE: é irmã das crianças, está num lar em ... contactava com elas telefonicamente ou por videochamada, sendo que desde Janeiro que não está com as irmãs, que visitou cerca do Natal, juntamente com os pais. Neste momento os pais vivem em ..., ..., o pai a trabalhar na ... e a mãe acabou um curso, não sabe de que natureza, ministrado em .... Dá-se bem com a irmã PP- foi quem trouxe os pais a ... -mas não fala com a HH. Aludiu a um telefonema da irmã que dizia cosias feias da mãe, chamava-a de nomes- “dizia coisas sem sentido” e desligou o telemóvel e bloqueou o número dela. Fala com a mãe todos os dias. Relativamente a um episódio da avó, disse que foi para casa da vizinha e veio alcoolizada, já há algum tempo, sem ser capaz de localizar mas nada disse da reacção da avó em casa mas sabe que a avó se mete com as pessoas, “começa a chamar nomes e isso, quando está com copos a mais” e a dizer que a mãe não quer saber dela, que a deixa de parte o que é mentira, seja mãe a contar seja por ver. Houve problemas entre a PP e a mãe, pois que a PP assaltou a acsa da mãe mas não quer ouvir esses problemas, pois que está na “sua onda” e esquece, aludindo a “despacho a minha mãe só para não ouvir isso”. Referiu um episódio de receio de contágio pelo Covid 19, relativamente à irmã e a uma vizinha. Deu opinião para que a mãe coloque a avó no centro de dia pois que não aguenta mais, estando convencido que ainda o não fez por causa da pandemia mas não o fez antes “porque a minha mãe gosta muito da minha avó; é a única filha que gosta da minha avó, gosta mesmo”. A mãe não leva vinho para casa, e só bebe numa refeição ou então nas duas refeições, em festas. Viu a avó beber de mais, algumas vezes, mas com poucas memórias. Admite terem ocorrido problemas com vizinhanças, por se dizer mal uns dos outros, mas sobretudo entre a mãe e a tia , por telemóvel a que chamou “peixarias virtuais”, no decurso das quais saíam palavras “feias”, eram “elogios virtuais maus”. O pai não gostava e tirava o telemóvel à mãe, dava “semões” à mãe, que pareciam duas crianças, que “não tinham cabeça para aquilo”, dizendo que ela e as irmãs são próximas, às vezes- “são umas chatas”, mas “gosto muito delas, gosto não, amo”. Admitiu que se portava “horrivelmente mal em casa, às vezes” mas às vezes dava umas palmadas nas irmãs, mas “não doía”. Quando se portava muito mal os pais davam palmadas, ainda que admita que se portou mal e disse coisas que não devia ter dito. O pai corrigia com palavras e uma vez ou outra batia, sem lambdas, mas devagar. Não faziam nada às irmãs- “eram umas santinhas; elas são pequeninhas; tens de perceber”. Quem lhe bateu uma vez foi a mãe do padrasto- o seu irmão –há naos, quando era pequena. Relativamente a um episódio com um bolo, ocorrido em 2019, depôs no sentido do fixado em sede de materialidade, com ameaça com uma navalha e telefonemas à polícia, sendo que a mãe ameaçou que se tocasse na EE e nas irmãs “era um homem morto”. Recorda-se de ter vivido em ..., ..., noutra casa, além daquela onde estão actualmente os pais, ..., e no ..., em ..., quando o pai era pastor. Não se pronunciou acerca do problema com o “YY”. A BB protege a AA do que quer que seja, quando estão mal corrige a AA, tendo confirmado o episódio do transporte em veículo automóvel, sem que as crianças fossem na cadeirinha, ao colo da mae e do seu próprio. Estudou em ... e no .... A mãe limpava a casa, mas a avó, quando estava embriagada, lambia-se com a língua, e na higiene havia cheiro, tem problemas, tem que usar cueca-fralda. Quando se falava à avó para ela ir para a instituição, ela recusava e fazia chantagem, do género que se ia matar, tal como sucedeu quando a Drª LL sugeriu o internamento para desintoxicação. Relatou um episódio relacionado co um vizinho ZZ, que disse à mãe para se separar do marido e para fugir com ele, sabendo porque foi na Páscoa e estava em casa da mãe na Páscoa de 2019, sendo que a resposta da mãe foi o não. * FF: trabalhou no CAT de ... de ..., no período de encerramento do ... de .... A AA é sua aluna desde Setembro de 2019, tal como conhece a BB, que também conhece, profissionalmente porque também frequentou o Jardim de Infância e esteve a seu cargo alguns meses. Com a BB conviveu em ano lectivo que não recorda, as irmãs têm uma relação bastantes próxima, a BB perguntava sobre como evoluía a irmã, e brincavam as duas, com proximidade. No presente a AA apresenta alguma dificuldade na comunicação oral- já foi feita avaliação para fazer terapia de fala –é um bocadinho agitada, distraída, necessita de trabalho individual para cumprir a actividade do princpio ao fim, e ás vezes gosta de contrarias as regras, mas funciona como camada de atenção, porque é criança afectuosa e gosta de ser o centro de atenção e ainda na coordenação manual- por exemplo a desenhar não controla os movimentos e ultrapassa normalmente os limites do desenho. No tocante às vinculações da AA, diz que algumas vezes falou na mãe mas não se recorda de alguma vez ter mencionado o pai, esclarecendo que, às vezes, em actividades de grupo, quando algum(
- a)menino(
- a)fala em coisas da casa, algumas vezes a AA, diz “a mão também tem, a mãe também faz”, sendo que não fala de episódios e vivências tidas em casa. Quando fala no pai é por os colegas falarem na sequência de conversa desta, mas sempre enfatizando a mãe. No desenho da família a AA ainda não consegue desenhar a figura humana, ainda que fosse expectável que já o fizesse, estando convencida que o não faz precisamente pela sua falta na coordenação manual. Nunca lhe falou num ideal de família. Relativamente à BB é uma criança muito calma, muito afectuosa, necessitava de algum apoio no sentido da percepção de alguns trabalhos que lhe eram pedidos, ainda que depois conseguisse alcançar os objectivos. Nunca lhe falou em qualquer situação familiar que tenha vivenciado. Gostava de colinho, pedia para pentear a educadora, etc. * HH: trabalha numa oficina e reside em ..., ... e é irmã da EE. Há anos que não visita a mãe de EE e que sabe que troca de casa constantemente, através “das pessoas das aldeias não é, tudo se sabe”. Estão de novo em ..., na casa que é da família do pai das crianças, e que estará penhorada às Finanças; sabe que estão lá, que vieram de ... mas não sabe há quanto tempo. Relativamente às condições da casa sabe apenas que no “tempo do meu pai já não eram boas”, ou seja, não havia casa de banho com banheira ou polyban mas apenas sanita e lavatório, não havia portas nos quartos, não havia cozinha em condições “duvido que tenham feito obras”. Não fala com a progenitora há muito tempo e que esta lhe “manda bocas” mas não lhe responde, com expressões como “puta”. Falou com a EE pela rede social, nesta semana, e nada mais, de há três anos para cá. Na relação entre a irmã PP e a progenitora, não sabe pormenores mas tem conhecimento que foi quem trouxe os pais ao tribunal, no dia da diligência. Falou com a irmã EE acerca de abusos, sendo que foi esta quem lhe relatou que havia sempre homens em casa que davam dinheiro à mãe, em troca de estarem com a EE- “era o que ela dizia” –e que foi abusada e que o contou a chorar e com lágrimas nos olhos. A progenitora nunca teve cuidado com a higiene dos filhos, como seja horários de sono, lavar os dentes, confirmando que viu as crianças com roupa e cara suja e com a casa com louça por lavar, espalhada por todo o lado, coisas partidas. Aas crianças brincavam, mas não eram de fazer asneiras, nunca tendo visto agressividade física dos pais para com as filhas. A EE andava na escola. A avó materna sempre lá viveu, “andava sempre bêbada, andava sempre a cair”, aludindo a um episódio de chamada de ambulância. Andava sempre com cheiro a urina. A progenitora apresentava-se pouco arranjada e pouco limpa, frequentemente com a roupa com muitas nódoas e suja. O pai costumava dormir com a roupa com que andava durante o dia e sabe porque se lembra disso, do convívio com o irmão e que este lhe disse- mais que uma vez -que “só era irmão dele da cintura para cima; que da cintura para baixo era mulher como as outras”. * JJ: é solteiro, é estafeta e actualmente reside em ..., esclarecendo que teve uma relação afectiva com a tia das crianças HH e por isso que conhece as crianças, relação afectiva iniciada em 2016 e teve contacto apenas quando as crianças viviam no seio do agregado familiar. Frequentava a casa das crianças, com pouca periodicidade, sendo que a casa se apresentava suja, mau cheiro. Pessoalmente as crianças com roupas não muito limpas, sendo que na interacção entre as crianças e filhas, e entre o casal não tem elementos concretos e objectivos. Relativamente à avó materna das crianças de especial andava maioritáriamente embriagada, não saia da cama, ás vezes caia, não se aguentava de pé, notava-se na forma de falar e sentia-se o cheiro a álcool. Não se recorda como era a apresentação física sendo que nesta parte, a mãe andava minimamente. Nunca assistiu a discussão, berros, injúrias, ameaças, entre o casal mas com terceiros recorda-se vagamente, sem recordação de que as crianças ali estivessem. Fizeram a denúncia por acharem que as crianças não estavam bem cuidadas, e que a EE teria sido abusada pelo Senhor CC, pelo pai, afirmação que radicava por a verem triste e quando lhe perguntavam “coisas” mais pessoais, ela fechava-se, até porque o pai tinha, às vezes, maneiras não muito próprias de falar com uma criança com a idade da EE. Notava que havia falta de alimentos, porque a HH levava muitas vezes comida para as crianças, por se aperceber disso, mas nunca viu o frigorífico. Quando as crianças faziam asneiras além das próprias da idade viu bater, uma vez, na EE, sem se recordar se palmada na cara ou no rabo. Na ocasião que conheceu a casa ela era parte em terra, tinha uma cozinha normal, um dos quartos não tinha porta, Nessa ocasião nunca fizeram obras. Disse que iam lá a casa homens, para beber um “copo” com o pai. Dos géneros alimentícios que levava falou de leite, bolachas. Nunca se deslocou lá a casa e encontrou as crianças sózinhas. * MM: é técnica da ... e acompanhou o processo. Fez a última visita domiciliária em ..., ..., anterior a uma reunião de 22 de Abril de 2020. O casal já mudou entretanto e novamente para .... Deslocou-se ao lar para avaliar a real situação das crianças, em função de problemas ali ocorridos, esclarecendo que entrou no processo desde Outubro de 2019. As crianças são muito carinhosas, interagem muito bem com todos, são comunicativas- a AA mais que a BB, até pela idade –disse que “de forma espontânea elas não falam dos pais –mas questionadas directamente se falaram com os pais- o último contacto, por videoconferência, visava exactamente percepcionar ou como que fazer um balanço acerca dos meses do confinamento -elas disseram que tinham falado com a mãe e tinham falado dos animais da quinta, mas “nada mais que isso”. Nunca nenhuma delas lhe perguntou “quando vamos para casa”. No respeitante à reunião de 23 de Abril, com os pais- que surgiu na sequência da ocorrência que se passou com a criança BB, no CAT, visando explicar o sucedido, as providências tomadas e ainda securizar os progenitores –nunca revelaram uma preocupação muito directa com o acontecido, antes e preocupando maios com críticas aos serviços, do funcionamento dos serviços na ajuda a agregados, pois que “ajudam todos os agregados que estão, que vivem ali junto a eles mas não os ajudam a eles. Na ocasião manifestaram intenção de irem viver para ... e precisavam de saber do projecto de vida das meninas, por via de uma proposta de trabalho, cujo projecto concreto não se recorda, mas também teriam uma outra proposta de vida para .... Da usa parte e projecto de vida para as filhas não o definiram, mas sairiam sempre com as meninas. A relação da mãe com a tia PP é muito conflituosa, fazem as pazes, segue-se outro conflito, etc, etc, inclusivamente com influências muito negativas para a EE, com a ultima quezília relativa a troca de insultos entre ambas, no qual a PP terá dito que a progenitora matou o marido com viagra, com publicação, por esta, na situação nas redes sociais, mas ultimamente estarão bem, com a progenitora a ligar à testemunha e a dizer que a PP estaria infectada com Covid e grávida e que andaria pela povoação a infectar todos e que terá roubado em casa da mãe, tudo do conhecimento da EE pelas redes sociais. A EE tem um sentimento de protecção para com a ame que “não é suposto”. Aludiu ao episódio do beijo da avó materna a um terceiro- na casa paroquial em ... –explicando que o padrão comportamental desta família é o seguinte: “vão para uma habitação, arranjam conflitos na comunidade e depois mudam de habitação”. Disse que mudaram de ... para ..., sem o seu conhecimento e aqui a progenitora disse que tinham tido problemas na anterior, já que estariam a cozinhar a sopa, passou um casal, estranho, perguntou se não havia jantar para eles, mandaram-nos entrar, jantaram, a esposa do casal e os pais das crianças vieram cá para fora e a avó materna queixou-se que o homem tentou levantar-lhe o vestido, beijá-la, etc, ainda que o progenitor tenha dito que foi a sogra quem se “ofereceu”. A avó materna cheira frequentemente a álcool e a urina, com aspecto desleixado. Já abordaram várias vezes a ida da avó materna para um Lar ou centro de dia mas esta sempre resistiu e ameaça que se mata se o quiserem fazer. Disse que fez várias visitas domiciliárias e que se empenhou em trabalhar competências várias da progenitora, juntamente com o CAFAP e a instituição, esclarecendo que têm sido acompanhados desde 2011, com a ... de ..., o ..., o ..., a ... e a Paróquia de ..., ademais da EMAT, o RSI, com 600 horas de formação na ..., na área das competências pessoais, sociais de gestão da vida doméstica, enquadramento profissional- mais de 200 horas de auxiliar de acção educativa –mas sem resultados, com a obstaculização da mudança constante de residência. Nas visitas domiciliárias constatou que o espaço sempre esteve muito sujo, com roupa desarrumada, cozinha suja, por arrumar, com louça por lavar, sem rotina diária, tendo chegado a estabelecer um quadro diária para as tarefas semanais, tudo muito bem especificado, mas “foi inglório porque, na semana seguinte nós íamos fazer a avaliação de todas as orientações que nós dávamos e continuava tudo na mesma”. A mãe apresentava-se sempre muito descuidada, o pai normalmente estava a trabalhar, tendo-o encontrado uma fez em ... e duas vezes em ..., vinha sempre com roupa de trabalho. No respeitante a intenção suicida do pai esta confirmou-o. No respeitante às competências sociais do pai elas são poucas, com pouca noção da realidade e é uma pessoa muito limitada. Em ..., tiveram apoio da comunidade, mas tiveram de sair por causa de uma abordagem agressiva à EE além do episódio do casal e a avó materno das crianças. No tocante a alterações na casa de ... houve melhorias: colocaram mosaicos nos quartos, com umas chapas de sandwich, usadas. Mas entretanto a mãe informou que a casa era para ser vendida por causa de dívida às Finanças, com vários herdeiros e ele teriam uma ordem de despejo, e por isso foram para .... Os pais não têm projecto de vida para as filhas salvo que “querem as meninas com eles” sendo questionado com a escola, o andar de “casa em casa”, explicando que a mãe não tem noção do “porquê deste processo, não tem noção porque é que as meninas estão em acolhimento residencial”, reiterando, em sede de projecto de vida que “ela simplesmente quer as meninas com ela…não fazem planos, não tem objectivos para …”. Há uma certa naturalidade como elas percepcionam a realidade que vivem, designadamente dos contactos com terceiro. Questionada sobre o projecto de vida das criança disse que na aludida relação de Abril falava acerca dele e da adopção, tanto mais que a DD conhecia o parecer da ENAT, ou seja, nunca escondeu que o parecer era a adopção. Em relação à infância dos pais, ambos falaram do passado, a mãe que tinha 4 filhos para adopção, uma junto da madrinha, da relação com o pai do actual marido, o pai que teve um filho que faleceu. Referiu que também trabalhou as competências da mãe a lidar com a EE. * LL: é técnica da Segurança Social em ..., tendo acompanhado a família desde 20 de Maio a 20 de Julho de 2017. Conhece a progenitora desde o acompanhamento da EE, sendo que detalhou elementos relativos ao acompanhamento da EE. No que respeita às crianças BB e AA, relatou um episódio no qual os progenitores deixaram ficar a BB na companhia da avó materna, completamente alcoolizada, o que era frequente, após o que relata um conjunto de diligências para que as crianças ficassem juntas no CAT de ... e a EE no ..., pois que tinha 8 anos e era muito adulta e conversas muito sexualizadas. A ideia foi potenciar os contactos entre pais e filhos, o que em ... era muito, muito difícil. A BB era mais reservada, a AA muito mexida e a primeira visita, dos pais e, pensa, da avó materna- que se notava que havia bebido mas não cambaleava -correu muito bem, sendo que em termos de interacção, com a AA sempre mãe e algumas vezes aceitava ir para o colo do pai, a BB com a avó e o pai e a EE não interagia com nenhum. Mas quando lhe tiravam a família chorava. A mãe sabe dar colo mas “não sabe que a educação tem que ser correcta, responsável…os adultos é que têm que pensar no dia a dia dos filhos, não no presente mas no que isso significa para o futuro deles” mostrando incapacidade para executar ideias, práticas educativas. Disse que não tendo mais nenhum relatório a acrescentar algo, que era a sua prática habitual, pelo que conclui que a situação habitacional não se alterou. Retratou com muito pormenor a conduta e conversas sexualizadas da EE para concluir, pela sua experiência, que na sua meninice assistiu a muitos comportamentos sexuais ou sexualizados. Referiu que a HH também denunciou condutas de risco da criança AAA, filho de uma cunhada da progenitora. Existe um vinculo e afecto entre pais e filhas, mas os pais não conseguem moldar os seus comportamentos no sentido da assegurar as necessidades dos filhos, quotidianamente, no presente e numa perspectiva de futuro. Interrogada sobre se existisse trabalhos/ensinamentos/ancoramento e exteriorização dos seus anseios, a incidir sobre eles, este domínio, não seria possível que eles viessem a ser capazes, de assegurar as necessidades, disse que a progenitora tem 5 irmãs, espalhadas, e perante o problema de alcoolismo da avó materna, melhorado mas a manter-se, “se até isso, enquanto adultos eles não se conseguem organizar no seio do agregado familiar, deviam ter tomado decisões…”. Ora, diz, se as crianças estão no CAT há 3 anos e um mês, neste lapso temporal a avó já fez um tratamento, melhorou, e já piorou, “a casa não sei se está melhor, em termos educacionais…daquilo que eu conheço e do passado, assim ajuda externa, não…” a mãe não é ajuda de espécie alguma, em casa, não há vizinhança e a família alargada para apoiar não existe, “mesmo ajudando duvido que aprendesse”. Referiu que a DD “tem noção que precisa da relação conjugal; ela gosta dos filhos, mas ela gosta mais de ter atenção para si; ela sente necessidade, seja porque tem dificuldades, seja porque tem um deficit…ela vai casar…o sonho dela é casar…ela nunca deixou nem nunca deixaria nenhum marido para começar a vida e cuidar dos filhos; os filhos estão em segundo plano, seja pela história de vida seja pela incapacidade- não sei se tem ou se não tem -acredito que a DD não faz melhor mãe porque não quer: é porque não tem mesmo capacidade para ser mãe”. Referiu que espera que a mãe invista a sério na sua capacidade, e que “vá atempo da EE; sinceramente e que ”fazer uma mudança é fácil, mantê-la no tempo é que é difícil”. Mais disse que não viu a perícia dos pais, mas do que conhece existe incapacidade. * KK: é técnico da Segurança Social, da EMAT em ..., tendo acompanhado as crianças desde Setembro de 2018 a Setembro de 2019, no qual conheceu dois domicílios: em ...- onde “normalmente regressam sempre, que é em ..., que ´é da família” -e a outra foi em ..., que foi tratada por si, com o Padre GG e a Paróquia de ..., na sequência do trabalho anterior da Drª BBB a qual, anteriormente, sempre enfatizou que era necessário resolver a questão da habitação e de dar oportunidade de reestruturação da família. Nesse sentido contactou o Padre GG e a Paróquia de ..., conversaram, sobre as crianças, os pais, ele comprometeu-se a fazer alguma coisa, mostrou-lhe casas e ficaram com uma casa no centro da povoação, sendo que o Padre GG falou com o Município e fizeram uma cozinha, que faltava fazer. Disse que “a casa era muito boa” mas não sabe quem a mobilou ainda que pense que a cozinha terá sido a Câmara, mas não teve intervenção com esta No que respeita ao papel dos pais neste processo disse que, “se formos sintéticos, foi mudarem-se, instalaram-se lá”, ainda que com as orientações da SS, com apoio da comunidade e ficarem bem instalados “e seguirem com a vida deles”, ficando perto do lar que sempre prestaria o apoio necessário Deixaram a casa já depois de ter saído do processo e por isso ignora a razão, mas a casa de ... não tem aquecimento, um dos quartos com muita humidade, fica no final da aldeia, isolada, gerando oportunidades para acontecerem coisas como os alegados abusos sexuais, com o YY Nas visitas domiciliárias a apresentação foi melhorando, sem esquecer que são pessoas que vivem no campo, referindo que o curral do porco estava muito bem limpo e a casa, ao invés, muito sujo e desarrumada e foram melhorando A mãe fez duas formações na ..., com o apoio à comunidade, na qual a mãe foi fazendo algumas aprendizagens, no campo pessoal e de lidar com criança, sendo que começou por dizer que a “avó materna é o maior problema desta família” ainda que depois tenha corrigido e dito que não é só ela o problema A família tem algumas limitações conhecidas por todos, mas com a avó materna, diz que nunca a viu alcoolizada, mas o próprio genro lho disse, que se embebedou com os vizinhos A ideia era passar o dia no Centro de Dia e voltar a casa, sendo que a vizinhança se juntava na casa da família, admite que para beberem uns copos mas nunca conseguiram demover a avó ou convencê-la para tal A DD tem várias filhas mas não quer sair dali. Fez visitas com as crianças- em férias -que se apresentavam asseadas e limpas Na relação da mãe das meninas com a família alargada nada a dizer, mas tem relação muito conflituosa com a cunhada PP e com a HH, relatando o episódio do trabalho e viagem conjunto e a “zanga” No tocante à relação entre a mãe e a EE, existia uma relação de “aconselhamento” da filha à mãe Não sabe de intervenção do CAFAP e, nas visitas a ... os pais eram transportados inicialmente pelo Sr ZZ- um vizinho, com quem entretanto se desentenderam –e mais tarde a instituição e, crê, algumas vezes o Padre GG. O pai foi pastor, vivia do negócio das cabras e da agricultura, é pessoa humilde e simples, “consegue ter algum discernimento sobre as coias, é mais calado, mas não ferve tanto em água quente como a D DD”. Sabe que houve processo por alegados abusos sexuais á EE e que sabe ter sido arquivado. Falou com a avó materna da ida para o Centro de Dia, mas sempre se recusou, não se recordando se esta fez alguma manipulação, chantagem ou se ameaçava que se a levassem se suicidava, mas recorda que levaram-na para lá, para ela, era levarem-na para uma prisão. * BBB: é psicóloga, Técnica Superior de Serviço Social, actualmente no Núcleo de Infância e Juventude e acompanhou as crianças, antes do colega KK, quando as crianças já estavam acolhidas e como tal tinham de fazer o acompanhamento. Era um processo no qual já tinha havido intervenção de outros técnicos, de outras áreas, e por isso já tinha conhecimento de algumas características desta família. Fez várias diligências mas eles mudavam constantemente de casa, tendo visitado duas, com uma terceira pelo meio que nunca chegou a visita porquanto quando la foi já se tinham mudado. A primeira era numa casa antiga, no centro histórico de ... e a de ... era tipo moradia, no final da aldeia. Na ocasião tinham recebido ajuda do casal CCC e ZZ, com remendos- o chão era de cimento e tinham colocado um linóleo –estavam a arranjar o telhado, a casa muito desorganizada, sendo que “a limpeza sempre foi uma dificuldade” e na casa de ... havia muito lixo e comida cumulada ara darem aos animais, com mau cheiro, as sanitas mal limpas ou lavadas. Aí as roupas apresentavam-se umas vezes melhor, outras pior, a avo estava sempre mal arranjada, cheirava a urina, nunca a viu beber, mas uma vez viu vi-la da tasca com a garrafa de vinho na mãe, e nunca fez visita com a presença das crianças. O casal CCC e ZZ queria ajudá-los, com pena das meninas, desconhecendo se houve afastamento da vida da família, mas a esposa, sim, essa afastou-se e deu muita informação, dando possibilidade de compreender a dinâmica da família. Aliás a situação era muito negativa por via de instabilidade habitacional, alcoolismo da avó, deficit cognitivo do pai- por isso foi quem pediu as perícias –a suspeita do abuso, com conduta moral duvidosa, que podia por em perigo as crianças, que obteve da Dª CCC, de vizinhos e mais tarde da EE, que começou a verbalizar essa temática. Nesta família há alguma dificuldades do que seja o padrão normal, para elas é padrão normal “os relacionamentos sexuais precoces…uma troca de serviços, são pessoas pobres”, afirmando que era normal deixar a EE com o outro senhor, “dar beijos em troca de um euro, depois de 5 euros e depois sei lá…”. A avó já teria um passado de prostituição. Mas está convencido que não têm capacidade de avaliar o padrão do bom e do mau. Havia muitas festas com vários homens, na casa de ..., mas a comunidade de tal sabia, reiterando que a informação foi transmitida pela referida Dª CCC. Questionada sobre se alguma vez falou com os pais sobre o seu passado disse que falou com a Junta de Freguesia, com o RSI e que a sua função era analisar as situações, dos deficits e disfunções habitacionais, de organização doméstica, para melhorar, e pediu as perícias para perceber a dinâmica familiar. Os pais nunca tiveram psicoterapia, que saiba. Relativamente aos alegados abusos sexuais, crê ter sido quem acompanhou a EE às declarações para memória futura, no âmbito do processo criminal, e por isso diz estar convencida que ocorreram factos graves. Sabe que a certa altura a família CCC e ZZ afastou-se dado que ela achava que não era mais necessário, tendo ficado implícito que terá havido uma tentativa de sedução do ZZ à mãe. * CC: é o progenitor das crianças BB e AA, residente na Rua do ... - .... Vive actualmente em ... tendo descrito o seu percurso habitacional, tal como exarado em sede de materialidade. Perguntado acerca da razão da saída de ... disse que “acho que qualquer coisa, por causa da renda; que eu não sei bem; a minha mulher é que está dentro desses assuntos”. A casa era do Sr Padre, primeiro estiveram lá sem pagar nada- 3/ 4 meses -e depois foram exigidos 100 euros por mês, e estiveram meses a pagar e depois a senhora da secretaria disse que teria de pagar mais 50 euros e a mulher disse que não pagava porque tinha acordado com o Sr Padre. Foi a mulher que foi pedir ao Sr Padre, era uma boa casa, levaram para lá os seus pertences e o Sr Padre arranjou outras coisas, era confortável. Nessa ocasião já trabalhava na ..., ganhando o salário mínimo nacional e a mulher frequentava cursos, ao que julga saber- “não sei bem “ –um de contabilista e o outro ligado a crianças e que no fim do curso ia trabalhar para as escolas. Foram para ... pois alguém da Segurança Social lhes disse que a casa de ... não tinha condições para as meninas. A casa de ... era boa, com dois andares, quatro quartos e duas casas de banho, pagando 350 euros de renda. Voltaram a ... porque a sua firma ficou em lay off, recebendo um terço do ordenado onde ainda estão. A casa de ... foi pintada, portas novas, puseram chão “está boa”. Relativamente à sogra diz que nada faz, está reforma e lá em casa - tem 73 ou 74 anos –e às vezes vai com a mulher para a horta. Ela bebe- “não bebe mais porque gente não deixa, a gente esconde e a maior parte das vezes a gente não compra por causa dela” e nalgumas ocasiões bebe até “cair de caixão à cova”. Quando bebe é violenta, ralha com todos, chama nomes- “puta” ou “manda a gente para o caraças...”. Usa cueca/fralda e muitas vezes não muda- “ela só se vai mudar quando quer”, devia mudar duas ou três vezes ao dia mas não o faz. Relativamente a ir para o Centro do Dia, disse que “e quem é que a leva, que ela bate o pé a dizer que não quer ir”, sendo que andam a tentar essa solução desde que foram para ..., só irá à força. No respeitante a um episódio em ..., relatou o episódio relativo a um homem que pedia comida e que ficou consignado nos factos, afirmando que a sogra também bebeu- “já estava tratadinha” –cerca das 20/21.00 horas e já tinham jantado. E quando lá chegou “já estavam engalfinhados”, querendo dizer que “estavam aos beijos”. É a mulher quem trata da higiene da mãe. No respeitante a troca de palavras entre a mãe e a PP disse nada saber. Nada sabe de um incidente entre as crianças e uma acusação à EE, de se ter apropriado de um bolo. Confirmou o episódio do excesso de lotação no carro, no .... No apartamento de ... nega que guardassem a comida para os animais no apartamento. Questionando acerca de uma alegada ameaça de suícidio a propósito das filhas não virem a casa no 1º de Novembro, disse que fez essa ameaça quando as meninas saíram, de casa para .... Relativamente à estadia no ...- esteve lá 13 anos –sendo que a BB nasceu em ..., para arranjar trabalho, O YY ia-o ajudar nas cabras, por exemplo a tirar estrume. Ele gostava muito das meninas, nunca as tratou mal, davam-se bem, mas não andavam aos “beijinhos”. Relativamente às crianças quer que elas vão para a escola, estudarem, que sejam alguém na vida, tem que as “puxar” para elas progredirem, se for preciso pagar a alguém para ajudar. Se se portarem mal têm de ralhar e dizer para se portarem bem, para “não fizessem isto ou quilo, o pai ou a mãe não gosta”, sendo que se castigam não se dando o que elas querem e não se lhes fazer vontade, como seja fecharem-nas algum tempo, para aprenderem, num quarto. Acha que as filhas não têm nenhum problema de fala, salvo alguma gaguez, não sabe se têm terapia da fala, não sabe se alguma delas tem problemas de concentração ou se é irrequieta. Relativamente ao futuro diz que as filhas querem vir para casa, que o pai as vá buscar. Não sabe quando a AA faz anos- “é a minha mulher que está dentro dessas datas”, No seu trabalho começa às 7.30 e sai às 18.00 horas. A EE tinha computador em casa e internet. A mulher nunca foi ver a II, a sua filha e acha que não se falam. Tem ideia de ir a casa o CAFAP mas nada fazia e não tinha ideia de lá ter ido alguém do RSI. O Dr KK “era bom, falava com a gente; para fazer isto, fazer aquilo”. Interrogado disse que após o acompanhamento não mudaram nada dos seus comportamentos, pois que, por exemplo, não passaram a ter a casa limpas pois isso “a minha mulher já tinha a casa limpa”. Pensam ficar na casa de ..., mas têm que arranjar as condições. Era muito frequente a sogra estar alcoolizada, quando estava em ... e por isso diz que saíram para ..., porque aí havia muito menos cafés onde ela pudesse beber. Relatou a conversa com a Drª MM versou obter o consentimento para a adopção e que a EE ficaria na instituição até aos 18 anos mas também falaram do incidente com a filha ocorrido em Abril, referindo que a técnica nada saberia. Na despedida das filhas ficam a chorar e a técnica tem de as animar. * DD: é a mãe das crianças actualmente residente na Rua do ..., estando aqui há cerca de 4 meses e confirmou todas as moradas em que viveram e disse que saíram de ..., porque iam trabalhar, e a sua mãe queria ficar no café, a beber álcool e era frequente estar embriagada, algumas vezes quase em coma alcoólico. Em ... também havia cafés mas como a sua mãe não conhecia ninguém, não ia para lá, o que também sucede em ... dado que existe café mas e longe da casa onde vivem. Explicou as sucessivas mudanças de casa com as sucessivas e regulares objecções e críticas da Segurança Social que, diz, colocavam defeitos em todas; em ... porque havia escadas e não estavam protegidas para as meninas. No ... porque a casa apenas tinha dois quartos e não havia quarto para as meninas. A casa da paróquia foi arranjada pelo Padre GG e pelo Dr KK, tendo levado para lá mobílias exclusivamente suas, sem auxílios de terceiros, reiterando que a saída da casa da paróquia se deveu à mãe e não ao custo da renda. Pensaram na colocação da sua mãe num centro de dia mas ela nega sempre e, se insistirem, “diz que se mata”, o que sucede desde que as meninas saíram de casa, e que o marido já lhe disse “ou ela ou as meninas” mas reclama sempre e diz que “a gente a quer tirar lá de casa”. Estando em casa a sua mãe apenas bebe com o marido e se este beber, mas quando compra vinho tem de o esconder, mas a mãe chegou a rebentar a fechadura do espaço onde estava a garrafa. Também conformou o episódio em ..., relativo à sua mãe e a um terceiro- “o homem da ...”, este com 60 e poucos anos e ela com 72 anos, sendo pessoa que “se mete nos copos”. Relatou um episódio da EE e do homem dos bolos, que queria dar dinheiro à miúda mas não sabe porque razão o queria fazer e que a ameaçou com uma navalha e então chamou a GNR. Disse que a mãe ameaça que se suicida se a levarem para o centro de dia, nunca o fez na presença das meninas, e que ameaçou que se atirava a um poço quando levaram as meninas. Tem mais 5 irmãs, uma delas disse que a levava com ela mas ela nunca quis ir. Confirma a mensagem da PP à EE a dizer que a DD matou o marido. Nunca contou à EE que a PP tinha Covid 19 e que estava fugida mas antes que esteve de quarentena. Confirmou que a EE estava presente quando o ZZ a tentou convencer a deixar o marido para fugir com ele e chamou a GNR. No presente anda em formações, para acompanhar os meninos nos autocarros na escola, e outra de jardinagem. Teve outras formações, tendo trabalho nos A... e em ..., trabalhos que deixou por via de falta de transporte. Teve também uma formação, em ..., para gestão doméstica e gestão familiar, tendo diploma desta acção. Confirmou que a filha II lhe foi tirada para a madrinha, que era amiga no Facebook há ano e pouco, mas a madrinha nunca deixou falar consigo. No respeitante ao CAFAP, que foram duas vezes a ... e nenhuma a ..., quando o Dr KK ainda estava no processo, mas, no seu dizer, nada iam lá fazer, pois que apenas ligavam a saber se estava tudo bem e como estava a mãe. Disse que quando o marido tinha cabras havia lá muitos homens para fazer negócio, para comprar os cabritos. No tocante ao incidente da EE e do YY, ela nunca contou nada, mas dizia que não gostava dele- “oh mãe manda-o embora que eu não gosto dele”. No ... e a EE relatou que a EE que um menino lhe tinha metido um dedo na vagina, ocorrido há cerca de 5 anos. Saiu da casa de ... dado que o senhorio, para aceder à sua casa, tinha de passar pela sua casa. No episódio do carro, em ... foi o condutor quem assumiu a responsabilidade e insistiu para que fossem todos, apesar de lhe terem objectado. No CAFAP e RSI nunca abordaram o seu passado. Confirmou a reunião com a Drª MM e que abordaram a questão da ida para a adopção, dizendo que a técnica insistiu no sentido do pai prestar o consentimento para adopção. Referiu que alguém em ... se queixou, dizendo que as crianças andavam na escola com piolhos, o Dr KK diligenciou e disse-lhe que não era verdade. No tocante às visitas relatou a última e que a AA queria passar por baixo do acrílico para ir apara o colo dos pais. Nega que alguma vez o pai lhe tenha dito que ia mudar de escola por si. Nunca faltou comida em casa e o JJ apenas levou para lá guloseimas, esclarecendo que está de relações cortadas com a HH desde que as filhas foram para a instituição. Referiu que havia uma postura diferente entre o Dr KK e a Drª MM, pois que aquele ajudava e esta sempre teve a perspectiva da adopção Nada sabe de terapia da fala ou que alguma das filhas esteja a receber apoio psicológico sendo que, em termos de projecto de vida para as filhas, disse que “estarem ao pé dos pais, acho eu…estudar, ter uma vida confortável, acho eu…eu quero o melhor para as minhas filhas…o melhor era estar ao pé da gente…e estudarem e serem umas mulheres”. As crianças, no retrato, desenham a família, ainda não sabe dos resultados escolares das filhas. * GG: é sacerdote ... e reside na Casa Paroquial de ..., disse conhecer as crianças e sua família há uns 10 anos e confirmou ter tido intervenção na ajuda à família, com a cedência de uma habitação para esta, no centro da povoação, esclarecendo que foi um grupo de amigos quem comprou o equipamento para a cozinha mas a adaptação do espaço também foi auxiliada pela autarquia. Ignora problemas de alcoolismo na avó materna, tenso sido diligenciado para que fosse colocada no Centro de Dia, com o encaminhamento da Assistente Social da Câmara, mas não seguiu o processo. Foi levar os pais a visitar as filhas e foi buscá-las para passarem dias com a família, sendo recebidos com lágrimas, amor e alegria, havia afecto e na despedida havia custo na despedida, sendo que na deslocação de regresso ao CAT, uma vez, choraram parte da viagem, no inicio do ano. Tinham carências económicas. Notava-se as necessidades afectivas das crianças. Perguntado sobre se a situação passava pelo regresso das crianças aos pais, disse que não conhece a actual situação- nem sabe onde estão -mas pode afirmar que “o lugar das crianças é junto da família, óbviamente”. Os pais estiveram na casa um ano, ano e pouco, não chegou a dois anos, e saíram por razões que desconhece, ainda que tenha escutado de terceiros que a razão radicava no aumento da renda mas esse facto não é verdadeiro, porque nunca sucedeu, já que não havia renda pois que apenas davam alguma coisa- pensa que seriam 40 euros, mensal ou de dois em dois meses, não pode precisar -para ajudar nas despesas de agua e luz. Foi o Dr KK quem intercedeu para a atribuição desta casa com algum empenho pessoal dos pais. Sabe de um desacato lá em casa quando ali foi chamada a GNR. * XX: é doméstica e vive em .... Conhece as crianças e a família e trabalhou juntamente com a progenitora. Conhece-a há anos, hoje vivem em ..., nunca sentou que passassem necessidades, eram muito bem tratados, andavam sempre limpas Sente que há amor na família, com laços afectivos. Há boas relações de vizinhança dos progenitores e nunca percepcionou que fossem lá a casa homens, com obras na casa, com melhorias mas sem as descrever ou pormenorizar. Conhece a avó materna das crianças, “até é boa de mais; gosta muito das meninas…anda sempre livre e arranjadinha”, sendo que bebe um copo à refeição, quando o tem- copos pequenos; a mãe também anda sempre limpa e arranjada, e ainda ao dia com a testemunha e o pai trabalha. A PP vive a 3 Kms da mãe, mas não sabe se elas de vez em quando se pegam. A última vez que viu as meninas foi quando elas foram para a instituição. Conheceu a casa de ..., que era uma boa casa mas ignora porque a deixaram. Era muito frequente a sogra estar alcoolizada, quando estava em ... e por isso diz que saíram para ...: * * Uma vez abordados os meios de prova, como que em síntese, importa dizer que da sua análise resulta, cremos, que o resultado da sua ponderação, consignado na materialidade ateve-se essencialmente, por um lado ao dado científico que constitui a prova pericial. Por outro lado os documentos juntos, no essencial os relatórios sociais, seja da EMAT como do CAT são objectivos e concretos, em muitas das situações corroboradas pelos depoimentos testemunhais dos seus autores. E ressalta à evidência, cremos, que, no que tange aos depoimentos dos progenitores, estes foram coincidentes em muitos aspectos, com verdade, alguns deles como constituindo uma “declaração confessória”- permita-se-nos a expressão, como seja o episódio entre a avó das crianças e um terceiro, no interior da habitação – a verdade é que também assumiram um conjunto de declarações contraditórias, seja entre ambos como em relação a terceiro: pensamos, neste caso, entre o mais, na alegação primeira de que deixaram a casa paroquial de ... por via da alegada ou suposta exigência de aumento de renda, que a testemunha Padre GG disse que nunca existiu, salvo compromisso de pagarem água, luz e gás. Ou até entre ambos, já que o pai disse que saíram para ... pela exigência do aumento de renda mas a mãe justificou-a com a necessidade de retirar a sua própria mãe daquele “antro de destruição” da avó materna das crianças, leia-se a existência de um grande número de cafés- ou tascas na zonam, nas quais a sua mãe passava o tempo a ingerir álcool. * FUNDAMENTAÇÃO SUBSEQUENTE * Antes de mais e documentalmente anota-se a informação social emanada da EMAT e datada de 14 de Setembro informa da deslocação e da nova morada dos progenitores das crianças para e em ...- fls 1587. Por sua vez em 9 de Outubro de 2020 o CAT de ... informa que os pais não mais as visitaram, mas esclarecendo que as visitas e contactos telefónicos estavam suspensas. E ainda uma outra comunicação do CAT, com data de 20 de Maio de 2020, que informe da actual situação das crianças e dos contactos mantidos entre estas e os progenitores. * Mais importa ponderar a prova pericial relativa à avaliação psicológica realizada às crianças, junta a fls 1672 e segs. Nesta sede e tal como já havíamos procedido com a avaliação aos progenitores, sem embargo da sua fixação ou elencação em sede de materialidade, vejamos apenas das conclusões ali assentes. Assim e no que respeita à BB são elas as seguintes: “BB, de 8 anos de Idade, revelou na presente avaliação, ser uma criança autónoma que se encontra em plena fase de desenvolvimento físico, psicológico e social. Manteve ao longo do processo avaliativo uma postura adequada não sendo detectada qualquer dificuldade em estabelecer e manter contacto interpessoal, humor eutímico (normal). Expressa-se de forma clara, sem indícios de alterações ao nível da estrutura e conteúdo do pensamento. Apesar de na primeira entrevista mais resistente e defensiva quando abordadas as dinâmicas familiares e a adopção, foi de um modo geral, colaborante; - Avaliada do ponto de vista cognitivo e intelectual, a BB revelou possuir um funcionamento cognitivo global abaixo da média esperada para a sua faixa etária, sendo no entanto, prejudicada pela falta de motivação para a tarefa (esta avaliação decorreu na primeira entrevista, na qual a BB se encontrava mais defensiva e menos predisposta para as tarefas que lhe foram colocadas); - quanto ao seu funcionamento emocionaI, do ponto de vista psicométríco, destaca-se que apresenta um bom autoconceito, uma personalidade com níveis normais de psicoticismo e assente em traços de estabilidade emocionai, tendencialmente introvertida, controlada e reservada (ressalvando-se que se encontra em formação). Os dados apresentados são reforçados pela Dra. RF que não identifica sintomatologia clínica nem preocupações em relação ao seu comportamento, não identificando dificuldades de um modo geral e, representando a BB com comportamentos pró-sociais”. Anote-se que o desenho da família, “segundo o autor ao realizar a interpretação ao nível do conteúdo devem ter-se em conta dois princípios: o do prazer (a criança tem dificuldades com a sua família real e transforma o real consoante as suas necessidades) e da realidade (a criança desenha a sua família, tal como ela é, pois está capaz de gerir as suas relações familiares)”. No que respeita à AA, consignam-se as seguintes conclusões: “AA, acabou de completar 5 anos de idade e vive em meio acolhimento residencial desde o seu primeiro ano de vida. Esta vivência em melo institucional, desde um momento tão precoce, toma difícil a construção de relações de vinculação com a família; - ao longo da avaliação observou-se uma menina com linguagem pobre e por vezes imperceptlvel e com elevada agitação psicomotora; - avaliada do ponto de vista cognitivo e intelectual, a AA revelou possuir um funcionamento cognitivo global muito abaixo da média esperada para a sua faixa etária; - Quanto ao seu funcionamento emocional, do ponto de vista psícométrtco, e através da informação recolhida pela Dra. RF sobressaem dificuldades de comportamento, pontuando ac