Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra Acórdãos TRC Acórdão do Tribunal da Relação de Coimbra Processo: 234/25.5T8GRD.C1 Nº Convencional: JTRC Relator: BERNARDINO TAVARES Descritores: CONTRATO COLETIVO DE TRABALHO FILIADOS DA CESP UMP FNE CNIS FEPCES Data do Acordão: 02/27/2026 Votação: UNANIMIDADE Tribunal Recurso: JUÍZO DO TRABALHO DA GUARDA DO TRIBUNAL JUDICIAL DA COMARCA DA GUARDA Texto Integral: N Meio Processual: APELAÇÃO Decisão: CONFIRMADA Legislação Nacional: CCT DE 2019 CELEBRADO ENTRE A CNIS E A FEPCES, PUBLICADO NO BTE N.º 41, DE 8 DE NOVEMBRO DE 2019, BTE N.º 2, DE 15 DE JANEIRO DE 2021, E BTE N.º 39, DE 22 DE OUTUBRO DE 2021 Sumário: I – Aos filiados no CESP não é aplicável o CCT celebrado entre a UMP e a FNE, seja porque aquele não o subscreveu, seja porque a PE consagrou a sua oposição ao mesmo; II – Àqueles trabalhadores, no âmbito de relação laboral com a Recorrente Santa Casa da Misericórdia, é, antes, aplicável o CCT de 2019 celebrado entre a CNIS e a FEPCES, publicado no BTE n.º 41, de 8 de novembro de 2019, BTE n.º 2, de 15 de janeiro de 2021, e BTE n.º 39, de 22 de outubro de 2021, por força das PE 259/2022 e 270/2022. (Sumário elaborado pelo Relator) Decisão Texto Integral: * Acordam na Secção Social do Tribunal da Relação de Coimbra: I - Relatório CESP – Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal instaurou ação declarativa, sob processo comum, contra Santa Casa da Misericórdia da Guarda, tendo formulado os seguintes pedidos: “1- Declarar-se:
(1)“A convenção coletiva obriga o empregador que a subscreve ou filiado em associação de empregadores celebrante, bem como os trabalhadores ao seu serviço que sejam membros de associação sindical celebrante.” Ora, porque a Recorrente não é associada da CNIS não lhe pode ser aplicado, sem mais, o referido instrumento de regulamentação coletiva. Por sua vez, porque os associados do Recorrido não fazem parte da FNE, também, sem mais, não lhes é aplicável o ACT celebrado entre a SCM de Abrantes e outros com FNE. Dito de outra forma, reportados aos instrumentos de regulação coletiva de trabalho negociais, porque as “partes” não são subscritores/ associados dos mesmos, em simultâneo, está claro, não se lhes aplicam por essa via, ou seja, pela via “negocial”. Nessa medida, impõe-se, desde já, concluir que ao contrário da posição da Recorrente, não se mostra inobservado o princípio da subsidiariedade a que alude o artigo 515.º do CT. Efetivamente, este estabelece que “a portaria de extensão só pode ser emitida na falta de instrumento de regulamentação coletiva de trabalho negocial” e, como vimos, este inexistia. Porém, inexistindo instrumento de regulamentação coletiva de trabalho negocial que se aplique, nesse âmbito às partes, resta, pois, conforme dispõe o artigo 514.º do CT a respetiva aplicação pela via não negocial, ou seja, por Portaria de Extensão. A Recorrente, como vimos, pugna que se lhes aplica o CCT celebrado entre a SCM de Abrantes e a FNE, sem, contudo, invocar/ identificar portaria de extensão para o efeito. Em todo o caso, o Recorrido deu conta que a PE n.º 278/2010, de 24 de maio, publicada em DR n.º 100/2010, Série I de 24 de maio de 2010, que estendeu a aplicação do CCT celebrado entre a SCM de Abrantes e a FNE às relações de trabalho entre as Santa Casas da Misericórdia, excluiu a sua aplicação aos trabalhadores filiados em sindicatos associados na FEPCES, onde se inclui o Recorrido. Efetivamente, resulta da portaria que “considerando que assiste à oponente a defesa dos direitos e interesses dos trabalhadores que representa, são excluídos da extensão os trabalhadores filiados em sindicatos associados da FEPCES – Federação Portuguesa dos Sindicatos do Comércio, Escritórios e Serviços”. Nessa medida, reportado ao período em que entrou em vigor a Portaria 259/2022, de 27 de outubro, publicada em DR n.º 208/2022, Série I de 27 de outubro de 2022, ou seja, a 3 de novembro de 2022, temos, pois, de concluir que inexistia CCT aplicável às relações entre as partes, seja pela via negocial, seja pela não negocial. Vejamos então se lhes é aplicável o CCT de 2019 celebrado entre a CNIS e a FEPCES, publicado no BTE n.º 41 de 8 de novembro de 2019, BTE n.º 2 de 15 de janeiro de 2021 e BTE n.º 39 de 22 de outubro de 2021, por força de regulamentação coletiva de trabalho não negocial, no caso, de portaria de extensão. A sentença, a esse respeito, consignou que: “O CCT celebrado entre a CNIS – Confederação Nacional das Instituição de Solidariedade Social e a FEPCES – Federação Portuguesa dos Sindicatos do Comércio e Serviços e outros, publicada no BTE n º 41 de 08/11/2019, n º2 de 15/01/2021 e n º 39 de 22/10/2021, estabelece na cláusula 70ª que “1- Os trabalhadores que estejam a prestar serviço em regime de tempo completo têm direito a uma diuturnidade no valor de 21,00 €, por cada cinco anos de serviço, até ao limite de cinco diuturnidades. 2- Os trabalhadores que prestem serviço em regime de horário parcial têm direito às diuturnidades vencidas à data do exercício de funções naquele regime e às que vierem a vencer-se nos termos previstos no número seguinte. 3- O trabalho prestado a tempo parcial contará proporcionalmente para efeitos de atribuição de diuturnidades. 4- Para atribuição de diuturnidades será levado em conta o tempo de serviço prestado anteriormente a outras instituições particulares de solidariedade social, desde que, antes da admissão e por meios idóneos, o trabalhador faça a respectiva prova. (…)”. Estabelece o artigo 1º da Portaria 259/2022, publicada no DR n º 208/2022 I Série de 27/10/2022 que: “1- As condições de trabalho constantes do contrato coletivo e suas alterações em vigor entre a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade - CNIS e a FEPCES - Federação Portuguesa dos Sindicatos do Comércio, Escritórios e Serviços e outros, publicadas no Boletim do Trabalho e Emprego (BTE), n.º 41, de 8 de novembro de 2019, n.º 2, de 15 de janeiro de 2021, e n.º 39, de 22 de outubro de 2021, são estendidas no território do continente:
- a)Às relações de trabalho entre as instituições particulares de solidariedade social não filiadas na confederação outorgante que prossigam as atividades reguladas pela convenção e trabalhadores ao seu serviço das profissões e categorias profissionais nela previstas;
- b)Às relações de trabalho entre instituições particulares de solidariedade social filiadas na confederação outorgante que prossigam as atividades reguladas pela convenção e trabalhadores ao seu serviço, das referidas profissões e categorias profissionais, não representados pelas associações sindicais outorgantes. 2 - A presente extensão não é aplicável às relações de trabalho que no mesmo âmbito sejam reguladas por instrumento de regulamentação coletiva de trabalho negocial, de acordo com o artigo 515.º do Código do Trabalho. 3 - A presente extensão não é aplicável aos trabalhadores filiados em sindicatos representados pela Federação Nacional dos Sindicatos dos Trabalhadores em Funções Públicas e Sociais – FNSTFPS”. E, o artigo 3º da mesma PE que: “1 - A presente portaria entra em vigor no 5.º dia após a sua publicação no Diário da República. 2 - A tabela salarial e cláusulas de natureza pecuniária em vigor previstas na convenção produzem efeitos a partir de 1 de dezembro de 2021”. Por sua vez, foi publicada em 09/11/2022, no DR n º 216 1º Série, a Portaria 270/2022, que procedeu à alteração da Portaria 259/2022, tendo como justificação para a sua publicação, além do mais, “Considerando que aquando da elaboração do respetivo procedimento de aviso de projeto de portaria de extensão foi tido em conta na fixação da eficácia das cláusulas de natureza pecuniária a data do pedido de extensão e o termo do prazo para a emissão da portaria de extensão, com produção de efeitos a partir do 1.º dia do mês em causa e que, em consequência, o n.º 2 do artigo 3.º da Portaria n.º 259/2022, de 27 de outubro, determina que a tabela salarial e cláusulas de natureza pecuniária em vigor previstas na convenção produzem efeitos a partir de 1 de dezembro de 2021; Considerando que com a emissão da Portaria n.º 259/2022, de 27 de outubro, as relações de trabalho entre trabalhadores e instituições particulares de solidariedade social filiadas na União das Misericórdias Portuguesas - UMP, sem regulamentação coletiva negocial aplicável, passam a estar abrangidas pelas condições de trabalho previstas no referido contrato coletivo e suas alterações em vigor e que, na medida do previsto, a matéria salarial e pecuniária representa um aumento de encargos extraordinário, agravado pelo atual contexto económico e social, procede-se à alteração da portaria de extensão, nomeadamente dos efeitos retroativos previstos no n.º 2 do artigo 3.º, com vista a possibilitar àqueles associados a adequação e a adoção das medidas necessárias à sua execução”. Tal Portaria introduziu o n.º 3 do artigo 3.º à Portaria 259/2022, o qual passou a estipular que “O disposto no número anterior não é aplicável às instituições particulares de solidariedade social filiadas na União das Misericórdias Portuguesas – UMP”. E, o artigo 2.º da Portaria 270/2022, estabelece que, “A presente portaria entra em vigor no dia seguinte ao da sua publicação e produz efeitos à data da entrada em vigor da Portaria n.º 259/2022, de 27 de outubro”.” (Sublinhados nossos) Em face do exposto, salvo o devido respeito, temos por evidente que se mostra estendido às relações entre as partes objeto dos autos o citado CCT (CNIS e FEPCES). Efetivamente, a Recorrente é uma instituição de solidariedade social não filiada na confederação outorgante, ou seja, na CNIS, que prossegue as atividades reguladas pela convenção e que possui ao seu serviço trabalhadores das profissões e categorias profissionais nela previstas, conforme decorre do artigo 1.º, n.º 1, al. a), da PE. Aliás, compulsada a portaria de extensão, é efetivamente feita referência à oposição por parte da UMP à emissão de portaria de extensão, sendo que, como já referido, a Recorrente é uma filiada da UMP. Porém, no seguimento, também consta da PE a análise crítica dos argumentos da UMP, acabando por se concluir que “Neste contexto, ponderadas as circunstâncias sociais e económicas justificativas da extensão de acordo com o disposto no n.º 2 do artigo 514.º do Código do Trabalho, promove-se o alargamento do âmbito de aplicação do contrato coletivo e das suas alterações em vigor a todas as relações de trabalho tituladas por IPSS não abrangidas por regulamentação coletiva negocial porquanto tem, no plano social, o efeito de uniformizar as condições mínimas de trabalho dos trabalhadores das IPSS e, no plano económico, o de aproximar as condições de concorrência no setor social.” Dito isto, não tendo sido considerada a oposição da UMP, porque não foi admitida enquanto tal pela Portaria, tal como, aliás, a Recorrente reconhece, não passa de uma “mera manifestação de vontade” incapaz de obstar à sua efetiva aplicação. Por sua vez, também a PE 270/2022, de 9 de novembro, que procede à alteração da PE n.º 259/2022, de 27 de outubro, mais não faz que impedir a aplicação retroativa prevista no artigo 3.º, n.º 2, ou seja, obsta a que os efeitos da sua aplicação se reportem “a partir do 1 de dezembro de 2021”, sendo que o faz exclusivamente para as instituições particulares de solidariedade social filiadas na União das Misericórdias Portuguesas – UMP”, que, desta forma, passam a efetivar-se apenas a partir do prazo previsto no n.º 1, do artigo 3.º, logo, “entra em vigor no 5.º dias após a sua publicação no Diário da República”. Ora, dúvidas houvesse, que não há, logo, também esta sucessão de PE evidência que a CCT objeto da PE, é aplicada às filiadas na UMP. Na verdade, a justificação para a alteração efetuada, prende-se efetivamente com a reconhecida aplicação às filiadas da UMP, pois que, pelos motivos consignados no respetivo preâmbulo, em face das evidentes repercussões pecuniárias da aplicação do artigo 3.º, n.º 2, da PE 259/2022, visando-se “possibilitar … a adequação e a adoção das medidas necessárias à sua execução”. Ainda a respeito da aplicação do CCT de 2019 celebrado entre a CNIS e a FEPCES a casos semelhantes, ou seja, em que estavam em causa trabalhadores sindicalizados no CESP e uma Santa Casa da Misericórdia, já o TRG, como citado pela sentença em crise, em acórdão de 20 de fevereiro de 2025, proferido no âmbito do processo n.º 3400/23.4T8VCT.G1, no respetivo sumário, decidiu que: “I - O Sindicato autor/CESP tem legitimidade para propor a ação, nos termos previstos na al.
- c)do n.º 2 do art.º 5º do CPT, uma vez que exerceu o direito da ação perante a violação generalizada de direitos de idêntica natureza de que são titulares trabalhadores seus associados, e em substituição destes, num caso em que é de presumir a autorização, para tal, dos trabalhadores. II - Para além de não existir, nem antes nem atualmente, IRCT negocial aplicável aos filiados no CESP, a estes não é oponível o CCT celebrado entre a UMP e a FNE, e respetivas portarias de extensão, uma vez que o CESP não o subescreveu, como se opôs ao alargamento do seu âmbito para os seus associados. III - Aos trabalhadores sindicalizados no Sindicato autor é aplicável o CCT de 2019 celebrado entre a CNIS e a FEPCES, publicado no BTE n.º 41 de 8 de Novembro de 2019, BTE n.º 2 de 15 de Janeiro de 2021 e BTE n.º 39 de 22 de Outubro de 2021, por força das respectivas PE.” Finalmente, assinalar que, entretanto, a PE n.º 105/2023, publicada no DR Série I, de 31 de maio de 2023, que estende a aplicação do contrato coletivo entre a União das Misericórdias Portuguesas (UMP) e a Federação Nacional da Educação e outros (FNE), tendo dado conta da oposição deduzida, nomeadamente pela FEPCES e pelo CESP, expressamente consignou que “a presente extensão não é aplicável às relações de trabalho em que sejam parte trabalhadores filiados ou representados, respetivamente, pelas associações sindicais seguintes …
- c)CESP – Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal”. Ora, assim sendo, ou seja, não se mostrando estendida a aplicação da CCT celebrada entre a UMP e a FNE, às relações entre as partes na presente ação, ou seja, aos associados da CESP, nem sequer se pode falar em “colisão” e/ ou concorrência entre instrumentos de regulamentação coletiva. Acresce ainda referir que, salvo o devido respeito, não se vislumbra de que forma a interpretação efetuada, ou seja, que se aplica às relações objeto dos autos o citado CCT, viole o artigo 56.º, n.º 3, da CRP. Efetivamente, em momento algum se pode falar que o direito reconhecido às associações sindicais ao nível da contratação coletiva, nomeadamente de a poder efetivar, esteja posto em causa pela interpretação efetuada. Dito isto, é, pois, inevitável concluir que às relações entre as partes na presente ação, por força das PE 259/2022 e 170/2022, se aplica o contrato coletivo e suas alterações entre a Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade – CNIS e a FEPCES – Federação Portuguesa dos Sindicatos do Comércio, Escritórios e Serviços e outros. Assim, também quanto a esta questão improcede o recurso. * Por todo o exposto, julgamos improcedente o recurso apresentado pela Recorrente, mantendo-se a decisão proferida pelo Tribunal a quo. * V - Decisão Pelo exposto, acordam os juízes deste Tribunal da Relação em negar provimento ao recurso e confirmar a decisão recorrida. Custas pela Recorrente. Notifique. * Coimbra, 27 de fevereiro de 2026 Bernardino Tavares Paula Maria Roberto Mário Rodrigues da Silva