Acórdão do Tribunal da Relação do Porto Acórdãos TRP Acórdão do Tribunal da Relação do Porto Processo: 222/23.3PAVLG.P1 Nº Convencional: JTRP000 Relator: CASTELA RIO Descritores: CRIME DE CONDUÇÃO EM ESTADO DE EMBRIAGUEZ DOLO DIRECTO ESTADOS DE INFLUÊNCIA ALCOÓLICA OBJECTO DA CONFISSÃO DECLARAÇÃO DE CIÊNCIA PROIBIÇÃO DE CONDUZIR MEDIDAS DE FLEXIBILIZAÇÃO Nº do Documento: RP20240306222/23.3PAVLG.P1 Data do Acordão: 03/06/2024 Votação: UNANIMIDADE Texto Integral: S Privacidade: 1 Meio Processual: RECURSO PENAL/CONFERÊNCIA Decisão: NEGADO PROVIMENTO Indicações Eventuais: 1.ª SECÇÃO CRIMINAL Área Temática: . Sumário: I - No crime de «condução [dolosa] de veículo em estado de embriaguez», o julgamento «provado» do «complexo fáctico» constitutivo do «dolo do tipo» e, no caso de resposta positiva, do «dolo de culpa» distinto daquele, constrói-se a partir do «facto objectivo» que é a concreta taxa de álcool no sangue g/L do condutor, conjugada com a regra da experiência comum de amplitude ou medida, maior ou menor, da coincidência do «fim ou objecto da vontade do agente com fim ou objecto de acção externa (finis operantis - fim do agente - e finis operis - fim da obra ou da acção exterior)» II - Na escala integrada por sete «estados de influência alcoólica» da hodierna «Toxicologia Forense», uma TAS «real mínima segura» de 2,271 g/L releva jus penal processual penalmente ex vi art 292-1 do CP, por ab initio relevar médico-legalmente, como significante do condutor se encontrar pelo menos em «estado de excitação», quando não já em «estado de confusão». III - Como «Sinais clínicos e Sintomas» do «estado de excitação», ali se apontam «instabilidade emocional e ou diminuição da perceção, memória e compreensão e ou diminuição da coordenação motora»; como «Sinais clínicos e Sintomas» do «estado de excitação» ali se apontam «desorientação, confusão mental e vertigens e ou perda da percepção das cores, formas, movimentos e dimensões e ou diplopia e ou aumento da descoordenação motora, passo cambaliante e ou discurso pouco claro, apatia, letargia». IV - A TAS «real mínima segura» de 2,271 g/L geradora dos «estados de influência alcoólica» com os «Sinais clínicos e Sintomas» supra nomeados, é logicamente congruente substancialmente apenas com «dolo directo» ou «dolo intencional» tendo por objecto a «condução de veículo, com ou sem motor, em via pública ou equiparada», mais «dolo eventual» tendo como objecto o «facto objectivo» da concreta TAS «real mínima segura» pelo facto do condutor não estar a tripular o veículo sob controlo contínuo de um alcoolímetro. V - Ora um qualquer condutor – por «maioria de razão» um «motorista profissional» como provado a quo - não deixa de ter percepção sensorial mental do estado psicossomático mais ou menos «lastimoso» em que se encontra mercê da ingestão de bebidas alcoólicas em momento anterior e ou no decurso da sua condução. VI - A confissão é uma «declaração de ciência» mercê do reconhecimento pelo confitente, aqui Arguido, da realidade de facto/s que lhe é/são desfavorável/is, já que só pode ter por objecto «factos de que possua conhecimento directo e que constituam objecto de prova» ut art 128-1 do CPP aplicável a Arguido em virtude da remissão expressa do art 140-2 do CPP. VII - Como a confissão não é uma «declaração de vontade», não pode ter por objecto a concreta TAS > 1,2 g/l inserta em ticket ou talão export pelo «analisador quantitativo» ou no «relatório de modelo aprovado em regulamentação» contendo o «resultado obtido» no «exame laboratorial» ut art 6-3 no «Regulamento de Fiscalização...» anexo da Lei 18/2007 de 17-5. VIII - Mercê da conjugação da regra de «Direito Probatório material» in art 354-a-I do CC, com arts 2-1 e 4-1 e 7-1 do «Regulamento de Fiscalização...» anexo da Lei 18/2007, com o art 128-1 do CPP, padece de «ineficácia substancial» a «declaração processual penal» em ACTA de Audiência de Julgamento que consigne que a confissão penal processual penal operante, nos termos e para os efeitos do art 344-1-2-a-b -c do CPP, inclui a concreta TAS > 1,2 g/l . IX - A Ordem Jurídica tem de precludir o risco inadmissível da Decisão Final se fundamentar em confissão de factos não verdadeiros ou cuja realidade o Arguido pode não ter a capacidade de afirmar por ultrapassarem o que pode apreender: que o objecto da vontade executada livre, consciente e deliberadamente pelo agente de seus actos de condução após ingestão de alimentos alcoólicos também abranja a TAS concretamente export pelo analisador quantitativo X - «Enquanto que a pena principal visa a proteção de bens jurídicos e a reintegração do agente na sociedade, a proibição de conduzir visa principalmente censurar a perigosidade do agente e contribuir para a sua emenda, ainda que se lhe assinale também um efeito de prevenção geral de intimidação, a funcionar exclusivamente dentro do limite da culpa» mas sem «relação de proporcionalidade rigorosa entre o quantum fixado para a pena principal e aquele fixado para a pena acessória». XI – O art 69-1-a do CPP não padece de violação do «princípio da dignidade da pessoa humana», nem do «princípio da razoabilidade», nem do «princípio da proporcionalidade», nem do «princípio da necessidade», nem do «princípio da adequabilidade», nem do «princípio da ponderabilidade», nem do «princípio da automaticidade das penas», nem do «princípio do Estado de Direito democrático». XII –Não é possível a aplicação de «medidas de flexibilização» da «pena acessória» do art 69-1-a do CP - a «suspensão da execução», a «atenuação especial da pena abstractamente aplicável», a «substituição por caução de boa conduta», o «cumprimento temporalmente descontínuo», o «cumprimento excepcionado de categorias de veículos» a N in casu, a «admoestação», a «dispensa de pena» - por a final consubstanciarem inaceitável violação do princípio constitucional e ordinário da igualdade perante a Lei de todos os «condutores (já) embriagados», por a aceitação dalguma daquelas hipóteses redundar na realização de condenações a la carte ou self service. (da responsabilidade do relator) Reclamações: Decisão Texto Integral: Proc. n.º 222/23.3PAVLG.P1 Na 1ª Secção Judicial / Criminal do TRP acordam em Conferência os Juízes do Colectivo no Recurso Penal 222/23.3PAVLG.P1 vindo de Juiz 3 do Juízo Local Criminal de S M Feira PARTE I - RELATÓRIO Submetido o Arguido AA [1] a JULGAMENTO em Processo SUMÁRIO, a AUDIÊNCIA realizada na PRESENÇA dele culminou na SENTENÇA em 10-4-2023 proferi da oralmente ut art 389-A-1-a-b-c-d do CPP cfr Lei 20/2013 de 21/2 e depositada com o teor [2]: « [ARG a chorar] preciso da carta para pagar as contas mais nada [MJ] profiro sentença neste momento nestes autos de Processo Sumário procedeu-se ao Julgamento de AA acusado do crime de condução de veículo em estado de embriaguez p.p. pelo art 292 nº 1 do CP e 69 nº 1 al
(2)um dos três «vícios típicos de confecção lógica da «Decisão Final» recorrida» ut ACD do Plenário da Secção Criminal do STJ 7/95 de 19-10-1995 conforme o qual «É oficioso, pelo tribunal de recurso, o conhecimento dos vícios indicados no artigo 410.º, n.º 2, do Código de Processo Penal, mesmo que o recurso se encontre limitado à matéria de direito» [12]. Trata-se de Jurisprudência ainda actual ut ACD do STJ de 18-6-2009 conforme o qual «Continua em vigor o acórdão n.º 7/95 do plenário das secções criminais do STJ de 19-09-1995 … que, no âmbito do sistema de revista alargada, decidiu ser oficioso, pelo tribunal de recurso, o conhecimento dos vícios indicados no art. 410.º, n.º 2, do CPP, mesmo que o recurso se encontre limitado à matéria de direito» [13]. As questões a enunciar / apreciar / decidir são as que seguidamente se explanam a se e pela ordem inversa da motivada pela singela mas decisiva causa ou razão lógica substancial que a apreciação do - e decisão sobre o - objecto da «pena (nomen) acessória» pressupõe de direito substantivo – e de direito processual penal recursivo quando questão recorrida - apreciação da - e decisão sobre o - objecto da «pena (nomen) principal» que pressupõe de direito substantivo – e de direito processual penal recursivo quando questão recorrida - a subsunção de factos provados – sejam «factos históricos» e ou «juízos de facto», sejam atinentes ao «tipo legal objectivo» ou pertinentes ao «tipo legal subjectivo» - como jurígenas de responsabilidade criminal / penal in casu pela autoria material do crime doloso ou negligente de «condução de veículo em estado de embriaguez» p.p. pelos arts 291-1 41-1 47-1 do CP com 1 mês a 1 ano de prisão ou 10 a 120 dias de multa em alternativa àquela e pelo art 69-1-a do CP com 3 meses a 3 anos de «proibição de conduzir veículos com motor».…………………………………………………………………………………………………………………………… Explicitado supra que as conclusões da Motivação é que são delimitadoras de «objecto de Recurso» e «poderes de cognição» e «poderes de decisão» deste TRP, a tal delimitação cumpre objectivar previamente que o Recorrente - para fundamentar o pedido recursivo de redução ad quem do nº de dias de multa dos 90 a quo para «uma pena de multa inferior a 30 dias» - alegou no corpo da Motivação - sob «VI - A CULPA E A MEDIDA DA PENA APLICADA» - que: «Ora, a medida da pena é achada entre as finalidades de prevenção e a culpa do agente, conforme aponta Maria João Antunes, fazendo notar que este critério emana do artigo 71.º, n.º 1 do Código Penal. Neste sentido, conforme defendido amplamente na doutrina, as exigências de prevenção reportam-se ao momento do julgamento, enquanto a culpa se reporta ao momento da prática do facto. Para encontrar a medida (justa) da pena, o tribunal terá de ter em conta todas as circunstâncias elencadas no n.º 2 do artigo 71.º do Código Penal. A saber, são estas: o grau de ilicitude do facto, o modo de execução deste e a gravidade das suas consequências, bem como o grau de violação dos deveres impostos ao agente, a intensidade do dolo ou da negligência, os sentimentos manifestados no cometimento do crime e os fins ou motivos que o determinaram, as condições pessoais do agente e a sua situação económica, a conduta anterior ao facto e a posterior a este, especialmente quando esta seja destinada a reparar as consequências do crime e a falta de preparação para manter uma conduta lícita, manifestada no facto, quando essa falta deva ser censurada através da aplicação da pena. 1) É consabido e pacifico que a criminalidade rodoviária encerra um grau de ilicitude; 2) Quanto ao modo de execução e à gravidade das consequências do facto: confirme defende Paulo Pinto de Albuquerque, o modo de execução do crime trata de revelar o grau de desprezo do agente pelo bem jurídico violado. Assim, quanto ao grau de desprezo do agente face ao bem jurídico que foi violado, nunca se poderá afirmar que este é um grau de desprezo elevado, até porque o arguido não chegou a representar a violação do bem jurídico no momento da prática do facto! E, pese embora o arguido tenha violado este bem jurídico, não existiram consequências do facto, mormente, o preenchimento de outros tipos legais de crime e, por consequência, a violação de outros bens jurídicos. 3) Quanto à modalidade da culpa, sabemos que esta tem duas modalidades, o dolo e a negligência. Em primeiro lugar, o dolo corresponde não só ao conhecimento de todas as circunstâncias que são relevantes para o preenchimento do tipo legal de crime, mas também à vontade de o praticar – isto quando nos reportamos ao dolo directo ou de primeiro grau. Este é o dolo mais intenso e que corresponde à culpa mais acentuada por conjugar de forma simultânea do elemento intelectual e volitivo face à prática da infração penal. Assim, a estes corresponderá uma pena mais elevada. Em segundo lugar, não podemos também afirmar que existisse dolo necessário pois o preenchimento do tipo não corresponde “como consequência necessária da sua conduta.” Sobra-nos, então, as formas mais ténues da culpa. O dolo eventual e a negligência – consciente e inconsciente. O arguido nunca chegou a preencher o elemento intelectual do dolo directo, desde logo, porque nunca chegou a representar o preenchimento deste tipo. Neste sentido, atente-se à confissão produzida em sede de julgamento, na qual o arguido afirma que nunca havia pensado que não estivesse em condições para conduzir, desde logo porque não é seu hábito ou costume beber bebidas alcoólicas. Desta afirmação podemos então extrair que não existia o elemento intelectual exigido pela culpa em sede de dolo, pelo que também o dolo eventual deverá ser afastado. Assim defendemos porque para que exista dolo eventual, o agente terá de representar como consequência possível da sua conduta o preenchimento do tipo e ainda assim atuar conformando-se com essa possibilidade. Ora, o arguido nunca chegou a representar como consequência possível da sua conduta o preenchimento de um tipo legal de crime, pelo que nos falta, novamente, o elemento intelectual do dolo. Aqui chegados, podemos apenas afirmar que o arguido preencheu o tipo legal de crime a título de negligência. Atente-se que a marca de água da negligência é a violação de um dever objectivo de cuidado. A distinção entre a negligencia consciente e inconsciente passa pela representação como possível a realização de um facto que preenche um tipo de crime. No caso em apreço, o arguido nunca chegou a fazer essa representação, forma se extrai da sua confissão, gravada em sede de audiência de julgamento. Ou seja, face à confissão do arguido e ao que desta se extraí, o arguido nunca poderia ser condenado na modalidade mais gravosa da culpa, mas sim a título de negligência inconsciente! Desde logo porque, em primeiro lugar, o arguido no momento da prática do facto não representava que as suas ações conduziriam ao preenchimento de um tipo legal de crime. Naturalmente, ninguém forçou o arguido a ingerir bebidas alcoólicas, mas também não deixa de ser verdade que no momento da prática do facto o arguido não representou que a sua atuação levaria ao preenchimento de um tipo legal de crime (elemento intelectual do dolo). Esta conclusão indubitavelmente leva-nos a ter por certo que o preenchimento do tipo foi feito a título de negligência! Mais, face à ausência de representação, por parte do arguido, do preenchimento do tipo, a título de negligência inconsciente! Queremos com isto afirmar que a culpa do agente, embora exista, é uma culpa ténue e não merecedora de uma censura tão gravosa. 4) Relativamente aos sentimentos manifestados no cometimento do crime e os fins ou motivos que o determinaram, extrai-se da confissão do arguido que nunca foi por este representado o preenchimento de um tipo legal de crime e que o arguido, não tendo representado este preenchimento, não poderia nunca fins ou motivos que determinassem essa prática. O único sentido manifestado no cometimento do crime foi o de ignorância pura porque não sabia que não se encontrava em condições para conduzir. 5) Quando às condições pessoais do agente e a sua situação económica, pese embora o arguido aufira uma média de 1800 € mensais, tem créditos bancários no valor de 620.00€ aos quais acrescem as demais despesas com a sua residência e o seu agregado familiar. A ser aceite o valor diário imposto, nunca poderá ser de aceitar, face ao já exposto, o número de dias em multa a que o arguido foi condenado. Atente-se que o arguido foi condenado em noventa dias de multa, quando a moldura penal da multa do artigo estabelece um máximo de 120 dias! Para que pudesse ser aplicada esta moldura penal, o arguido teria de ter uma modalidade da culpa bem mais gravosa, o que não se verifica! Acrescendo aqui ainda as exigências de prevenção, conforme já demonstrado no presente recurso e que ora de dá por integralmente reproduzido quanto às finalidades das penas, são baixas! Aliás, acompanhamos Figueiredo Dias quando afirma que “A medida da necessidade de socialização do agente é no entanto, em princípio, o critério decisivo das exigências de prevenção especial, constituindo hoje – e devendo continuar a constituir no futuro – o vetor mais importante daquele pensamento. Ele só entra em jogo porém se o agente se revelar carente de socialização. Se uma tal carência não se verificar tudo se resumirá, em termos de prevenção especial, em conferir à pena uma função de suficiente advertência; o que permitirá que a medida da pena desça até perto do limite mínimo da “moldura de prevenção” ou mesmo que com ele coincida (“defesa do ordenamento jurídico”).” 6) Quanto à conduta anterior ao facto e a posterior a este, especialmente quando esta seja destinada a reparar as consequências do crime, a verdade é que o arguido, por mais que queira, não existe qualquer tipo de reparação que o arguido possa fazer! Quanto à conduta anterior e posterior ao facto, o arguido nunca representou o preenchimento do tipo legal de crime, mas, quando em sede de julgamento, confessou os factos pelos quais vinha acusado, notoriamente teve uma postura de arrependimento, ainda que não tivesse representado o preenchimento do tipo legal de crime. 7) Relativamente à falta de preparação para manter uma conduta lícita, manifestada no facto, quando essa falta deva ser censurada através da aplicação da pena, o arguido está e sempre esteve preparado para manter uma conduta lícita etal extrai-se do seu registo criminal. O arguido, conforme se extrai do registo de processos do citius, nunca foi interveniente num processo desta natureza, bem como, por consequência, nunca foi condenado na prática de qualquer crime ! Nestes termos, sendo quer a culpa do arguido, quer as exigências de prevenção especial diminutas, pensamos estarem verificados todos os requisitos para que seja a medida da pena impugnada ! » Face a tal corpo da Motivação firmam-se duas conclusões delimitadoras de «objecto de Recurso» e «poderes de cognição» e «poderes de decisão» deste Tribunal de II Instância no sentido da improcedência do pedido recursivo de redução ad quem do nº de dias de multa dos 90 a quo para uma «pena de multa inferior a 30 dias»: 1ª Por não constarem do rol de factos a quo julgados provados, não pode este TRP valorar a decisão do sobredito pedido recursivo, os seguintes «factos históricos» ou «juízos de facto»: «… nunca havia pensado que não estivesse em condições para conduzir, desde logo porque não é seu hábito ou costume beber bebidas alcoólicas … tem créditos bancários no valor de 620,00 € [14] aos quais acrescem as demais despesas com a sua residência e o seu agregado familiar…»; sob pena de se decidir ad quem com factualidade fora do objecto do processo na instância recursiva delimitado pelo objecto do processo firmado na «Decisão Final» recorrida já que não houve pedido de ampliação ad quem do rol de factos a quo julgados provados; 2ª Toda a ratio do corpo da Motivação quanto ao «ponto de Direito» da redução ad quem do nº de dias de multa encontra-se inquinada substancialmente pelo facto do Recorrente ter persistido em olvidar ensinamentos fundamentais de Ciência e Técnica do sector «Álcool e outras Substâncias Voláteis» do ramo «Toxicologia Forense» da «Medicina Legal» determinantes de assertiva compreensão que compete por imperativos constitucionais, de Ciência e Técnica de Direito Penal, os quais infra se exporão tendo presente conhecimentos médico-legais condensados como os disponíveis na Comunidade Médico-Legal, via disso, na Comunidade Jurídica, desde a edição de NOV 2022 do TRATADO DE MEDICINA LEGAL de Francisco Corte Real & Agostinho Santos & Laura Cainé & Eugénia Cunha [coordenadores de 100 autores de 71 capítulos daquele «Tratado…» praticamente desconhecido na Comunidade Jurídica mas] sendo que ressuma in casu o CAPÍTULO 49 da autoria de CARLA Maria Pinto MONTEIRO [15]. Para o condutor de «veículo, com ou sem motor, em via pública ou equiparada» ser sentenciado em «processo penal» pela autoria material do crime doloso ou negligente de «condução de veículo em estado de embriaguez», o Tribunal Penal tem de julgar provados os «elementos subjectivos» mediante «juízos de facto» que, na ausência de confissão e de «prova di-recta» de «factos internos», têm de ser construídos pelo julgador por meio da articulação de regras da experiência de «homem médio» com conhecimento científicos técnicos. A este respeito precisa-se que o julgamento «provado» de elementos subjectivos constitutivos de um crime suporta-se - designadamente a imputação do «elemento cognitivo» e do «elemento volitivo» do «dolo genérico» do tipo legal de crime [16], mais, do «dolo específico» quando elemento constitutivo de tipo legal de crime, ademais, da «consciência da ilicitude» do tipo legal de um crime doloso – na regra da experiência comum - na ausência de confissão em Audiência de Julgamento - do modo normal de agir de um ser humano adulto actuando de modo livre – o predicado da «liberdade» na ausência de coacção física ou coacção moral ou mecanização do agente por uma anterior ingestão verbi gratiae de químicos - consciente – o predicado da «consciência» na ausência de inimputabilidade ou erro - e deliberado / determinado / voluntário - posto que «conhecendo» (elemento cognitivo) e «querendo» (elemento volitivo) sua actuação - com coincidência do «fim ou objecto da vontade do agente com fim ou objecto de acção externa (finis operantis - fim do agente - e finis operis - fim da obra ou da acção exterior)» [17] e «não ignorando» ser contrária à proibição ínsita a norma incriminadora - a «consciência» da ilicitude criminal / penal – da conduta ético-juridicamente desvaliosa por proibida - como é consabido por se tratar do vulgaris crime doloso de «condução de veículo em estado de embriaguez» - uma vez que os elementos psicológicos constitutivos de um tipo legal de crime, «no caso da falta de confissão, só são susceptíveis de prova indirecta como são todos os elementos de estrutura psicológica» [18] e «os actos interiores (ou “factos internos” como lhes chama Cavaleiro de Ferreira), que respeitam à vida psíquica, a maior parte das vezes não se provam directamente, mas por ilação de indícios ou factos exteriores» [19] porque «o que pertence à vida interior de cada um, só possível de apreender através de factos materiais comuns, podendo comprovar-se por meio de presunções, ligadas ao princípio da normalidade ou da regra geral da experiência» [20], a operar a partir de um ou mais «factos objectivos» e porventura in extremis de «juízos de facto» - mas não de «juízos de (des)valor» - pelo que a tanto é decisivo o prévio julgamento «provado» da concreta TAS jus criminal penalmente relevante. Ora do sobredito CAPÍTULO 49 «Álcool e outras Substâncias Voláteis» ressuma [21] que: «O álcool, devido ao seu baixo peso molecular e à sua elevada hidros solubilidade, é rapidamente absorvido no trato gastrointestinal (Moffat, 2004; Moura, 2006). Cerca de 20 % do eta nol é absorvido no estômago e o restante na porção proximal do intestino delgado (Chan & Anderson, 2014). A velocidade de absorção desta substância depende de diversos fatores, nomeadamente, da quantidade de álcool ingerido, da presença ou ausência de alimentos no estômago e da velocidade de esvaziamento gástrico (Jones, 2019; Moura, 2006; Perry et all., 2017). «Após absorção, o álcool distribui-se de uma forma rápida por difusão simples a todos os tecidos do organismo, de acordo com o conteúdo hídrico destes, isto é, os tecidos atingem uma concentração que é proporcional ao seu conteúdo em água (Chan & Anderson, 2014). O etanol é praticamente insolúvel em gorduras e óleos, mas, tal como a água, consegue atravessar as membranas biológicas. As diferenças indivíduos relativamente à proporção de tecido adiposo / água corporal leva a que, após ingestão de uma mesma dose de etanol por Kg de peso corporal, as concentrações de álcool possam ser diferentes (Cerderbaum, 2012; Perry et all. 2017). Esta variação pode ocorrer em função do sexo, uma vez que a mulher tem, proporcionalmente, mais tecido adiposo e menos água do que o homem, o que faz com que o volume de distribuição seja menor na mulher e, por isso, as concentrações sanguíneas do álcool sejam superiores às verificadas no homem uma mesma quantidade de etanol ingerida. [22] Órgãos como o cérebro, fígado, pulmão e rim, com elevado fluxo sanguíneo por grama de tecido, alcançam mais rapidamente o equilíbrio com a concentração de etanol no sangue arterial, comparativamente com os órgãos de baixo fluxo sanguíneo como os músculos, em que o equilíbrio se alcança mais lentamente (Jones, 2019). «Ao contrário de outras substâncias, o álcool não é armazenado nos órgãos, sendo imediatamente metabolizado e/ou eliminado (Figura 49.1) [23]. Essa metabolização pode ocorrer através de mecanismos oxidativos e não oxidativos, sendo os primeiros mais representativos para a sua eliminação (Goullé & Guerbet, 2015; Jones, 2019)» [24] «[…] Embora a metabolização por mecanismos não oxidativos represente apenas cerca de 0,2 % da dose do etanol ingerido, é de extrema importância porque leva à formação de compostos que são considerados biomarcadores de consumo (Figura 49.1). Esses biomarcadores, etilglucuronido (EtG) e etilsulfato (EtS), são detetáveis no sangue, na urina e no cabelo, permitindo confirmar o consumo de álcool, mesmo quando o etanol já não é detetável (Cerderbaum, 2012; Jones, 2019). «A maior parte do álcool consumido (95 % - 98 %) é eliminado pelo metabolismo oxidativo e menos de 10 % é eliminado sem alteração através dos pulmões, rins e pele (Figura 49.1). Num consumo moderado, 2% a 5% do álcool consumido pode ser eliminado através do ar expirado, urina e suor (Figura 49.1) (Jones, 2019; Mello et al., 2001). «A concentração de álcool no sangue (CAS) ou taxa de álcool no sangue (TAS) alcançada após a ingestão de uma bebida alcoólica depende da interação de vários processos bioquímicos e fisiológicos, já anteriormente referidos. A fase de absorção do álcool começa logo após o início do consumo e prolonga-se por algum tempo após ter terminado o consumo do etanol, verificando-se ao longo desse período um aumento da CAS até se atingir uma concentração máxima no sangue (Cmax) (Jones, 2019). A absorção de cerca de 50 % da dose oral ocorre passados 10 a 15 minutos após a ingestão da bebida, se o esvaziamento gástrico for rápido, podendo demorar cerca de 60 minutos a alcançar, podendo demorar cerca de 60 minutos a alcançar os 95%. O período de tempo da fase da absorção que pode chegar aos 120 minutos, se a absorção for lenta (Jones, 2019; Mello et all., 2001). «A taxa de absorção do etanol segue um processo cinético de primeira ordem, ou seja, a taxa de absorção é proporcional à concentração de etanol no estômago. À medida que a concentração no conteúdo gástrico diminui, a taxa de absorção diminui e, eventualmente, torna-se igual à taxa do metabolismo do etanol. Nesse ponto, a CAS atinge a sua concentração máxima (Cmax). Em algumas circunstâncias, como quando o álcool é consumido com alimentos, a CAS pode permanecer mais ou menos constante por várias horas, refletindo uma taxa de absorção de álcool proporcional à que está a ser metabolizada no fígado. Completada a absorção, segue-se uma diminuição progressiva da CAS que que se prolongará por várias horas em função do valor máximo da CAS (Cmax) alcançado (Jones, 2019). «Na figura 49.2 [25], podem observar-se duas curvas da CAS obtidas após ingestão de 0,8 g de etanol por kg de peso corporal em jejum e após um pequeno almoço padronizado. No caso de ingestão de etanol após o pequeno-almoço verifica-se uma menor absorção e, portanto, valores de CAS inferiores aos verificados com a ingestão de etanol em jejum. O défice de absorção de etanol é representado no gráfico pelas linhas diagonais tracejadas que cruzam a ordenada (Jones, 2014).» [26] «O consumo de álcool, para além de efeitos agudos, é um factor de risco para diversas patologias decorrentes de um consumo crónico de álcool (Chan & Anderson, 2014; Mello et all., 2001). O abuso de no consumo de álcool afeta vários sistemas, em especial o sistema nervoso central (SNC), sobre o qual tem um efeito depressor diretamente e proporcional à CAS (Moura, 2006). Os efeitos podem variar entre um sentimento de euforia e alguma desinibição até situações de coma ou de morte (Tabela 49.2) [27]» [28] Confortados com tais ensinamentos fundamentais do sector «Álcool e outras Substâncias Voláteis» do ramo «Toxicologia Forense» da «Medicina Legal» é que se pode avançar com apreciação do - e decisão sobre o – PEDIDO de redução ad quem do nº de dias de multa dos 90 a quo para «uma pena de multa inferior a 30 dias» que é IMPROCEDENTE pelo infra exposto. Sabido que «A aplicação de penas [principal ou de substituição e acessória] … visa a protecção de bens jurídicos [fim-último do Direito Criminal-Penal mediant]e [aquelas como fim-meio d]a reintegração do agente na sociedade» (art 40-1) [29] sem «Em caso algum a pena pode[r] ultrapassar a medida da culpa» (art 40-2) quais vectores da «determinação da medida da pena, dentro dos limites definidos na lei, …em função da culpa do agente e das exigências de prevenção» (art 71-1) às quais se reconhecem as funções de retribuição do crime (por expiação da pena) [30], prevenção especial positiva (de ressocialização por prevenção da reincidência do agente) [31], prevenção especial negativa (de dissuasão por intimidação do agente) [32], prevenção geral positiva ou de integração [por (aprofundamento
- da)interiorização dos bens jus penais [33] e restabelecimento ou revigoramento da confiança da comunidade na efectiva tutela penal estatal dos bens jurídicos fundamentais à vida colectiva e individual] [34] e prevenção geral negativa de intimidação [por dissuasão de potenciais criminosos] [35]; Consabido que «Ao incriminar a condução sob efeito do álcool procurou-se obviar, na medida do possível, à sinistralidade rodoviária em que a ingestão de bebidas alcoólicas assume um papel relevante, estabelecendo-se, por conseguinte, uma moldura penal susceptível de actuar como medida dissuasora bastante nesse sentido. | Estamos perante um crime de perigo abstracto, que não pressupõe … a demonstração da existência de um perigo concreto para os bens jurídicos protegidos … que … não faz parte dos elementos típicos, existindo apenas uma presunção por parte do legislador, as mais das vezes fundada numa observação empírica, de que a situação é perigosa em si mesma, … que na maioria dos casos em que essa conduta teve lugar demonstrou ser perigosa sob o ponto de vista de bens jurídicos penalmente tutelados. | Em causa está mais uma vez a segurança da circulação rodoviária, se bem que indirectamente se protejam outros bens jurídicos que se prendem com a segurança das pessoas face ao trânsito de veículos, como a vida, ou a integridade física … [cuja] … protecção se faz atendendo sobretudo (e até por razões de dignidade penal do bem jurídico a proteger e que assim se vê reforçado) a outros valores, designadamente pessoais, à semelhança do que se passa com outros tipos legais do CP» [36], Sabido que no art 71-2-a-b-c-d-e-f «Os factores de medida da pena vêm exemplificativamente enumerados. E FIGUEIREDO DIAS separa-os em três grupos: relativos à execução do facto, relativos à personalidade do agente e relativos à conduta do agente anterior ou posterior ao facto (ibidem, 245). | Nos factores relativos à execução do facto se encontram o grau da violação ou do perigo de violação (tentativa e crimes de perigo), o dano causado ou posto em causa, a natureza, os meios, a forma e a eficácia da perpetração, a dimensão do conhecimento e da vontade, a medida da lesão do dever de cuidado e da violação dos deveres impostos ao agente (estes, para além daquele, ao nível das relações do mesmo com o bem jurídico ofendido, a vítima, o objecto da acção), os sentimentos manifestados, os motivos e os fins, o próprio comportamento da vítima. Nos factores relativos à personalidade do agente pesam as condições pessoais e económicas, a sensibilidade à pena e a susceptibilidade de por ela ser influenciado, as qualidades pessoais manifestadas. Nos factores relativos à conduta do agente se perfilam a vida anterior, o passado criminal, alguns serviços relevantes, a reparação (com efeito conseguido ou objecto de esforço) das consequências do crime (em particular o dano causado), o comportamento processual (que não seja apenas táctico). E tudo isto de harmonia com a lição de FIGUEIREDO DIAS …» [37], Consabido que a intervenção de uma Relação, como «A intervenção do Supremo Tribunal de Justiça em sede de concretização da medida da pena, … do controle da proporcionalidade no respeitante à fixação concreta da pena, tem de ser necessariamente parcimoniosa, porque não ilimitada, sendo entendido de forma uniforme e reiterada que “no recurso de revista pode sindicar-se a decisão de determinação da medida da pena, quer quanto à correcção das operações de determinação ou do procedimento, à indicação dos factores que devam considerar-se irrelevantes ou inadmissíveis, à falta de indicação de factores relevantes, ao desconhecimento pelo tribunal ou à errada aplicação dos princípios gerais de determinação, quer quanto à questão do limite da moldura da culpa, bem como a forma de actuação dos fins das penas no quadro da prevenção, mas já não a determinação, dentro daqueles parâmetros, do quantum exacto da pena, salvo perante a violação das regras da experiência, ou a desproporção da quantificação efectuada”» que pode pecar por defeito (benevolência injustificada) ou excesso (punição infundada) por um «erro de mensuração» no final do processo de quantificação da pena, O PEDIDO recursivo de redução ad quem do nº de dias de multa a quo de 90 dias a «pena de multa inferior a 30 dias» é totalmente IMPROCEDENTE – neste caso em que «O arguido atuou de forma livre, voluntária e consciente» «com o propósito concretizado de conduzir o veículo supra referido depois de ter ingerido uma quantidade indeterminada de bebidas alcoólicas, bem sabendo que conduzia numa via pública e que apresentava uma taxa de álcool no sangue superior a 1,2 g/l» que foi «2,271 gramas de álcool por litro de sangue, já deduzido o valor do erro máximo legalmente admissível» do «aparelho “DRAGER”» no «teste … de alcoolemia» e que «a sua conduta era proibida e punida pela lei penal» ut síntese analítica compreensiva - porque: 1. A quantificação a quo não merece a censura ad quem querida pelo Recorrente com o argumento «não existiram consequências do facto, mormente, o preenchimento de outros tipos legais de crime e, por consequência, a violação de outros bens jurídicos», por ter o Recorrente olvidado que o crime - seja doloso ou negligente - de «condução de veículo em estado de embriaguez» se consuma com a execução da «conduta típica» por estar gizado na norma incriminadora segundo o «critério da conduta» como «crime de mera actividade» – e não «crime de resultado» - e segundo o critério do «bem jurídico» como «crime de perigo» - e não «crime de dano» - como «crime de perigo abstracto ratio da existência da incriminação – e não «crime de perigo concreto» - e como «crime simples» - e não «crime complexo» [38] - pelo que qualquer plus além da «conduta típica» envolverá violação doutro/s bem/ns jurídico/s por violação da «nor ma/s de conduta» ínsita/s a outra/s norma/s incriminadora/s que competirem ser objecto de processo penal próprio para preclusão de violação do ne bis in idem do art 29-5 da CRP. 2. A quantificação a quo não merece a censura ad quem querida pelo Recorrente com a ar gumentação «nunca chegou a preencher o elemento intelectual do dolo directo … nunca chegou a representar como consequência possível da sua conduta», por ter o Recorrente olvidado que tal argumentação esbarra na subsistência ad quem do rol de factos a quo julgados provados jurígenas de «dolo directo» ou «dolo intencional» de «condução de veículo com … motor em via pública» mais «dolo eventual» do «facto objectivo» TAS «real mínima segura» 2,271 g/L – quase 2 X 1,2 g/L da qualificação da infracção como «crime» - por esta ser significante da condução ter sido praticada em «estado de influência alco ólica» pelo menos «excitação» [39] quando não já «confusão» [40], o que tudo é logicamente congruente substancialmente apenas com «dolo directo» ou «dolo intencional», mais «dolo eventual», cada qual com o respectivo objecto supra apontado, já que um qualquer condutor – por «maioria de razão» um «motorista profissional» como provado a quo - não deixa de ter percepção sensorial mental do estado psicossomático mais ou menos «lastimoso» em que se encontra mercê da ingestão de bebidas alcoólicas em momento anterior e ou no decurso da sua condução, apesar de não estar a conduzir sob controlo contínuo de um «alcoolímetro» [41]. Dito doutro modo, O condutor ora Arguido - independentemente do modus operandi da ingestão de álcool em momento anterior à condução - não podia ignorar - como qual «homem médio» - quantidade e qualidade de bebida/s alcoólica/s que ingeriu determinantes da TAS 2,271 g/L e, apesar disso, afoitar-se à «condução em estado de embriaguez» com a qual se conformou no dizer jus penal por «dolo eventual» ut art 14-3 como bem vem a final decidido a quo. A TAS «real mínima segura» 2,271 é significante da condução ter sido praticada em «estado de influência alcoólica» pelo menos «excitação» quando não já «confusão» na terminologia da perspectiva – anterior à de CARLA MONTEIRO citada do Capítulo 49 do «Tratado de Medicina Legal» - dos seis estados de afectação veiculados pelo Professor Doutor CÂNDIDO ALVES HIPÓLITO REIS Jubilado dos Serviços de Bioquímica da Faculdade de Medicina do Porto e membro do Conselho Científico-Cultural da LASVIN, segundo a qual: «1. Utilizando uma figura metonímica em que se toma a parte pelo todo, neste trabalho, a palavra alcoolemia significa a concentração do álcool etílico (etanol) no sangue. Nele são considerados alguns dos problemas interessantes mas difíceis respeitantes a esta grandeza: toxicologia neurológica, avaliação, dinâmica, condicionamento e interesse médico-legal, designadamente, no que se refere à sinistralidade. Não são considerados aqui os aspectos da utilização do vinho e das outras bebidas alcoólicas nem como alimentos nem como ingredientes da festa, aspectos cuja importância económica, social, médica e antropológica não pode ser ocultada qualquer que seja o tipo de abordagem desta matéria. 2. Aponta-se a diferenciação que, dos pontos de vista biológico, médico e social deve ser reconhecida entre a intoxicação alcoólica aguda e intoxicação alcoólica crónica, sujeita esta a agudizações episódicas. Apontam-se, também, do ponto de vista lesional, os aspectos químicos, bioquímicos e biofísicos implicados, e, do ponto de vista biológico, a ubiquidade dos efeitos orgânicos, designadamente segundo o sistema das categorias estruturais, energéticas e tesaurísmicas. Considera-se, no entanto, que na intoxicação alcoólica aguda a sintomatologia geralmente mais notória é de início a neurológica. A relação desta com a alcoolemia está bem referenciada, e pelo menos desde 1989 que se distinguem, pelos trabalhos de K.M.Dubowski, os sucessivos estados, correlativos dos valores alcoolémicos, em gramas por litro: sub-clínico (0,1-0,5), de euforia (0,3- 1,2), de excitação (0,9-2,5) de confusão (1,8-3,0) de entorpecimento (2,5-4,0) de coma (3,5-5,0) e letal (de 4,5 ou mais). A Comissão Nacional Francesa de Defesa Contra o Alcoolismo, em 1971, difundiu material de informação muito elucidativo sobre este assunto, considerando três zonas num diagrama de valores progressivos: zona de alarme (de 0,5 a 0,8), zona tóxica (de 0,8 a 5,0) e zona letal (superior a 5,0)» [42]. 3. A quantificação a quo não merece a censura ad quem querida pelo Recorrente com o argumento «da sua confissão, gravada em … audiência de julgamento … se extrai, o arguido nunca poderia ser condenado na modalidade mais gravosa da culpa, mas sim a título de negligência inconsciente», por ter olvidado o Recorrente que tal argumentação esbarra na subsistência ad quem do rol de factos a quo julgados provados consubstanciadores de «dolo directo» ou «dolo intencional», mais «dolo eventual», cada qual com o respectivo objecto supra apontado, pelo que na ausência ad quem de rol de factos provados diversos dos a quo, nem sequer é equacionável uma discussão abstracta do Arguido ter praticado a condução do ..-UB-.. por causa / circunstância / etiologia / facto / motivo / razão subsumíveis à diversa «categoria típica» querida pelo Recorrente nomen «negligência inconsciente» com a seguinte estruturação [43]: A responsabilidade penal por negligência … pressupõe o julgamento … de factos susceptíveis de integrarem todos os elementos dos tipos objectivo e subjectivo que são: 1. Do ponto de vista do «ilícito negligente»: 1.1. A violação do dever objectivo de cuidado que perpassa por: 1.1.1. Previsibilidade objectiva do perigo para determinado bem jurídico; 1.1.2. Não observância do cuidado objectivamente adequado a impedir a ocorrência do resultado típico; 1.2. A imputação objectiva do resultado típico (“desvalor de resultado”) à acção violadora do dever objectivo de cuidado (“desvalor de acção”) que perpassa por: 1.2.1. O «nexo causal efectivo»; 1.2.2. A «conexão típica»; 1.3. O objecto do elemento subjectivo «representação» da possibilidade de resultado: 1.3.1. Havendo-o, a «negligência consciente»; 1.3.2. Caso contrário, a «negligência inconsciente»; 2. Do ponto de vista da «culpa negligente»: 2.1. Além da «imputabilidade penal», especificamente: 2.2. A previsibilidade subjectiva do perigo; 2.3. A possibilidade de o agente ter cumprido o dever objectivo de cuidado por ter representado ou pelo menos tido a possibilidade de representar os riscos da conduta que pratica. A ponderação ad quem da «negliência inconsciente» querida pelo Recorrente não tem cabimento algum por subsistência ad quem do rol ipsis verbis de factos a quo julgados provados que não mereceram «impugnação ampla» ut art 412-3-a-b-4, nem «impugnação limitada» ut art 412-3-a-b, nem «revista alargada» ut art 410-2-a-b-c, todos do CPP. 4. A quantificação a quo não merece a censura ad quem querida pelo Recorrente com o argumento da sua «confissão» pelo facto do Arguido negar «elemento intelectual» e «elemento volitivo», a «representação» e a «conformação» constituintes do «dolo do tipo» - quid diverso do «dolo de culpa» - contra a auto-subsistência - por auto-consistência - dos factos a quo julgados provados consubstanciadores de «dolo directo» ou «dolo intencional» de «condução de veículo com … motor em via pública» mais «dolo eventual» do «facto objectivo» TAS «real mínima segura» 2,271 g/L após dedução do «erro máximo admissível» da própria concepção científica técnica do «alcoolímetro» utilizado, por os negar contra as referências na Sentença a quo a «declarações confessórias … confessou os factos … confissão integral e sem reservas … confissão integral e sem reservas» e por os negar contra os ensinamentos fundamentais supra citados do sector «Álcool e outras Substâncias Voláteis» do ramo «Toxicologia Forense». 5. A quantificação a quo não merece a censura ad quem querida pelo Recorrente com o argumento da sua «confissão» ter valor atenuativo quando esse, na verdade, é: Ínfimo por o objecto da «confissão» ter sido «flagrante delito» policialmente percepcionado de «condução de veículo em estado de embriaguez» determinante de «auto de notícia por detenção» para seguinte julgamento oportuno em «processo especial sumário»; Nulo porque o «facto objectivo» constitutivo daquele tipo legal de crime a TAS > 1,20 g/L, só é susceptível de prova por meio de «analisador quantitativo» ou «análise de sangue» ou «exame médico» ut arts 2-1, 4-1 e 7-1 do «Regulamento de Fiscalização da Condução sob Influência do Álcool ou de Substâncias Psicotrópicas» anexo à Lei 18/2007 de 17-5, pelo que a TAS «real mínima segura» in casu 2,271 g/L nunca pôde legalmente ser objecto de «confissão» hoc sensu mercê de vestutas regras de «Direito Probatório material» in arts 341 sgs do Código Civil [44] dentre as quais ressuma o art 354-a-I conforme o qual «A confissão não faz prova contra o confitente: Se for declarada insuficiente por lei» como se afigura implícito mas inequívoco em Direito Penal Rodoviário ut as previsões & estatuições daqueles arts 2-1, 4-1 e 7-1. Como o MP a quo respondeu perfunctoriamente que a «confissão integral e sem reservas, abrangeu necessáriamente todos os factos que estavam descritos no despacho de acusação, sem quaisquer condições e alterações, designadamente que o arguido agiu com dolo direto», bem assim a TAS 2,271 g/L, contra tal perspectiva de facto e de Direito sói lembrar: Ab initio, a imperiosidade de escrupuloso rigor de princípio na afirmação penal processual penal (do objecto) da «confissão do Arguido em Audiência de Julgamento», para se precludirem «ocorrências anormais» no decurso do processo penal com reflexo negativo na «Decisão Final» de direito substantivo, atentos os «alertas» de PAULO PINTO DE ALBUQUERQUE para a confissão poder relevar processual e substantivamente como a «raínha das provas»: «Não obstante o regime de valoração da confissão ser construído com o propósito do incremento da celeridade processual, a confissão só tem relevância jurídica se for feita diante do juiz, na audiência de julgamento e sob o contraditório, de modo que o tribunal e os restantes sujeitos processuais possam controlar o carácter livre das declarações do arguido. Destarte, o legislador visou prevenir a existência, há muito constatada pela doutrina, de uma percentagem significativa de erros judiciários fundados em confissões falsas, derivadas da investigação insuficiente da personalidade do arguido, da não ponderação de mudanças no depoimento do mesmo arguido, da desconsideração de contradições entre factos que não respeitam ao tipo legal e o depoimento do arguido e da omissão da recolha de prova que consubstancie a confissão, sendo certo que, como também já se verificou, a maioria dos erros judiciários nascem por vícios e omissões do processo preparatório e só raramente são corrigidos na fase de julgamento» [45]; De Direito Probatório material, após se perspectivar o estatuído nos arts 352 a 361 do Có- digo Civil à luz conformadora dos princípios constitucionais e legais de um processo penal equitativo e leal, estruturado, além do mais, nos princípios do acusatório, do contraditório, da investigação, da presunção de inocência e do in dubio pro reo, [46] a confissão firma-se como «declaração de ciência» - e não «declaração de vontade» - pelo reconhecimento pelo Arguido da realidade de facto/s que lhe é desfavorável pelo que só pode ter por objecto - não o facto da concreta TAS > 1,2 g/l export pelo analisador quantitativo em talão ou ticket ou inserta no «relatório de modelo aprovado em regulamentação» contendo o «resultado obtido» no «exame laboratorial» ut art 6-3 da Lei 18/2007 mas de - «factos de que possua conhecimento directo e que constituam objecto de prova» ut art 128-1 aplicável a Arguido ex vi art 140-2 do CPP: Espaço, tempo e modo, causa, motivo ou razão dos actos pessoais de condução subsequente a ingestão de alimentos (líquidos ou sólidos) alcoólicos em quantidade e qualidade causalmente determinantes da TAS > 1,20 g/l export pelo analisador quantitativo constitutiva de «condução em estado de embriaguez», bem como espaço, tempo, modo e resultados da fiscalização, por que uma resposta afirmativa do Arguido em Audiência de Julgamento à questão fundamental à demonstração do crime «conduzia com TAS > 1,20 g/l» - acusada /pronunciada ex vi o resultado export pelo analisador quantitativo - só pode valer como confissão daqueles factos desfavoráveis para se precludir o risco inadmissível da Decisão Final se fundamentar em confissão de factos não verdadeiros ou cuja realidade ele pode não ter a capacidade de afirmar por ultrapassarem o que pode apreender: que o objecto da vontade executada livre, consciente e deliberadamente pelo agente de seus actos de condução após ingestão de alimentos alcoólicos também abranja a TAS concretamente export pelo analisador quantitativo [47]. Destarte a «ineficácia substancial» duma «declaração processual penal» em ACTA como in casu que «A confissão integral e sem reservas implica, nos termos do art.º 344.º, n.º 2 als.
- a)e b), do C.P.P., renúncia à produção da prova relativa aos factos imputados e consequente consideração destes como provados, assim como a passagem de imediato às alegações orais e à determinação da sanção aplicável» com desiderato ilegal dela abranger a TAS > 1,20 g/L sendo que o apelo a teor/es de ACTA de Audiência de Julgamento em I Instância não tem cabimento quanto ao «ponto de facto objectivo» da concreta TAS > 1,20 g/L porque objecto de Recurso Penal é a «questão recorrida» adveniente da, ou ínsita à, «Decisão Final» recorrida sobre as quais o Tribunal de II Instância exerce seu múnus restrito ao «julgamento [do (des)acerto] do julgado a quo» e não propriamente um novo «julgamento (directo e imediato) da versão acusada / pronunciada / contestada» como se não tivesse havido Audiência de julgamento em I Instância, muito menos novo «julgamento ad quem pelo/s teor/es de Acta de Audiência» como se ela contivesse «factos provados» stricto sensu como parece querer o MP a quo [48]. 6. A redução ad quem do nº de dias de multa, de 90 para «inferior a 30 dias», é improcedente por não se detectar na sua fundamentação uma violação dos parâmetros atinentes às «operações de determinação ou do procedimento, à indicação dos factores que devam considerar-se irrelevantes ou inadmissíveis, à … indicação de factores relevantes, … à … aplicação dos princípios gerais de determinação, quer quanto à questão do limite da moldura da culpa, bem como a forma de actuação dos fins das penas no quadro da prevenção»; 7. A redução ad quem do nº de dias de multa, de 90 para «inferior a 30 dias», é improcedente por o Recorrente acabar por se quedar pela expressão quanto à quantificação da pena a quo bda discordância - mais subjectiva do que objectiva – sem se concretizar um erro a quo por exemplo dos tipos não valorização de uma circunstância de cariz atenuativo relevante e ou valorização a quo como agravante de uma circunstância atenuante e ou a subvalorização a quo de uma circunstância atenuativa e ou a sobrevalorização a quo de uma circunstância agravadora, que não se descortinam na «Decisão Final» recorrida; 8. A redução ad quem do nº de dias de multa, de 90 para «inferior a 30 dias», é improcedente por ter o Recorrente olvidado que, sendo o crime de «condução de veículo em estado de embriaguez» previsto por «dolo ou negligência» e punido em qualquer das hipóteses com 1 mês a 1 ano de prisão ou 10 a 120 dias de multa por que os ½ das penas são 6 meses 15 dias de prisão e 65 dias de multa, deve o Tribunal Penal reservar quantificações próximas ou aproxi madas ou destas abeiradas dos limites inferiores das penas abstractamente aplicáveis, aos casos típicos da prática daquele crime por «negligência consciente» ou «negligência inconsciente», sob pena da Ordem Jurídica correr o risco de renunciar à realização das ditas exigências de punição decisivas como a prevenção especial e a prevenção geral e ainda por preocupação - em decorrência do «princípio da igualdade» - de «justiça relativa» com casos similares ao sub judice apreciados por Tribunais Superiores no passado recente e não só, verbi gratiae os sgs: 1. ARC de 21-01-2015 no processo 20/14.8GTGRD.C1 in www.dgsi.pt: « I - A graduação da medida concreta da pena acessória é efectuada em função dos mesmos factores que determinam a graduação da pena principal, ou seja, nos termos do disposto no art. 71.º do Código Penal com a excepção de que a finalidade a atingir é mais limitada, dado que a sanção em causa tem apenas em vista prevenir a perigosidade do agente. II - O condutor que necessita de carta de condução para exercer a sua profissão tem que ter uma maior consciência da perigosidade que é conduzir sob os efeitos de álcool. III - Sopesando todas as circunstâncias, temos de concluir que, conduzindo o arguido com a TAS de 2,18 g/l, muito acima do mínimo criminalmente punível, temos que a pena acessória aplicada de proibição de conduzir veículos com motor pelo período de 9 (nove) meses se mostra justa, proporcional e equilibrada»; 2. ARE de 11-10-2016 na CJR 4-2016 pág 290 conforme o qual «I - É da mais elementar justiça não premiar ou branquear condutas que, com o fito de evitar a deteção do estado de influenciado pelo álcool e a pena acessória para quem conduz em tais condições, põem em causa a autoridade do Estado, justificando-se a aplicação de pena acessória de proibição de conduzir, fixada para além do seu limite mínimo. II - Reduzir a pena acessória para o limite mínimo legalmente previsto para o crime em presença, com pretende o recorrente, seria contraproducente e não satisfaria as exigências de prevenção geral, que o caso reclama»; 3. ARG de 24-4-2017 no processo 12/17.5GAPTL G1 in www.dgsi.pt: «I) A condução automóvel, em si, já é uma atividade perigosa e sê-lo-á muito mais quando exercida por quem, por ter ingerido bebidas alcoólicas em excesso, não está em condições de o fazer. Trata-se de uma conduta que, por colocar frequentemente em causa valores de particular relevo, como a vida, a integridade física e o património, se reveste de acentuada perigosidade. É justamente essa perigosidade que se visa prevenir com a aplicação da pena acessória de proibição de conduzir. Uma vez que tal perigosidade é tanto maior quanto maior for o grau de alcoolemia detetado no condutor, a taxa de álcool no sangue há-de constituir um fator relevante na determinação da medida da pena acessória. II) No caso dos autos, tendo o arguido apresentado uma taxa de álcool no sangue de, pelo menos, 2,088 g/l, deduzido o valor de erro máximo admissível, no quadro de uma atuação dolosa e, não obstante as apuradas circunstâncias relativas à primariedade, à atitude confessória e às condições pessoais do recorrente, justifica-se a aplicação da pena acessória de proibição de conduzir de 6 meses, pois que a mesma se apresenta como necessária para atingir o nível mínimo de verdadeira advertência penal, de modo a que a eficácia preventiva de tal pena não fique irremediavelmente afetada»;……………………………………………………………………………………………………………………………… Ademais à sobredita delimitação de «objecto de Recurso» e «poderes de cognição» e «po deres de decisão» deste TRP, cumpre objectivar previamente que o Recorrente - para fundamentar o pedido recursivo de revogação ad quem da proibição a quo de conduzir veículos com motor categoria N - alegou no corpo da Motivação - sob «IV - DA PENA ACESSÓRIA» - que: « É consabido que as finalidades das penas no ordenamento jurídico-penal têm como finalidade a prevenção geral e especial positiva, prevista no artigo 40.º, n.º 1 do Código Penal e que decorre do artigo 18.º, n.º 2 da Constituição da República Portuguesa. Referimo-nos não só as penas principais, mas também às penas acessórias, devendo as segundas cumprir com as finalidades das penas ínsitas nas normas referidas. Como aliás é pacifico e amplamente defendido quer na doutrina, quer na jurisprudência. Por um lado, a prevenção geral positiva consagra, como finalidade da pena, a proteção de bens jurídicos. Através da aplicação da pena pretende-se dirigir à comunidade de homens a segurança ínsita no artigo 40.º, n.º 1 do Código Penal, ou seja, assegurar a proteção de bens jurídicos. A posição vertida neste artigo, nas palavras do Sr. Professor Doutor Figueiredo Dias, pode ser entendida “como forma de que o Estado se serve para manter e reforçar a confiança da comunidade na validade e na força de vigência das suas normas de tutela de bens jurídicos e, assim, no ordenamento jurídico-penal…” Por outro lado, a prevenção especial positiva consagra, como finalidade da pena, a ressocialização do agente. Com a pena pretende-se que o agente adote uma conduta conforme o direito e que, assim, não volte a violar bens jurídicos. Nas palavras de Figueiredo Dias, “o Estado só se afigura instância legítima para infligir ao delinquente uma pena que de todo o modo constitui um mal, quando a esse mal pode ser assacado carácter social-positivo”. Com respaldo constitucional no artigo 30.º, o artigo 40.º estabelece um conjunto de critérios, apoiado na doutrina, a qual determina as finalidades das penas. Finalidades estas que, pese embora possam ter como efeito da aplicação da pena, nunca poderão ser colocadas em causa em virtude desta. A título de exemplo, a prevenção geral, pese embora esteja consagrada, nunca poderá ter como consequência uma finalidade de prevenção geral negativa, porquanto esta determina a instrumentalização do agente. Assim, a opção legislativa do nosso ordenamento jurídico obnubila as teorias retribucionistas e abraça as teorias prevencionistas, no que concerne às finalidades das penas. Neste sentido, o nosso ordenamento prevê que as finalidades das penas serão de prevenção geral e especial positiva. Sucede que no âmbito dos presentes autos, e não discutindo a posição adotada pelo ordenamento jurídico-penal, podemos seguramente afirmar que a finalidade da pena se estriba na proteção de bens jurídicos e na ressocialização do agente. Naturalmente, a aplicação de uma pena determina uma consequência e a qual deve ser cumprida! Tendo sido submetido a julgamento, o arguido foi condenado nos termos do artigo 292.º e 69.º, n.º 1, al. a), ambos do Código Penal. Sucede que o arguido é motorista de veículos pesados de mercadorias (afecto ao transporte internacional) e a aplicação desta pena, nos termos em que foi aplicada, é materialmente injusta e violadora das finalidades das penas consagrada no artigo 30.º da C…R…P… e do artigo 40.º do Código Penal, conforme pretendemos demonstrar. Em primeiro lugar, o arguido sido condenado numa pena acessória de proibição de condução de veículos a motor, nos termos do artigo 69.º, n.º 1, al.
- a)do C…P… pelo período de 4 meses e 15 dias. Ora, não sendo nossa pretensão defender que o arguido não deveria ter sido condenado na pena acessória de proibição de condução de veículos. Tal condenação é imposta, ainda que não automática, pelo artigo 69.º, n.º 1 do C…P… . Pretendemos demonstrar que sendo o arguido condutor de veículos pesados de mercadorias afecto ao transporte internacional, ver-se-á impedido de trabalhar durante o tempo em que estiver a cumprir a pena. O que inexoravelmente levará a um efeito de estigmatização do arguido. Em segundo lugar, o arguido praticou os factos pelos quais vem acusado em um contexto social e não laboral, não sendo sequer seu hábito beber! Tratou-se de uma situação extremamente pontual e da qual o arguido se arrepende. Acresce ainda que os efeitos decorrentes da pena acessória aplicada serão avassaladores na vida do arguido, colocando em causa as finalidades de prevenção especial positiva. Com efeito, o arguido tem obrigações decorrentes de contratos de mútuo celebrados conforme dado como provado na sentença recorrida, e, em face da pena acessória aplicada, o arguido entrará em situação de incumprimento, o que determinará que a sua vida irá afunilar num sem fim de incumprimentos, dos quais poderá nunca vir a recuperar! Assim, violar-se-á a finalidade da pena de ressocialização do agente, uma vez que a sua aplicação, pese embora entendamos que não existe qualquer finalidade de prevenção especi al positiva, irá determinar um efeito adverso ao que o nosso ordenamento jurídico consagra. Todavia, existe a possibilidade de o arguido não ser condenado, se as finalidades da pena forem respeitadas, na pena acessória de condução de todo o tipo de veículos a motor. Atentemos ao artigo 69.º, n.º 2 do Código Penal que estabelece que: “A PROIBIÇÃO PRODUZ EFEITO A PARTIR DO TRÂNSITO EM JULGADO DA DECISÃO E PODE ABRANGER A CONDUÇÃO DE VEÍCULOS COM MOTOR DE QUALQUER CATEGORIA.” (…). Ora, o elemento gramatical da norma transcrita é bastante claro quando afirma que a pena acessória de proibição de condução de veículos com motor pode abranger todos os veículos com motor de qualquer categoria e, inversamente, não se extrai desta que que abrange. É materialmente diferente o poder abranger e o abranger. Desde logo, confere-nos margem para interpretarmos a norma no sentido de que, quando foi aplicada esta proibição, poderá ser apenas quanto a determinadas categorias de veículos. Assim, entendemos que o legislador pretendeu com esta possibilidade estabelecer que o arguido não teria de ser condenado na pena acessória de condução de qualquer veículo a motor, podendo, discricionariamente, determinar a proibição de certos tipos de categorias. Atente-se que a nossa afirmação não vai no sentido de que o juiz tem de definir, na sentença, quais as categorias de veículos que o arguido não pode conduzir, mas que o pode fazer quando isso não prejudique as finalidades da/s pena/s aplicada/s! Face a esta abordagem, ou seja, à interpretação do elemento gramatical da norma, facilmente se chegará a esta conclusão. Se a norma diz que o juiz pode fazer o mais, ou seja, proibir a condução de veículos a motor de qualquer categoria, poderá também o menos, ou seja, proibir a condução de veículos a motor de determinadas categorias. E, esta interpretação, pois se o juiz pode proibir a condução de veículos com motor de qualquer categoria, não tem de proibir todas as categorias, levará a uma aplicação mais justa e menos estigmatizante das penas. Com efeito, seremos forçados, face ao caso concreto, a defender que as exigências de prevenção permitem esta interpretação, sob pena de se aplicar uma pena inconstitucional, violando-se o disposto no artigo 18.º n.º 2 da Constituição da República Portuguesa e, ainda, o artigo 40.º do Código Penal. Atente-se que no caso sub judice, face às obrigações que o arguido tem de cumprir, a imposição desta pena acessória irá, de resto, representar a ruína (económica) do arguido, violando as finalidades da pena, mormente, a prevenção especial positiva. Neste sentido, e porque foram dados como provados os seguintes factos, o arguido: 1) Quando praticou o facto foi num contexto social de reunião familiar e não no contexto do seu trabalho; 2) Nunca se viu abraços com a justiça, atente-se ao registo criminal do arguido que não contém qualquer inscrição; 3) Encontra-se socialmente integrado, levando uma vida de árduo trabalho e sacrifício; Por outras palavras, determinam estes factos que as exigências de prevenção especial sejam diminutas. Acresce ainda que, conforme dado como provado, o arguido todos os meses paga o valor de 620,00€ referente a créditos bancários contraídos, e que não representam a globalidade das despesas que o arguido tem mensalmente. Se o arguido não puder trabalhar, os bancos não sentirão complacência com a alteração da situação económica do arguido. Se o arguido for impedido de trabalhar em virtude da aplicação da pena acessória, inevitavelmente irá entrar em incumprimento, o que, salvo o devido respeito por opinião diversa, confrontará directamente com as finalidades da pena, nomeadamente de prevenção especial positiva. Por conseguinte, não podemos deixar de defender que o n.º 2 do artigo 69.º do Código Penal encerra a possibilidade do mais, ou seja, a aplicação da pena acessória poder incidir sobre todas as categorias de veículos motorizados e que tal não deve ser aplicada ao arguido. Sendo as exigências de prevenção especialmente diminutas, recorre-se da decisão que determina a aplicação da pena acessória de proibição de condução de veículos a motor de qualquer categoria, pois, esta questão não se colocaria se o arguido fosse proibido de conduzir veículos todo o tipo de veículos a motor, com a exceção de veículos da categoria N destinados ao transporte de mercadorias, uma vez que a aplicação da pena acessória nestes termos é possível face ao teor do artigo 69.º, n.º 2 do Código Penal.» Face a tal corpo da Motivação e ao disposto na parte que importa in casu do art 69-1-a do CP - «É condenado na proibição de conduzir veículos com motor por um período fixado entre três meses e três anos quem for punido: …por crime…previsto…no…artigo…292º», o PEDIDO recursivo de redução ad quem do tempus de proibição de conduzir veículos com motor, dos 4m 15d a quo para os 3 meses queridos pelo Recorrente, é IMPROCEDENTE. Desde logo por não poder este TRP valorar, por não constarem do rol de factos a quo julgados provados, os seguintes «factos históricos» ou «juízos de facto»: «… ver-se-á impedido de trabalhar durante o tempo em que estiver a cumprir a pena … o arguido praticou os factos pelos quais vem acusado em um contexto social e não laboral, nãso sendo sequer seu hábito beber ! Tratou-se de uma situação extremamente pontual e da qual o arguido se arrepende … o arguido tem obrigações decorrentes de contratos de mútuo celebrados … o arguido entrará em situação de incumprimento, o que detrminará que a sua vida irá afunilar num sem fim de incumprimentos, dos quais poderá vir a recuperar»; sob pena de se decidir ad quem com factualidade fora do objecto do processo na instância recursiva delimitado pelo objecto do processo firmado na «Decisão Final» recorrida já que não houve pedido de ampliação ad quem do rol de factos a quo julgados provados. Adiante, consabido que a pena acessória «proibição de conduzir veículos a motor» existe no CP desde a vigência em 01-10-1995 do DL 48/95 como cominação a agente de «crime cometido no exercício daquela condução [«de veículos motorizados»] com grave violação das regras do trânsito rodoviário» e de «crime cometido com utilização de veículo e cuja execução tiver sido por este facilitada de forma relevante», Desde a vigência da Lei 77/2001 de 13/7 como cominação a agente de «crime previsto nos artigos 291.º ou 292.º» e de «crime cometido com utilização de veículo e cuja execução tiver sido por este facilitada de forma relevante» e de «crime de desobediência cometido mediante recusa de submissão às provas legalmente estabelecidas para detecção de condução de veículo sob efeito de álcool, estupefacientes, substâncias psicotrópicas ou produtos com efeito análogo» e Desde a vigência da Lei 19/2013 de 21/2 também a agente de «crimes de homicídio ou de ofensa à integridade física cometidos no exercício da condução de veículo motorizado com violação das regras de trânsito rodoviário», por sempre estar em causa «inabilidade pontual» para a condução em via pública ou equiparada, Sabido que a história legislativa foi sempre ampliativa do catálogo de hipóteses típicas de aplicação de tal «pena acessória» introduzida na sequência do magistério de JORGE DE FIGUEIREDO DIAS por se «... deve[r], no plano de lege ferenda, enfatizar-se a necessidade e a urgência político-criminais de que o sistema sancionatório português passe a dispor - em termos de direito penal geral e não somente de direito penal da circulação rodoviária - de uma verdadeira pena acessória de proibição de conduzir veículos motorizados» que «… deveria ter como pressuposto formal a condenação do agente numa pena principal por crime cometido no exercício da condução, ou com utilização de veículo, ou cuja execução tivesse sido por este facilitada de forma relevante; e por pressuposto material a circunstância de, consideradas as circunstâncias do facto e a personalidade do agente, o exercício da condução se revelar especialmente censurável» e assim «Uma tal pena - possuidora de uma moldura penal específica - só não teria lugar quando o agente devesse sofrer, pelo mesmo facto, uma medida de segurança de interdição da faculdade de conduzir, sob a forma da cassação da licença de condução ou de interdição da sua concessão» porque «As razões criminais que justificam a aludida necessidade e urgência de uma regulamentação são (infelizmente) por demais óbvias entre nós para que precisem de ser especialmente esclarecidas. Se… o pressuposto material de aplicação desta pena deve ser que o exercício da condução se tenha revelado, no caso, especialmente censurável, então essa circunstância vai elevar o limite da culpa do (ou pelo) facto. Por isso, à proibição de conduzir deve também assinalar-se e (pedir-
- se)um efeito geral de intimidação, que não terá em si nada de ilegítimo, porque só pode funcionar dentro dos limites da culpa. Por fim, mas não por último, deve esperar-se desta pena acessória que contribua, em medida significativa, para a emenda cívica do condutor imprudente e leviano» [49]; Consabida que, «Como pena acessória que é, a proibição de conduzir obedece, na determinação da sua medida concreta, essencialmente aos mesmos critérios que para o efeito são utilizados no que respeita à pena principal e que constam do art. 71º do C. Penal, tendo-se, porém, em conta que a sua finalidade tem um âmbito mais restrito, pois enquanto que a pena principal visa a proteção de bens jurídicos e a reintegração do agente na sociedade, a proibição de conduzir visa principalmente censurar a perigosidade do agente e contribuir para a sua emenda, ainda que se lhe assinale também um efeito de prevenção geral de intimidação, a funcionar exclusivamente dentro do limite da culpa», Mas sem «relação de proporcionalidade rigorosa entre o quantum fixado para a pena principal e aquele fixado para a pena acessória» [50] porque «a ampla margem de discricionariedade facultada ao juiz na graduação da sanção de inibição de conduzir, permite-lhe perfeitamente fixá-la, em concreto, segundo as circunstâncias do caso, desde logo as conexionadas com o grau de culpa do agente, nada na Lei Fundamental exigindo que as penas acessórias tenham que ter, no que respeita à sua duração, correspondência com as penas principais» [51] pelo que A quantificação da pena acessória «proibição de conduzir», «Para … cumprir a finalidade que o ordenamento lhe confere e que temos por adequado, … deverá situar-se num plano que procure interiorizar a necessidade de conformação da conduta posterior do arguido à vigência da norma e servirá, certamente, como efeito redentor da conduta assumida, capacitando o arguido da necessidade de refrear qualquer impulso de ingestão de bebidas alcoólicas sempre que tenha que conduzir» [52]. Ora o argumento «pena … materialmente injusta e violadora das finalidades das penas consagradas no artigo 30º» [53] e, adiante, o argumento «pena inconstitucional» por violação do art 18-2 [54], ambos da CRP, são IMPROCEDENTES tal como o Tribunal Constitucional e os Tribunais Superiores já tiveram oportunidade de se pronunciar variadas vezes sobre questões como as suscitadas de inconstitucionalidade do art 69-1-a verbi gratiae nos Acórdãos infra indicados para cujas fundamentações aqui se remete para simplificação de exposição por serem mutatis mutandis aplicáveis in casu: 1. ATC 53/2011 de 01-02-2011 decidiu «Não julgar inconstitucional a norma constante do artigo 69.º, n.º 1, alínea a), do Código Penal, quando interpretado no sentido segundo o qual, com a condenação pela prática do crime previsto no artigo 291.º, n.º 1, alínea a), do Código Penal, tem lugar, sem necessidade de se apurar qualquer outro requisito, a aplicação da sanção acessória consistente na inibição de conduzir»; 2. ARC de 14-01-2015 no processo 648/12.0GASEI-B.C1 in www.dgsi.pt: «XVI - A proibição de conduzir veículos motorizados como pena acessória que é deve ser graduada, tal como a pena principal, segundo os critérios gerais de determinação das penas que decorrem dos artigos 40.º e 71.º do Código Penal. XVII - A pena acessória tem uma função preventiva adjuvante da pena principal, cuja finalidade não se esgota na intimidação da generalidade, mas dirige-se também, ao menos em alguma medida, à perigosidade do agente, reforçando e diversificando o conteúdo penal sancionatório da condenação (Figueiredo Dias, Direito Penal Português, As Consequências Jurídicas do Crime, §§ 88 e 232)»; 3. ARC de 21-01-2015 no processo 20/14.8GTGRD.C1 in www.dgsi.pt: « I - A graduação da medida concreta da pena acessória é efectuada em função dos mesmos factores que determinam a graduação da pena principal, ou seja, nos termos do disposto no art. 71.º do Código Penal com a excepção de que a finalidade a atingir é mais limitada, dado que a sanção em causa tem apenas em vista prevenir a perigosidade do agente. II - O condutor que necessita de carta de condução para exercer a sua profissão tem que ter uma maior consciência da perigosidade que é conduzir sob os efeitos de álcool. III - Sopesando todas as circunstâncias, temos de concluir que, conduzindo o arguido com a TAS de 2,18 g/l, muito acima do mínimo criminalmente punível, temos que a pena acessória aplicada de proibição de conduzir veículos com motor pelo período de 9 (nove) meses se mostra justa, proporcional e equilibrada»; 4. ARC de 18-3-2015 no processo 136/14.0GCACB.C1 in www.dgsi.pt: «I - A proibição de conduzir veículos motorizados como pena acessória que é deve ser graduada, tal como a pena principal, segundo os critérios gerais de determinação das penas que decorrem dos artigos 40.º e 71.º do C… Penal. II - Sem deixar de se ter conta a natureza e finalidades próprias da pena acessória de modo a que a pena acessória aplicada em concreto se mostre ajustada às suas finalidades específicas dentro do programa político-criminal em matéria dos fins das penas enunciado pelo artigo 40.º do C… Penal»; 5. ARP de 15-4-2015 no processo 752/14.0PTPRT.P1 in www.dgsi.pt: «I – A pena acessória de proibição de conduzir veículos com motor, como verdadeira pena está indissoluvelmente ligada ao facto praticado e à culpa do arguido, constituindo uma sanção adjuvante da pena principal que permite o reforço e diversificação de conteúdo penal da condenação por forma a assegurar a prevenção da perigosidade. II – A pena acessória não é de aplicação automática e tratando-se de sanção de duração variável depende da gravidade do crime e ou do fundamento que justifica a privação do direito, limitada ao necessário para salvaguarda de outros direitos ou interesses constitucionalmente protegidos»; 6. ARL de 26-5-2015 no processo 915/14.9SGLSB.L1-5 in www.dgsi.pt: «I – Não é atendível para graduação da pena acessória de proibição de conduzir veículos com motor, aplicável por força do artigo 69º, nº 1, alínea c), do Código Penal, a circunstância de o agente necessitar de exercer a condução para o exercício da sua actividade profissional. II - Não é legalmente admissível o cumprimento da pena acessória de proibição de conduzir veículos com motor de forma descontínua, mormente fora dos períodos normais de trabalho e aos fins-de-semana»; 7. ARE de 02-6-2015 no processo 296/14.0GAVNO.E1 in www.dgsi.pt: «I - Para que haja dolo no crime de condução de veículo em estado de embriaguez não é necessário que o arguido tenha consciência do teor exato da taxa de álcool no sangue - taxa essa impossível de quantificação por convencimento pessoal -, sendo suficiente que o agente tenha consciência que ingeriu bebidas alcoólicas, que se encontrava sob o efeito do álcool, e que, mesmo assim, conduziu, sabendo que a condução sob o efeito do álcool é proibida e punida por lei. II - A aplicação da pena acessória de proibição de conduzir veículos com motor (prevista no artigo 69º do Código Penal) não viola qualquer preceito constitucional, designadamente o que prevê e protege o “direito ao trabalho” (artigo 58º da C…R…P…)»; 8. ARE de 12-4-2016 no processo 102/14.6PAOLH.E1 in www.dgsi.pt: «I – A pena acessória de proibição de conduzir, como vem sendo pacificamente reconhecido pela doutrina e pela jurisprudência, justifica-se por exigências de prevenção, não só especial, mas sobretudo geral e com intimidação, dentro do limite da culpa, não só por o crime ter sido cometido no exercício da condução, como também pela apreciação das circunstâncias dos factos e da personalidade que se revelarem substancialmente censuráveis no âmbito da protecção dos bens visados pela incriminação. II – A medida da pena há-de ser dada por considerações de prevenção geral positiva, isto é, prevenção enquanto necessidade de tutela dos bens jurídicos, que se traduz na tutela das expectativas da comunidade na manutenção da vigência da norma infringida, que fornece uma “moldura de prevenção”, isto é, que fornece um quantum de pena que varia entre um ponto ótimo e o ponto ainda comunitariamente suportável de medida da tutela dos bens jurídicos e das expectativas comunitárias e onde, portanto, a medida da pena pode ainda situar-se até atingir o limiar mínimo, abaixo do qual já não é comunitariamente suportável a fixação da pena sem pôr irremediavelmente em causa a sua função tutelar»; 9. ARE de 21-6-2016 no processo 101/15.0GTBJA.E1 in www.dgsi.pt: «I. A pena acessória de proibição de conduzir veículos motorizados, pela prática de um crime de condução em estado de embriaguez, apresenta-se como uma censura adicional ao crime cometido e destina-se a prevenir a perigosidade do agente que praticou a infracção»; 10. ARL de 13-7-2016 no processo 202/16.8PGDL.L1-3 in www.dgsi.pt: «I - O álcool na condução rodoviária é uma praga que os portugueses têm de erradicar, como já aconteceu noutros países. II - Os acidentes de viação constituem nos tempos que correm uma verdadeira epidemia no mundo moderno tal a sua magnitude, representando uma das maiores causas de morbidade e mortalidade especialmente entre os jovens, com as suas graves consequências para o conjunto da Sociedade. III - O álcool prejudica a habilidade para conduzir veículos pelos seus efeitos no sistema nervoso central atuando como um anestésico geral, tornando lenta e menos eficiente a aquisição e o processamento de informações. Compromete a capacidade de distribuir a atenção entre as diversas tarefas e objetos na condução de um veículo motorizado. IV - O álcool compromete ainda as mais variadas funções, cuja integridade é essencial para a condução de um veículo motorizado com a devida segurança, tais como: o sistema motor ocular; a visão periférica, o processamento de informações; a memória; a performance; a função vestibular e controlo da postura, o que propicia a ocorrência de acidentes. V - Dos vários efeitos causados pelo álcool os principais são os relacionados com a perda de capacidade sensorial face ao meio envolvente, onde a capacidade de atenção e concentração são seriamente afetadas. Na realidade, a perceção visual fica mais reduzida, por distorção de imagem, o que provoca uma incapacidade correta de avaliação quer das distâncias quer das velocidades. Também o tempo de recuperação após um encadeamento é maior, o que aliado ao estreitamento do campo visual resulta numa mistura explosiva para se dar o acidente. VI - No que tange ao lado subjetivo do tipo legal de crime da previsão do art. 292.º, n.º 1 do Código Penal não é necessário o dolo ou intenção ou, seq