Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa Acórdãos TRL Acórdão do Tribunal da Relação de Lisboa Processo: 2/15.2IFLSB-D.L1-5 Relator: ARTUR VARGUES Descritores: INQUÉRITO NULIDADES APREENSÃO Nº do Documento: RL Data do Acordão: 02/21/2017 Votação: UNANIMIDADE Texto Integral: S Texto Parcial: N Meio Processual: RECURSO PENAL Decisão: DECLARADO NULO O DESPACHO RECORRIDO Sumário: I–A apreciação da necessidade de actos de inquérito, quando não legalmente impostos, é da competência exclusiva do Ministério Público, sendo que, por isso, o Juiz de Instrução não pode declarar, durante o inquérito, a invalidade de actos processuais presididos pelo Ministério Público, tendo em atenção o princípio da autonomia deste consagrado no artigo 219º, nºs 1 e 2, da CRP. II–Daí que a arguição de nulidades do inquérito deve ser suscitada perante o Ministério Público, entidade que preside a essa fase processual, com eventual reclamação para o superior hierárquico. Do despacho do Ministério Público (seja do inicial, seja do despacho do superior hierárquico) não cabe reclamação para o juiz, nem recurso para o tribunal superior. III–Tendo o Mmº JIC do TCIC apreciado e emitido pronúncia sobre o mérito de despacho proferido pelo magistrado do Ministério Público, com vista à efectivação de uma apreensão, mostram-se violadas regras de competência do Tribunal, pelo que o despacho revidendo padece da nulidade enunciada na alínea e), do artigo 119º, do CPP. (Sumário elaborado pelo Relator). Decisão Texto Parcial: Decisão Texto Integral: Acordam, em conferência, os Juizes do Tribunal da Relação de Lisboa. I–RELATÓRIO: 1.-No Tribunal Central de Instrução Criminal, aos 07/10/2016, foi proferido despacho pelo Mmº JIC que deu por reproduzida a promoção do Ministério Público “mantendo-se a apreensão”. 2.-Inconformadas com esta decisão, dela interpuseram recurso as arguidas “ACA LDA.” e “APT, LDA.”, apresentando as seguintes conclusões (transcrição): I.-O presente recurso tem a sua origem no despacho proferido a fls. 3286 dos presentes autos, mediante o qual o Tribunal a quo decidiu indeferir a invalidade arguida, mantendo a decisão vertida no despacho do Ministério Público (com a referência 1749828), o qual em acréscimo ao pedido de entrega dos elementos concretos aí vertido, determinou a entrega (e consequente apreensão) de «SAF-T contabilidade e SAF-T facturação respeitantes aos anos de 2015 e 2016 relativo às sociedades ACA e Acessórios e APT, Lda.». II.-Nem toda a documentação de facturação e contabilidade das recorrentes relativa aos anos de 2015 e 2016 está relacionada com a actividade criminosa indiciada nos autos e objecto de investigação no inquérito. III.-Apenas se poderia admitir a decisão de apreensão relativamente a documentação respeitante a transacções envolvendo buffers (identificados a fls. 1542), missing traders (identificados a fls. 1544) ou, em geral, outros arguidos ou suspeitos indiciados nos presentes autos - quanto a estes, as ora Recorrentes remeteram aos autos os elementos de que dispunham quanto às sociedades B., Lda., e D., Lda. (as únicas com as quais mantiveram relações comerciais). IV.-A apreensão ordenada nos presentes autos é de tal forma ampla que abrange documentos relativos a transacções com outras pessoas não identificadas nos presentes autos, no âmbito de actividade não indiciada nos presentes autos e, por isso, que não são susceptíveis de ser usados como prova nos mesmos, como a lei exige para que se possa ordenar a apreensão (cfr. artigo 178.º, n.º 1, do CPP). V.-O Tribunal a quo, ao decidir como decidiu, violou a liberdade fundamental de iniciativa privada, o direito ao crédito e à reputação das RECORRENTES, o direito à reserva da vida privada e o princípio da proporcionalidade, aplicando uma norma inconstitucional, por violação dos artigos 18.º, n.º 2, 26.º, n.º 1, e 61.º da Constituição, extraída por interpretação do artigo 178.º, n.º 1, do CPP, de acordo com a qual a autoridade judiciária competente pode determinar, no decurso do inquérito, a entrega e a subsequente apreensão de documentos que não se relacionam com a matéria criminal sob investigação e que serve de referencial ao investigador. VI.-O despacho de fls. 3288 violou o disposto no artigo 178.º, n.º 1, do CPP, devendo, em consequência, ser revogado e substituído por decisão que reconheça a invalidade arguida e, dessa forma, revogue a ordem de envio, pelas RECORRENTES, e a decisão de apreensão de todos os ficheiros "SAFT" relativos à contabilidade e facturação dos anos de 2015 e 2016 e de todas as facturas e notas de crédito emitidas pelas mesmas, no mesmo período. Nestes termos e nos mais de Direito que V. Exas. doutamente suprirão, vêm as recorrentes solicitar que o Despacho recorrido seja revogado e substituído por outro que, reconhecendo a invalidade suscitada, revogue a ordem de envio e a decisão de apreensão dos ficheiros SAFT integrados da contabilidade e faturação dos anos de 2015 e 2016 e das faturas e notas de crédito emitidas pelas mesmas, na parte em que não respeita a arguidos ou suspeitos indiciados nos presentes autos, só assim se fazendo a costumada e boa Justiça! 3.-Respondeu o Ministério Público junto do tribunal a quo à motivação de recurso, pugnando pela manutenção da decisão revidenda nos seus precisos termos. 4.-Subidos os autos a este Tribunal da Relação, o Exmº Procurador-Geral Adjunto emitiu parecer no sentido de não se encontrar demonstrada nos autos a data indicada na declaração do distribuidor postal, relevante para a determinação da notificação a partir da qual se conta o prazo fixado para o recurso – porquanto, no seu entender, a notificação do despacho recorrido, efectuada por via postal, deve considerar-se efectuada no 5º dia posterior à data do depósito da notificação na caixa postal, indicada na declaração lavrada pelo distribuidor postal (artigo 113º, nº 3, do CPP) – bem como que tenha sido efectuado atempadamente o pagamento da multa devida por o recurso ter sido interposto no 3º dia útil posterior ao termo do prazo respectivo, pelo que os autos deveriam ser devolvidos ao tribunal a quo para esclarecimento destes aspectos. Subsidiariamente, pugna pela declaração de nulidade do despacho recorrido por violação das regras de competência material do Tribunal Central de Instrução Criminal. 5.-Foi cumprido o estabelecido no artigo 417º, nº 2, do CPP, não tendo sido apresentada resposta. 6.-Colhidos os vistos, foram os autos à conferência. Cumpre apreciar e decidir. II–FUNDAMENTAÇÃO. 1.-Âmbito do Recurso. O âmbito do recurso é delimitado pelas conclusões que o recorrente extrai da respectiva motivação, havendo ainda que ponderar as questões de conhecimento oficioso – neste sentido, Germano Marques da Silva, Curso de Processo Penal, III, 2ª edição, Editorial Verbo, pág. 335; Simas Santos e Leal Henriques, Recursos em Processo Penal, 6ª edição, Edições Rei dos Livros, pág. 103, Ac. do STJ de 28/04/1999, CJ/STJ, 1999, tomo 2, pág. 196 e Ac. do Pleno do STJ nº 7/95, de 19/10/1995, DR I Série A, de 28/12/1995. No caso em apreço, atendendo às conclusões da motivação de recurso, a questão que se suscita é a de saber se se verifica a invalidade do despacho lavrado pelo Ministério Público a fls. 3043/3044, na parte em que confirma a notificação das arguidas para envio dos ficheiros SAFT integrados na contabilidade e facturação dos anos de 2015 e 2016 e das facturas e notas de crédito emitidas pelas mesmas, na parte em que não respeita a arguidos ou suspeitos indiciados nos presentes autos, por violação da liberdade de iniciativa privada, do direito ao crédito e à reputação das arguidas e do princípio da proporcionalidade, tutelados nos artigos 61º, 26º, nº 2 e 18º, nº 2, da Constituição da República Portuguesa. 2.-Elementos relevantes para a decisão. 2.1-Aos 14/07/2016, no âmbito do processo de inquérito com o NUIPC 2/15.2IFLSB que corre seus termos no DCIAP, o Exmº Procurador da República proferiu o seguinte despacho a fls. 2707/2708 (transcrição da parte relevante): Através dos seus defensores vieram as arguidas ACA, Lda. e APT, Lda. requerer, além do mais, que seja dado sem efeito a notificação efectuada às arguidas pela Autoridades Tributária e Aduaneira para entrega de todos os ficheiros informáticos resultantes do sistema "SAFT" respeitantes à contabilidade e facturação dos exercícios de 2015 e 2016, bem de todas as facturas e notas de créditos por elas emitidas naqueles anos, atenta a manifesta desproporcionalidade daquela ordem relativamente ao âmbito da busca definido no despacho que a ordenou Os presentes autos têm por objecto a investigação de uma rede de fraude intracomunitária ao IVA que, operando no sector dos telemóveis, desde 2015 tem estado a desenvolver ininterruptamente esquemas de defraudação do Estado português em sede de IVA utilizando o modus operandi característico da denominada fraude carrossel. Esses esquemas de defraudação do Estado em sede de IVA que se desenvolvem através da associação de operações intracomunitárias isentas de IVA e operações nacionais não isentas, implicam a participação de vários operadores que, entre si, formam circuitos económicos de mercadorias ou só circuitos de facturação, nos casos em que a mercadoria é fictícia Tendo em vista: -Identificar e comprovar a totalidade da mercadoria que circulou pelos missing trader, buffer e broker referenciados nos autos, -A totalidade da facturação por eles emitida em razão das transacções ou supostas transacções dessas mercadorias (reais ou fictícias) -Reconstituir a totalidade dos circuitos fraudulentos -Identificar e comprovar o papel dos operadores que neles participaram Foi ordenada a realização de buscas a vários locais e, no que agora importa, às instalações da ACA, Lda. e APT, Lda. em relação às quais existem suspeitas de operarem de broker tendo em vista a apreensão de objectos e documentos relevantes para a investigação em curso e susceptíveis de servir de prova dos factos, nomeadamente elementos contabilísticos e respectivos documentos de suporte relacionados com a actividade criminosa indiciada Ora, para esse efeito é indispensável à investigação aceder e analisar toda a contabilidade e facturação dos exercícios de 2015 e 2016. So assim será possível à investigação determinar a totalidade das mercadorias oriundas dos missing trader já identificados e noutros que venham a ser identificados e concretizar cada um dos items que as integram (IMEI), qual o destino que as arguidas deram as essas mercadorias e quais os documentos de suporte dessas operações, nomeadamente, a respectiva facturação e eventuais notas de crédito. Pelo exposto, vai indeferido o requerido. 2.2-Em 30/08/2016, as arguidas/ora recorrentes apresentaram nos autos requerimento dirigido ao Exmº Procurador da República – fls. 3037/3040 - nos seguintes termos (transcrição): ACA LDA., e APT, LDA., ARGUIDAS nos autos acima referenciados e neles devidamente identificadas, tendo sido notificadas do Despacho de fls. 2707 -2708, vêm expor e requerer a V. Exa o seguinte: 1.º- Pelo Despacho de fls. 2707 -2708 foi indeferido o requerimento das ora ARGUIDAS, de que fosse dada sem efeito a notificação das Arguidas para que procedam à entrega de todos os ficheiros (informáticos) resultantes do sistema "SAFT" que respeitem à contabilidade e à facturação, dos anos de 2015 e 2016, bem como de todas as facturas e notas de crédito por estas emitidas em 2015 e 2016, com fundamento na manifesta desproporcionalidade da ordem relativamente ao âmbito da busca tal como se encontrava definido no despacho que ordenou a sua realização. 2.º- Para tanto, considerou o Ministério Público o seguinte: «Foi ordenada a realização de buscas a vários locais e, no que agora importa, às instalações da ACA, Lda. e APT, Lda. em relação às quais existem suspeitas de operarem de broker tendo em vista a apreensão de objectos e documentos relevantes para a investigação em curso e susceptíveis de servir de prova dos factos, nomeadamente elementos contabilísticos e respectivos documentos de suporte relacionados com a actividade criminosa indiciada. Ora, para esse efeito é indispensável à investigação aceder e analisar toda a contabilidade e facturação dos exercícios de 2015 e 2016. So assim será possível à investigação determinar a totalidade das mercadorias oriundas dos missing trader já identificados e noutros que venham a ser identificados e concretizar cada um dos items que as integram (IMEI), qual o destino que as arguidas deram a essas mercadorias e quais os documentos de suporte dessas operações, nomeadamente, a respectiva facturação e eventuais notas de crédito». 3.º- Assim, da própria fundamentação do referido Despacho consta que o que se pretende apreender - e valha a verdade, a única coisa que é lícito apreender nos presentes autos — são "objectos e documentos relevantes para a investigação em curso e susceptíveis de servir de prova dos factos, nomeadamente elementos contabilísticos e respectivos documentos de suporte relacionados com a actividade criminosa indiciada." 4.º- Abrangida estará certamente a apreensão de elementos e documentos relativos a transacções envolvendo missing traders ou, em geral, outros arguidos ou suspeitos indiciados nos presentes autos. 5.º- Mas já não sucederá o mesmo relativamente a outras pessoas que ainda não estejam como tal identificados, pois que, se não o estão, é porque a actividade dessas pessoas não identificadas não é a actividade indiciada nos presentes, para cuja prova devem servir os elementos e documentos a apreender. 6.º- Falhando, por isso, o pressuposto absolutamente essencial de tais elementos e documentos serem "susceptíveis de servir para prova dos factos", como bem se afirma no Despacho de fls. 2707 -2708, na sequência, aliás, do que se dispõe no artigo 178.º, n.º 1, do Código de Processo Penal. 7.º- É, por outro lado, preciso ter em conta que uma apreensão como a que se pretende ordenar restringe direitos fundamentais. 8.º- Como o direito à reserva da vida privada (já que "por regra, será possível reconhecer [às pessoas colectivas] os direitos pessoais previstos para as pessoas fisicas" - cfr. RUI MEDEIROS/ ANTÓNIO CORTÊS, in JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição Portuguesa Anotada, I, 2a ed., Coimbra, Coimbra Edit., 2010, p. 609). 9.º- E é, inequivocamente, susceptível de pôr em causa segredos comerciais, industriais ou relativos à vida interna da empresa, cuja protecção constitucional encontra fundamento no direito de iniciativa privada (artigo 61º da CRP) e na incumbência do Estado de promover a concorrência equilibrada e efectiva entre as empresas - cfr. artigo 81.º, alínea f), da CRP -, bem como, em segunda linha, no direito ao bom nome e à reputação das mesmas (cfr. artigo 26.º da Constituição) e no próprio princípio geral da boa-fé (cfr. artigo 266.º, n.º 2 da Constituição), que reclama a tutela da confiança legítima de terceiros na não divulgação de informações a estes respeitantes. 10.º- Ora, se este carácter restritivo de direitos fundamentais não impede, em absoluto, a apreensão de elementos e documentos do tipo tido em vista, é inequívoco que essa apreensão tem de obedecer ao princípio da proporcionalidade (cfr. artigo 18.º da Constituição). 11.º- E o princípio da proporcionalidade não autoriza restrições de direitos fundamentais que não são necessárias no momento em que se realizam, mas apenas se alega poderem vir a ser necessárias, num eventual futuro. 12.º- Assim sendo, a apreensão em questão, se for realizada nos termos genéricos em que está ordenada, viola os referidos direitos fundamentais - o que acarretará a nulidade da prova apreendida. Termos em que se requer, muito respeitosamente, a V. Exa. se digne delimitar os elementos e ficheiros objecto de apreensão, mediante a indicação dos fornecedores e/ou clientes das ora REQUERENTES a que dizem respeito. 2.3-Sobre o referido requerimento incidiu o despacho da Exmª Procuradora da República, lavrado em 30/08/2016 – fls. 3043/3044 (transcrição): Através do requerimento junto a fls. 3037-3040 vieram as sociedades arguidas ACA, LDA. e APT, LDA., requerer, no essencial, a delimitação dos " (...) elementos e ficheiros objecto de apreensão, mediante indicação dos fornecedores e/ou clientes das ora requerentes a que dizem respeito" (sic). A fls. 2707-2708 o Exmo. Colega titular do presente inquérito decidiu pelo indeferimento de pedido idêntico, com o fundamento da indispensabilidade, para a investigação, do acesso e análise da totalidade da contabilidade e facturação dos exercícios de 2015 e 2106, com vista a determinar a totalidade das mercadorias oriundas dos missing trader já identificados e outros que venham a ser identificados e concretizar cada um dos item que as integram (IMEI), qual o destino que as arguidas deram a tais mercadorias e quais os documentos de suporte dessas operações, nomeadamente, a respectiva facturação e eventuais notas de crédito. Resulta, pois, que persistem as razões do indeferimento da pretensão das arguidas e ora requerentes, mantendo-se o entendimento da indispensabilidade do acesso e análise de tais elementos no âmbito da investigação e em prol dos seus objectivos e da descoberta da verdade material. Ademais, tal propósito não poderá ser alcançado através da delimitação prévia, como as arguidas defendem, dos elementos e ficheiros a apreender e indicação dos fornecedores e/ou clientes das mesmas, na medida em que, conforme é manifesto, isso só será exequível posteriormente, após o acesso e análise da contabilidade e facturação dos exercícios de 2015 e 2016, conforme já decidido, afigurando-se a realização de tal diligência probatória indispensável no âmbito da investigação em curso, consistentes, essencialmente, no apuramento dos esquemas de defraudação do Estado em sede de IVA e na identificação dos circuitos económicos e de facturação ou só desta, no caso de transacções fictícias de mercadoria, assim como na identificação dos respectivos operadores, clientes e supostos colaboradores das arguidas, por forma a reconstituir a actividade desenvolvida, sopesando, igualmente, o ilícito criminal indiciado nos autos, assim como a complexidade e especificidade do modus operandi utilizado. Atento o exposto, indefere-se, por ora, a pretensão das arguidas, mantendo a anterior decisão do Exmo. Colega titular, sem prejuízo da sua reapreciação pelo mesmo, após férias judiciais, se assim o entender, para cujo efeito desde logo determino lhe sejam os autos conclusos oportunamente. Notifique. Sem prejuízo da decisão supra, solicite à AT que informe se no seu entender se justifica e mostra viável, sem prejuízo da investigação e da descoberta da verdade material, dar oportuno seguimento à pretensão das arguidas e ora requerentes, remetendo cópia do respectivo requerimento e do presente despacho. 2.4-Em 07/09/2016, requereram as arguidas – fls. 3088/3092 – ao Mmº Juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal (transcrição): ACA LDA., e APT, LDA., ARGUIDAS nos autos acima referenciados e neles devidamente identificadas, tendo sido notificadas do Despacho do Ministério Público de fls. 3043 e 3044, vêm arguir a sua invalidade, o que fazem nos termos e com os fundamentos seguintes: 1.º- O Despacho supra referido indeferiu, "por ora", o requerimento das ARGUIDAS de que fossem delimitados os elementos e ficheiros objecto de apreensão, mediante a indicação dos fornecedores e/ou clientes a que dizem respeito, "sem prejuízo da sua reapreciação pelo mesmo [o Exmo. Senhor Procurador titular] após férias judiciais, se assim o entender", 2.º- Confirmando, assim, indirectamente a notificação das ora REQUERENTES para a entrega dos documentos de facturação e contabilidade relativos a 2015 e 2016 constantes de fls. 1884 segs.. 3.º- Ainda que, como resulta dos seus próprios termos, o despacho fls. 3043 e 3044 possa não ser considerado definitivo, podendo a questão vir a ser reapreciada, desde já se invoca, à cautela, a sua ilegalidade. 4.º- Ilegalidade esta que determinará que a ordem notificada às ARGUIDAS seja dada sem efeito. Na verdade, 5.º- A ordem de envio de todos os ficheiros "SAFT" relativos à contabilidade e facturação dos anos de 2015 e 2016 e de todas as facturas e notas de crédito emitidas pelas ARGUIDAS no mesmo período é manifestamente desproporcional se atendermos à finalidade da apreensão. 6.º- Recorde-se que a realização das buscas foi justificada pela "necessidade de se recolherem mais elementos de prova tendentes à identificação de todos os circuitos de fraude, à identificação e comprovação da totalidade das mercadorias e da facturação que circulou nos circuitos económicos fraudulentos" (cfr. fls. 1551 do despacho que ordenou a realização das buscas). 7.º- Esta finalidade não pode deixar de ser interpretada em conformidade com o disposto no artigo 178.º, n.º 1, do Código de Processo Penal ("CPP"), segundo o qual são susceptíveis de apreensão os objetos "susceptíveis de servir a prova". 8.º- Como tal, a apreensão ordenada pelo despacho de fls. 1541 a 1559 não visou – nem poderia validamente visar - a recolha de toda a documentação de faturação e contabilidade das ARGUIDAS dos anos de 2015 e 2016. 9.º- Visou, isso sim - como se reconheceu no despacho de fls. 2707 e 2708 - e só poderia validamente visar a apreensão dos documentos electrónicos de facturação e contabilidade das ARGUIDAS "susceptíveis de servir de prova dos factos, nomeadamente elementos contabilísticos e respectivos documentos de suporte relacionados com a actividade criminosa indiciada" (cfr. fls. 2707). 10.º- Ora, como é evidente, nem toda a documentação de facturação e contabilidade das ARGUIDAS relativa aos anos de 2015 e 2016 está relacionada com a atividade criminosa indiciada. 11.º- Apenas o poderá estar a documentação que diga respeito a transacções envolvendo buffers (identificados a fls. 1542), missing traders (identificados a fls. 1544) ou, em geral, outros arguidos ou suspeitos indiciados nos presentes autos. 12.º- Por outras palavras, a apreensão que se ordenou é de tal forma ampla que abrange documentos relativos a transacções com outras pessoas não identificadas nos presentes autos, no âmbito de atividade não indiciada nos presentes autos e, por isso, que não são susceptíveis de ser usados como prova nos mesmos, como a lei exige para que se possa ordenar a apreensão. 13.º- Note-se que a disponibilização da documentação de facturação e contabilidade nos termos ordenados é susceptível de pôr em causa a liberdade fundamental de iniciativa privada, tutelada no artigo 61º da Constituição, uma vez que pode vir a expor segredos comerciais, industriais ou relativos à vida interna da empresa, limitando o exercício independente da actividade empresarial (cfr. EVARISTO FERREIRA MENDES in JORGE MIRANDA/RUI MEDEIROS, Constituição Portuguesa Anotada, 1, 2ª ed., Coimbra, Coimbra Edit., 2010, p. 1183). 14.º- A ordem é ainda susceptível de restringir o direito ao crédito e à reputação das ARGUIDAS (cfr. artigo 26.º, n.º 2, da Constituição). 15.º- E mesmo o direito à reserva da vida privada (já que "por regra, será possível reconhecer [às pessoas colectivas] os direitos pessoais previstos para as pessoas fisicas" - cfr. RUI MEDEIROS/ ANTÓNIO CORTÊS, in JORGE MIRANDA/ RUI MEDEIROS, ob. cit., p. 609). 16.º- Assim sendo, não foi respeitado o princípio da proporcionalidade, constitucionalmente tutelado no artigo 18.º, n.º 2, da Constituição. 17.º- Concretamente, não foi respeitado o subprincípio da necessidade, uma vez que a notificação das ora ARGUIDAS se revela excessiva, sendo possível alcançar as finalidades da apreensão através de mecanismos menos intensos e agressivos na perspectiva dos direitos fundamentais afectados. 18 °- Do que antecede resulta que a ordem de envio da documentação referida é ilegal uma vez que representa uma restrição desproporcional de direitos fundamentais das ARGUIDAS, violando o artigo 18.º, n.º 2 da Constituição. 19.º- Assim sendo, o Despacho de fls. 3043 e 3044 é ilegal, o que determina a sua irregularidade nos termos dos artigos 118.º, n.º 2, e 123.º, n.º 1, do CPP - que aqui se invoca para os devidos efeitos legais. 20.º- Sendo que, além disso, a prova eventualmente obtida pela apreensão ordenada, nos termos do artigo 126.º, do CPP, na medida em que resultará de uma restrição inadmissível e desproporcional de direitos fundamentais das ARGUIDAS. Termos em que se requer, muito respeitosamente, a V. Exa. se digne declarar a irregularidade do Despacho do Ministério Público de fls. 3043 e 3044, na parte em que indefere o requerimento das ora ARGUIDAS e, indirectamente, confirma a notificação para envio dos ficheiros SAFT integrados da contabilidade e faturação dos anos de 2015 e 2016 e das faturas e notas de crédito emitidas pelas mesmas ARGUIDAS, na parte em que não respeita a arguidos ou suspeitos indiciados nos presentes autos, nos termos do artigo 118.º, n.º 2 e 123.º do CPP. 2.5-Em 13/09/2016 – fls. 3126/3127 - pronunciou-se o Exmº Procurador da República sobre o requerimento de fls. 3088/3092, concluindo por mostrando-se delimitados os elementos a fornecer pelas sociedades arguidas, nos termos do já ordenado na antecedente alínea
Explicação por IA a partir do texto oficial da lei. Orientativa, não substitui aconselhamento jurídico.